sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

A Educação Integral tecendo caminhos para os educandos




          A Educação Integral tecendo caminhos para os educandos
                                    Rosa Maria Olímpio




" O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a 














a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o 













que colher."        (Cora Coralina)











Palavras chave:



Integração-Aprendizagem- Formação Humana









Introdução


A Educação Integral é uma proposta de ensino que assegura o desenvolvimento do educando na dimensão intelectual, emocional, social, cultural e física. Como concepção, a proposta de Educação Integral deve ser assumida por todos os agentes envolvidos no processo formativo das crianças, jovens, adultos, famílias, educadores, gestores e a comunidade local.
Foi, inclusive, uma série de inovações, a roda, agricultura, o manuseio do fogo, a vestimenta, entre outras, que permitiram a espécie humana sobreviver e lograr êxito na ocupação de vastas áreas do Planet (CARDOSO, 2002; CURI, 2013).
Desse modo, a escola converte-se em um espaço essencial para assegurar que todos e todas tenham garantida uma formação integral. Ela assume o papel de articuladora das diversas experiências educativas que os alunos podem viver dentro e fora dela, a partir de uma intencionalidade clara que favoreça as aprendizagens importantes para o seu desenvolvimento integral.
Trata-se de uma proposta contemporânea porque, alinhada às demandas do século XXI, tem como foco a formação de sujeitos críticos, autônomos e responsáveis consigo mesmos e com o mundo
Sua proposta é inclusiva porque reconhece a singularidade dos sujeitos, suas múltiplas identidades e se sustenta na construção da pertinência do projeto educativo para todos.
Essa proposta é alinhada com a noção de sustentabilidade porque se compromete com processos educativos contextualizados e com a interação permanente entre o que se aprende e o que se pratica.
Ao reconhecer o direito de todos e todas promove a equidade, em um espaço de direito em que o ato de aprender é acessado de modo igualitário cujas oportunidades educativas sejam diferenciadas e diversificadas a partir da interação com múltiplas linguagens, recursos, espaços, saberes e agentes, condição fundamental para o enfrentamento das desigualdades educacionais.
Uma proposta de Educação Integral confere centralidade ao aluno. Isso significa que todas as dimensões do projeto pedagógico (currículo, práticas educativas, recursos, agentes educativos, espaços e tempos) são construídas, permanentemente avaliadas e reorientadas a partir do contexto, interesses, necessidades de aprendizagem e desenvolvimento e perspectivas de futuro dos estudantes.
Para contemplar a singularidade de cada estudante na construção do seu percurso formativo é necessário que os educadores detenham um amplo conhecimento das múltiplas formas pelas quais as crianças e jovens aprendem e se desenvolvem e, consequentemente, de uma pluralidade de métodos e intervenções que podem ser colocados em pratica a partir de suas necessidades, interesses e dos objetivos de aprendizagens e desenvolvimento definidos no currículo.

Em uma proposta de Educação Integral, é fundamental que os educadores constituam autonomia para reconhecer as demandas dos alunos, as oportunidades que se colocam no processo de ensino-aprendizagem e para construir estratégias personalizadas.

A Educação Integral e a valorização da cultura e da formação humana
A Educação Integral reconhece, ainda, as crianças e os jovens como sujeitos de direito, atores sociais com expressão e linguagens singulares. São criadores e produtores de culturas próprias construídas na interação com seus próprios pares e no intercâmbio entre idades e gerações. Propostas de Educação Integral oportunizam tempo e espaço para a livre criação de suas culturas e valorizam e reconhecem saberes, fazeres e sentimentos expressados por meio do universo simbólico e artístico.
“A educação faz sentido porque as mulheres e homens aprendem que através da aprendizagem podem fazerem-se e refazerem-se, porque mulheres e homens são capazes de assumirem a responsabilidade sobre si mesmos como seres capazes de conhecerem.” Paulo Freire
O brincar é entendido como potência de crianças e não apenas como ferramenta para o aprendizado escolar. Manifestações plurais e diversas de jovens são oportunidades de expressão e posicionamento diante das questões da vida, das relações e da comunidade.
Para a educação integral é fundamental que a questão da multidimensionalidade dos sujeitos esteja contemplada em todos os aspectos do processo de ensino-aprendizagem, garantindo interações e estratégias que garantam o desenvolvimento não apenas intelectual, mas também social, emocional, físico e cultural. O desenvolvimento integral é, portanto, o elemento central da proposta formativa da Educação Integral.
Isso significa que na Educação Integral os conteúdos acadêmicos se articulam aos saberes dos alunos e comunidades, dialogam com diferentes linguagens e compõem experiências formativas que envolvem e integram o conhecimento do corpo, das emoções, das relações e códigos socioculturais.
Além disso, são também elementos curriculares na Educação Integral, as formas de gestão e organização da instituição (escola, organização social ou projeto), sua relação com o território, a rede de agentes envolvidos, as práticas pedagógicas, a formação de educadores e as estratégias de avaliação.
Essencialmente no que se refere à Escola, o currículo da Educação Integral pressupõe o acesso do estudante a todas as áreas do conhecimento de maneira articulada e permanente, rompendo com a fragmentação das disciplinas e dando sentido aos conteúdos, a partir das questões, trajetórias, experiências e relações dos sujeitos envolvidos nos processos educativos.
“A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria.” (Paulo Freire)
Trata-se de uma  escola orientada por uma perspectiva integral de educação, sustenta altas expectativas de aprendizagem e desenvolvimento para todos os alunos ao mesmo tempo em que oferece instrumentos para que todos aprendam e se desenvolvam integralmente. Estas altas expectativas se sustentam na premissa de que todos os alunos são capazes de aprender. E, para isso, as estratégias devem ter clara intencionalidade pedagógica e compor um planejamento integrado que defina objetivos e metas de aprendizagem. Neste sentido, a distinção entre aulas e oficinas lúdicas – assim como a separação por períodos – perde o sentido. Todas as propostas devem compor o planejamento da escola e dos educadores.
As diferenças inerentes a cada pessoa constroem a riqueza de nossa humanidade. Propostas de educação integral, então, devem respeitar todas as diferenças representadas pelas deficiências, origem étnico racial, condição econômica, origem geográfica, orientação sexual, religiosa ou qualquer outro fator.
A educação integral apoia-se na ideia de que é necessário reconhecer e abolir barreiras arquitetônicas, políticas, culturais e atitudinais para que todos os espaços sejam inclusivos; e que a diversidade se constitua não apenas como um valor como também é uma oportunidade de desenvolvimento de crianças e jovens em suas diversas dimensões. No contexto da escola, essa perspectiva se concretiza no acesso e permanência qualificada em classe comum da rede regular.
Possui uma gestão democrática com o objetivo de garantir a pertinência de um projeto pedagógico e a efetividade das suas estratégias, é fundamental a participação educativa, decisória e avaliativa de todos os envolvidos, em todas as etapas do processo: do planejamento ao acompanhamento dos resultados. Dessa forma, a participação dos próprios alunos, inclusive das crianças pequenas, é fundamental.

A Gestão Democrática no contexto da Educação Integral
No contexto da Educação Integral, a gestão democrática é imprescindível para garantir que o processo educativo esteja de fato orientado pelo contexto, interesses e necessidades de aprendizagem e desenvolvimento dos alunos. Nas escolas, a gestão democrática está garantida por lei e prevê que o Projeto Político Pedagógico de cada unidade de ensino seja construído e acompanhado com a participação ativa comunidade (alunos, educadores, famílias e comunidade). Para isso é fundamental o diálogo permanente e que o acompanhamento das ações e resultados das escolas seja feito coletivamente por todos e todas.
O desenvolvimento integral é um processo contínuo e permanente, que começa no nascimento do indivíduo, se estende por toda a vida e acontece em diferentes espaços: em casa, na escola, no território. Quanto mais complexas, diversificadas e qualificadas forem as interações a que um indivíduo tem acesso, mais rico será seu universo social e cultural, as conexões que ele será capaz de estabelecer e as suas possibilidades de inserção e intervenção social.
Por esse motivo, a Educação Integral compreende que os processos educativos devem articular os diferentes espaços e tempos de aprendizagem disponíveis e garantir a ampliação e diversificação de interações significativas para todas as pessoas.
E, para que a escola possa garantir todos os aspectos previstos na Educação Integral, o tempo de quatro horas diárias que caracteriza a média da jornada escolar brasileira se mostra insuficiente. Portanto, para a Educação Integral é fundamental a ampliação da jornada para um período entre sete e nove horas diárias. Esta jornada deve ser definida de acordo com os contextos locais e as necessidades dos alunos em cada etapa, sem perder de vista a importância de que os alunos tenham acesso a diferentes interações mediadas pela escola.
A ampliação da jornada escolar
A ampliação da jornada escolar é condição fundamental para uma formação integral. E a partir desta ampliação, são múltiplos os arranjos e modelos possíveis. É possível combinar aulas de 45 ou 50 minutos com tempos mais extensos. Desenvolver práticas educativas inovadoras e inclusivas baseadas em projetos, experimentações, grupos interativos. Desenvolver atividades que aconteçam em diferentes espaços da escola ou do território. Integrar espaços e agentes das comunidades ao cotidiano dos alunos. O importante é que estas formas de organização estejam previstas no projeto político pedagógico da escola e sejam fruto de um planejamento integrado da equipe que confira intencionalidade pedagógica às estratégias.

Podemos definir o conceito de educação integral a partir de um dito africano que diz que “para educar uma criança, é preciso uma aldeia inteira.”
Para garantir as aprendizagens e o desenvolvimento previstos em um projeto de Educação Integral, é fundamental constituir uma ambiência fértil para a troca, a construção coletiva de conhecimentos, a criatividade, a participação, o diálogo e a coesão social.
Além disso, os espaços educativos tradicionais, como a sala de aula, deixam de ser considerados como os únicos espaços de aprendizagem.
Todos os espaços (escolares e não escolares) têm na Educação Integral seu potencial educativo reconhecido e devem ser integrados de forma planejada, na perspectiva de assegurar interações significativas que garantam o aprendizado e o desenvolvimento de todos e todas.
Para a Educação Integral, o território pode ter seu papel educativo definido a partir de
quatro dimensões:
Contexto: o território é contexto. Como tal, ele expressa as identidades, a cultura, as condições de vida e a história das pessoas. Por isso a construção de vínculos entre educadores e alunos e a pertinência do projeto pedagógico (condições essenciais para a aprendizagem e o desenvolvimento) dependem do reconhecimento e da integração da questão territorial;
Participação: a gestão democrática só se realiza na integração com o território já que a participação efetiva das famílias e da comunidade depende de que as pessoas se sintam reconhecidas e parte do projeto educativo;
Conhecimento: o território, seja ele qual for, é rico em interações significativas em estado potencial. Pessoas, saberes, recursos diferenciados podem ser articulados ao itinerário formativo dos alunos enriquecendo seu repertório, garantindo novas aprendizagens, ampliando seu olhar sobre o território e estabelecer conexões possíveis para além das instituições;
Intersetorialidade: para que os alunos aprendam é necessário criar condições para a sua educabilidade. Ou seja, é fundamental que condições dignas de vida e seus direitos estejam observados. Para isso, é importante contar com a interlocução permanente e com o trabalho integrado a equipamentos e agentes de todos os setores que tiverem contribuições relevantes a dar ao desenvolvimento integral das crianças e jovens (saúde, desenvolvimento social, cultura, esporte e lazer.
A Educação Integral é uma concepção de educação definida pelo compromisso com o desenvolvimento integral de todos os sujeitos. Ou seja, a Educação Integral reconhece os sujeitos na sua multidimensionalidade e se compromete com a estruturação de estratégias que garantam a todos, em condições de igualdade, o direito a uma educação de qualidade.
Este compromisso deve ser o cerne da concepção, implementação e avaliação das políticas públicas e se refletir concretamente na forma e organização das escolas e nas práticas pedagógicas dos docentes.
A Política de Educação Integral deve garantir a qualidade com equidade, para isso alguns dispositivos são fundamentais:
1.Planejamento da Gestão Educacional – definição clara de desafios, metas e estratégias.
2. Alinhamento entre todos os atores envolvidos no sistema: convergência de esforços em todos os níveis
3. Modelo de gestão estruturado e sustentável que articule, de maneira dialógica, a secretaria e as escolas
4.Marcos legais que garantam sustentação a política
5.Articulação intersetorial que garanta complementaridade às estratégias
escolares.
6.Além disso, são condições estruturantes de uma Política de Educação Integral:

7.Mínimo de 7 horas e máximo de 9 horas diárias de jornada.
8.Definição das aprendizagens esperadas para cada etapa.
9. Flexibilidade para a construção de formas e organização escolar diferenciada.
10.Processo estruturado de avaliação da política;
11.Processo estruturado de acompanhamento e tutoria dos professores;
12.Garantia de tempo de planejamento e trabalho colaborativo em cada escola;
13.Recursos didáticos de qualidade e disponíveis que apoiem as práticas de referência dos professores;
14. Infraestrutura escolar adequada: mobiliário flexível, internet, acessibilidade, espaços diferenciados e adequados às faixas etárias (ateliê, biblioteca, espaços de convivência e descanso, quadra e espaços verdes, alimentação e higiene pessoal), recursos digitais disponíveis aos estudantes (especialmente a partir do Fundamental II);
15. Interação permanente com outros agentes e espaços não escolares como parte da política de educação integral;
16. Articulação de rede de proteção social aos estudantes com integração mínima das políticas de Educação, Saúde e Desenvolvimento Social.
17. Programa de formação de professores com pelo menos 50% de professores de cada escola envolvidos.
 “Conheço jovens que estão duzentos dias por ano dentro de uma sala de aula e não aprendem, e outros que estão fora e aprendem” (José Pacheco)

O educador português José Pacheco, idealizador da Escola da Ponte, e um dos grandes referenciais quando o assunto é educação, concedeu, em 2017, uma sobre educação integral.

Para ele, o principal ponto crítico da reflexão sobre o assunto é a discrepância entre o discurso e a prática. E o que isso quer dizer, afinal? Que ainda estamos pautados no modelo de escola do século XIX, tentando pôr em prática um pensamento que muitas vezes não cabe ali.
“Estamos diante de muitos equívocos, e o maior deles é pensar que a educação integral é possível em uma escola do século XIX. Não é. Essa velha escola é excludente”.
Pacheco faz duras críticas a uma série de parâmetros que norteiam a escola da forma como a conhecemos na maior parte do Brasil hoje. O conceito de alunos, carteiras, ensino seriado, tudo isso, na visão do educador, destoa da educação integral simplesmente porque não considera que aquele não é o único espaço de aprendizagem da criança e do adolescente.
“Em uma escola que tem sala de aula, aluno, provas, tudo isso, não se pode fazer educação integral. Quando eu digo que não tem aluno em uma escola, me refiro ao aluno como objeto de aprendizagem, e eu não quero isso; o que quero é estar com sujeitos de aprendizagem. As pessoas confundem escola com edifício, mas a escola são as pessoas. Hoje, não se ensina nem se aprende, porque não se pode dar a beber a um cavalo que não tem sede”, provoca Pacheco.

Para Pacheco, é preciso sim entender o contexto de limitações, falta de verba e políticas públicas em que se encontra a maior parte dos professores brasileiros. No entanto, ele reforça como urgente repensar nossas próprias possibilidades enquanto indivíduos. “A grande pergunta é essa: o modo como as escolas trabalham garante o direito à educação que está na Constituição federal? Não. As escolas têm o direito de continuar a trabalhar assim? Não”, provoca o educador.
As práticas integradoras ocorrem principalmente no âmbito do Ensino Médio Integrado e tem sido considerada uma conquista para aqueles que defendem a união da educação básica com a educação profissional. 

A Educação para o trabalho é marcada historicamente pela dualidade entre formação geral e formação técnica, pela fragmentação do ensino e formação desigual entre “elites” e classes trabalhadoras.
Dentre os objetivos   dessa modalidade de Ensino têm-se a formação integral/unilateral, a formação politécnica e a integração das disciplinas propedêuticas e técnicas sob os eixos das categorias do trabalho, da Ciência, da Cultura e da Formação Humana.
Trabalho, da ciência, da cultura e da tecnologia fundamentados no currículo integrado (RAMOS,
Segundo FRIGOTTO; CIAVATTA, (2005).  O currículo integrado propõe uma ruptura com a lógica disciplinar e tem como fio condutor, a interdisciplinaridade como mediadora da integração entre os saberes gerais e específicos, abrangendo o conhecimento com uma totalidade. Para a construção do currículo integrado, faz-se necessária a reflexão, a análise pedagógica e a mudança de postura por parte das instituições de Ensino, dos gestores, educadores e educandos.
 Os professores acostumados com práticas educativas já enraizadas, às quais
Levam à fragmentação do conhecimento, encontram dificuldades para implementá-lo.  No entanto, embora em números menos expressivos, existem pesquisas que demostram experiências com práticas pedagógicas exitosas as quais traçam seu caminho rumo à integração curricular e a formação integral dos estudantes.
É imo








Considerações finais


É imprescindível refletir sobre a maneira como se configura o panorama das práticas integradoras no Ensino Médio, por outro lado, a realização de investigações científicas a respeito dessas experiências poderão incitar outras instituições a desenvolvê-las.
 Busquemos sempre tecer novos caminhos para alcançarmos os objetivos propostos por essa modalidade de ensino e de formação humana e profissional para nossos jovens estudantes. As  práticas pedagógicas integradoras, por sua vez, devem  alicerçar esse caminho traçado de modo a fortalecer os passos dos caminheiros convidando-os sempre a desenhar seu próprio jeito de caminhar de acordo com suas crenças, valores e aptidões

“Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.” (Rubem Alves)

Para que a proposta de ensino e de formação humana do Ensino Integral seja exitosa é necessário uma tomada de atitude e o compromisso com a transformação do ensino. Importante ainda realizar um mapeamento das pesquisas sobre práticas pedagógicas integradoras que nos dê uma visão geral das produções nesta área e, por fim, teceremos o caminho a ser percorrido com responsabilidade, criatividade, competência e espírito de equipe para que o ponto de chegada possa sempre pressupor novos pontos de partida.
É importante oportunizar que o educando deixe de ser objeto passivo que somente recebe o conhecimento teórico e fazer com que ele passe a ser um sujeito emancipado capaz de ler e de escrever a própria história.
“Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses."  (Rubem Alves)



















Referências
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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Os gêneros textuais do contexto empresarial.


Caros alunos,
É importante que saibam o quanto foi importante conhecê-los e iniciar nossa atividade de aprender a arte de redigir gêneros textuais voltados para as atividades empresariais.
Espero que juntos possamos desenvolver as habilidades de produção textual de atas, memorandos, ofícios...
Tive uma idéia e quero compartilhar com vocês. Pensem com carinho em minha proposta e em nossa próxima aula decidimos, em grupo, a possibilidade de colocá-la em prática.
Criaremos na turma uma empresa fictícia, criaremos um nome interessante e original para “registrá-la”. Vão pensando...
Dividiremos a turma em grupos e cada grupo representa um departamento da empresa, com seus respectivos funcionários ( chefes, secretários, assessores...) e produziremos os textos que irão circular no ambiente empresarial com todas as características que lhe são peculiares e passarão pelo revisor de textos.
Espero que tenham acessado o site sugerido e tenham lido o artigo com atenção e a necessária curiosidade de quem busca excelência em sua atuação profissional. Na próxima aula vou ouvi-los e juntos compreenderemos o que é gênero é o que é suporte textual. Como havia prometido,segue o conteúdo de nossa aula inaugural.
Afetuoso abraço, Rosa Maria

Os gêneros textuais do contexto empresarial.
Aprender é interpretar a cultura, é compreender e apreender a realidade.
Para compreender os gêneros textuais, faz-se necessário reconhecer algumas das situações e conceitos elementares e fundamentais na concepção que adotamos nesta disciplina, entre eles, ressaltamos:

Intergenericidade
Os gêneros se imbricam e interpenetram para constituírem novos gêneros. Ou ainda quando um gênero assume a função ou a forma de outro, tendo em vista o propósito da comunicação. Exemplo: o gênero epígrafe pode ser constituído de um poema, uma frase, um conto. O que vai fazer com que seja considerado uma epígrafe é o lugar em que o texto aparece.

Heterogeneidade tipológica

um gênero com a presença de vários tipos textuais. Como já antes dito, em um gênero podem estar presentes diferentes tipos de textos: narrativo, argumentativo, descritivo, injuntivo, entre outros.

Intertextualidade

Um texto que resgata textos anteriores (de conteúdo e/ou tipológica). É comum no processo de escrita escrevermos um texto recorrendo a outro(s) texto(s). A intertextualidade pode ser explícita, quando há citação da fonte do texto primário, como ocorre nos discursos relatados, nas citações, nos resumos e implícita sem citação expressa da fonte, cabendo ao leitor recuperá-la para construir o sentido do texto. Esse recurso é muito usado na publicidade, no humor, na canção popular...

Suportes
Locais onde os gêneros são veiculados, como um jornal, um livro ou uma revista.
é imprescindível para que o gênero circule na sociedade.
não determina o gênero, mas esse exige um suporte especial.
“entendemos como suporte de gênero um lócus físico ou virtual com formato específico que serve de base ou ambiente materializado como texto”. Exemplos: outdoor, encarte, folder, luminosos, embalagens etc.
( Marcuschi ,2008

Mecanismos linguísticos

Marcas lingüísticas mais ou menos estereotipadas identificáveis em cada gênero.
são marcas, muitas vezes, historicamente, construídas nas práticas sociais que têm características próprias tanto na fala como na escrita.
Exemplos: “Era uma vez...” (abertura de narrativa); “Prezado amigo” (começo de uma carta); “Atenção” (aviso).

Domínios discursivos

contextos e situações (cenários) para as práticas sociodiscursivas.
Constituem práticas discursivas nas quais podemos identificar os gêneros textuais próprios ou específicos como rotinas comunicativas institucionalizadas e instauradoras de relações de poder
(MARCUSCHI, 2008).

Os Gêneros textuais que circulam com mais freguência na empresa:

Ata
Atestado
Aviso
Bilhete
Informativos impressos
Cartas profissionais
Circular
Reuniões presenciais
E-mails
Memorando
Net-meeting
Ofício
Procedimento
Protocolo
Relatório
Requerimento
Telegrama
Videoconferência


Referência:


Cilda Magaly de Lucena Palma, Dissertação de Mestrado, UFPE
Orientanda de MARCUSCHI, 2004, Recife PE

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

interações sociais nas instituições escolares


Interações sociais nas unidades escolares


As interações sociais são imprescindíveis para que as metas e os objetivos propostos pela comunidade escolar sejam alcançados.
O diálogo aberto e franco, as tomadas de decisões em equipe com o apoio da comunidade escolar e dos alunos, asseguram o sucesso no processo ensino-aprendizagem e nas atividades culturais desenvolvidas na escola.
É possível, em um mesmo contexto, gestar pessoas com problemas diferentes, sonhos diferentes, ideais diferentes?
A gestão de uma escola pressupõe a convivência harmoniosa entre os pares valorizando competências e habilidades individuais para a interação em equipe.
A construção de um projeto pedagógico dentro da gestão democrática viabiliza a troca de  conhecimentos pedagógicos indispensáveis na compreensão do processo educacional, além da compreensão sobre a função da instituição escola, para articular políticas de formação com a política de gestão, o que sugere a visão estratégica quanto à construção de um projeto político-pedagógico como viabilizador da gestão democrática.
A gestão de conflitos na escola é um conjunto de ações para alcançar a harmonia entre os funcionários – sem afetar a potencialidade e a competência individual, de modo a solucionar  divergências que surgem no ambiente de trabalho decorrente da reunião de pessoas com diferentes opiniões e personalidades.
Administrar a gestão de conflitos na escola sempre foi uma preocupação para os gestores. Sabemos que conflitos, até um certo nível, são normais no ambiente de trabalho – o qual geralmente reúne pessoas de diferentes opiniões e personalidades. No entanto, para alcançar a harmonia entre os funcionários sem afetar a qualidade do ensino, toda a atenção deve ser dada ao assunto.
Ou seja, acompanhar o clima organizacional e o relacionamento entre as pessoas é responsabilidade diária do gestor de modo a valorizar individualmente cada profissional e somar competências e habilidades em prol do todo.
Cada pessoa tem uma personalidade própria e por isso mesmo administrar conflitos começa por é  conhecer bem os  colaboradores procurando a  aproximação com  eles, de modo a  conhecer sobre suas expectativas, seus desejos e seus gostos pessoais.
Quanto mais sincero o gestor  for com eles, mais próximos eles ficarão e isso se transformará em confiança mútua e auxiliará na administração dos  recursos humanos.
É normal que surjam problemas de relacionamento ou conflitos entre os integrantes de uma equipe. Por mais homogêneo que seu pessoal seja, as diferenças sempre existem, e elas podem ocasionar dificuldades de convivência. Um problema pequeno pode se transformar em um sério desentendimento se não for diagnosticado a tempo e se sua solução não for trabalhada.
Primeiro, é necessário identificar o problema ou conflito e avaliar  a postura de cada um, a forma como está trabalhando, o modo como trata as outras pessoas e a ocorrência de erros funcionais no dia-a-dia. O diálogo com os interlocutores daquela pessoa que identificada como parte do problema. Pegar o máximo de informações e exemplos válidos para embasá-lo. Ademais, tentar se colocar no lugar de cada envolvido para facilitar a interpretação dos fatos.
Após a identificação de um problema e o reconhecimento dos envolvidos no conflito, a convocação de  uma reunião é necessária para  ouvir  cada lado, procurando não interromper durante a explanação. Se necessário, envolver outras pessoas que estejam próximas dos implicados.
O gestor sempre deve incentivar a participação de todos na resolução de conflitos. Explique que não se trata de uma “caça às bruxas”: o objetivo é resolver a questão da melhor forma possível, com o mínimo de consequência.
Deixar claro que passamos a maior parte de nosso dia com nossos colegas de trabalho e que, para o bem tanto da escola quanto dos funcionários, é preciso um ambiente tranquilo, harmonioso e sem perturbações.
Diante dos conflitos o gestor deve permitir que cada um fale sobre a sua interpretação dos fatos, mas sempre estando atento a uma eventual intensificação e potencialização do conflito.
O gestor deve  ter a habilidade de escutar todos os lados e não emitir inicialmente nenhum juízo de valor. Todos precisam entender que a escola não pode ser sacrificada e nem prejudicada por conflitos evitáveis.
Utilize algumas técnicas de condução de reunião: use um quadro branco ou um flip-chart para anotar as considerações que julgar importantes, deixando-as visíveis para todos. Tente também manter uma relação amistosa com os componentes da reunião, não tomando qualquer partido.
A tomada de decisões  sempre em busca do consenso de modo a apaziguar o ambiente, tentando retornar ao status anterior ao conflito, é o melhor para a escola  e para toda a comunidade escolar.
Porém, sempre haverá uma ou outra situação em que será necessária a intervenção do superior para a solução da desavença. Neste cenário, a tomada de decisão deve ser feita o quanto antes e não é prudente demorar na solução dos conflitos tendo sempre em mente que o melhor para a escola deve prevalecer em todas as situações.
Um trabalho de engajamento com todos os colaboradores da escola com o objetivo de mantê-los unidos e com o mesmo propósito. Importante deixar  claro que todos estão no mesmo barco e que o sucesso da escola será o sucesso de todos.
È importante chamar sempre atenção para os valores da escola e a conduta que cada um deve ter. O feedback  com a apresentação dos êxitos conseguidos e também onde cada um pode melhorar.
Outra sugestão é procurar na internet livros, filmes e palestras motivacionais que possam ser de utilidade e as divulgue para seus colaboradores.
É imprescindível a motivação da equipe para isso o elogio às pessoas que mantêm um bom relacionamento com os outros e que desempenham suas tarefas com bom humor. Pessoas positivas normalmente não se envolvem em conflitos e sabem manter um bom convívio com todos.
Para motivar ainda mais os profissionais, é necessário fazer confraternizações nas datas importantes e promover sempre o trabalho em equipe, salientando que ninguém consegue se destacar isoladamente e sem a participação dos outros.


Rosa Maria Olimpio








Como chamar a intuição nas horas difíceis?

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

https://novaescola.org.br/conteudo/940/entrevista-com-emilia-ferreiro?fbclid=IwAR1mvT8RcBaJUJGbJkjslNExXuIFVwOUKse8KTL7nMO7xu1rlvcmAOzKcyA

Entrevista com Emilia Ferreiro

Para a psicolinguista argentina, o que se espera de um leitor muda com o tempo. Na era da internet, seletividade e rapidez são características essenciais. 

Emilia Ferreiro: "Todo profissional deve querer sempre mais"   


                                                      Foto: Rogerio Albuquerque

Nos anos 70, ela revolucionou a alfabetização ao explicar como as crianças aprendem. Passou a defender a utilização de textos variados, em substituição às cartilhas. Após a polêmica inicial, suas teses se tornaram referência internacional. A fama não a desviou, no entanto, da preocupação em desvendar o processo de aquisição da leitura e da escrita. Aos 64 anos, Emilia Ferreiro agora avalia a interferência das inovações trazidas pela internet. "Todo profissional deve querer saber sempre mais", ensina. "Se não há inquietude, repetimos coisas que podem estar ultrapassadas." Em abril, a psicolingüista argentina (que vive no México) passou pelo Brasil e concedeu a seguinte entrevista a NOVA ESCOLA.

No livro Cultura Escrita e Educação, a senhora afirma que adora pesquisar e descobrir que entendeu algo que a intrigava. O que a deixa intrigada atualmente? 
EMILIA FERREIRO Continuo tentando compreender melhor o funcionamento dos sistemas e das tecnologias de escrita. Indagações surgem a respeito dos modos de comunicação e estilos que estão sendo criados. Um exemplo é o chat, que parece um intercâmbio informal, cara a cara, só que por texto. Outro é o e-mail, que não é uma carta em papel nem um telegrama. Essas novas formas de diálogo possuem propriedades que não conhecemos. São temas a ser pesquisados, assim como a interface entre a aquisição da escrita com letras e com números... 

Como isso se dá? 
As duas são ensinadas simultaneamente porque a escola e o ambiente pedem. Já conhecemos bastante o sistema de aquisição da leitura com letras e a maneira de escrever números em situações vinculadas a representações de quantidade. Quero averiguar como se descobre quando usar um ou outro. Quando escrevo casa, leio casa e posso traduzir para house, se souber inglês. No entanto, se escrevo 5, posso ler cinco ou five. Nesse caso não está escrito o nome do número mas o sentido que ele passa. E esse sentido pode ser passado em qualquer língua. Não posso redigir a palavra casa com números, mas a palavra cinco posso escrever também com um algarismo. É interessante ver como crianças muito pequenas, de 4 ou 5 anos, lidam com isso.

O professor deve tentar desvendar problemas em seu dia-a-dia? 
Não. O ofício do pesquisador e o do professor são distintos. Digo isso porque exerço os dois. Quando estou ensinando, minha atitude sobre os problemas é diferente da que tenho quando estou pesquisando. É importante ensinar os alunos a pesquisar, mas isso é parte de meu trabalho de professora.

Mas não é também papel do docente buscar novos conhecimentos?
Com certeza. Só que isso é diferente de pesquisar. Querer saber sempre mais deve ser próprio de qualquer profissional. Um médico também tem de se atualizar e não se contentar com o que aprendeu na universidade. Se não há uma certa inquietude em continuar descobrindo coisas novas terminamos repetindo as antigas ? e o que era válido há vinte anos não continua necessariamente bom hoje. 

O significado de saber ler e escrever também muda com o tempo?
Usamos esses mesmos verbos na Grécia clássica, na Idade Média, na revolução industrial ou na era da internet. Por isso, temos a impressão de que designam a mesma coisa. O real significado, no entanto, vem se modificando. Ambos têm a ver com marcas visuais, mas o que se espera do leitor é determinado socialmente, numa certa época ou cultura. Na Antigüidade clássica não se esperava o mesmo que no século XVIII, nem o que se espera agora.

O que determina a eficiência de um leitor na era da internet? 
O trabalho na internet exige rapidez na leitura e muita seletividade, porque não se pode ler tudo o que está na tela. E a capacidade de selecionar não é algo que, há alguns anos, fosse uma exigência importante na formação do leitor. No contexto escolar, não tinha lugar preponderante mesmo. Na rede mundial de computadores, as páginas estão cheias de coisas que não têm relação com o que procuro e existe a possibilidade de um texto me conduzir a outros por meio de um click. Além disso, quando tenho um livro em mãos e o abro em qualquer página, sei claramente se é o começo, o meio ou o fim. Quando abro uma página na internet nem sempre tenho noção de onde estou. 

Mas os jovens têm facilidade para se adaptar a essas mudanças...
Eles aprenderam a usar a internet sozinhos e rapidamente, sem instrução escolar nem paraescolar. Eles conhecem essa tecnologia melhor que os adultos? Os alunos sabem mais do que seus mestres. Essa é uma situação de grande potencial educativo, porque o professor pode dizer: "Sobre isso eu não sei nada. Você me ensina?" A possibilidade de uma relação educativa realmente dialógica é fantástica. Mas o docente não está acostumado a fazer isso e, num primeiro momento, fica com muito medo de não poder ensinar. Em casa, ele recorre aos filhos. No espaço público, na escola, ele tem mais dificuldades. 

Além da questão tecnológica, existe a da língua. A senhora acha que quem não souber inglês será um analfabeto nesta era da internet?
É preciso aprender o inglês, sem dúvida, mas não só esse idioma. Nestes tempos de globalização, vemos ao mesmo tempo um movimento de homogeneização (de um lado) e grupos que manifestam um desejo de manter a própria identidade (de outro). As duas coisas estão funcionando simultaneamente. No início da internet tínhamos a impressão de que ela seria uma das tantas maneiras de converter o inglês na única língua de comunicação. Hoje a situação mudou bastante. Há cada vez mais uma diversidade de idiomas na rede. Temos duas direções a seguir: consultar somente sites na nossa língua ou tomar consciência de que a rede nos dá acesso, por exemplo, a jornais escritos em países distintos ? e procurar entendê-los. 





sexta-feira, 5 de julho de 2019


“Entre o sono e o sonho/entre mim e o que em mim é o que eu me suponho/
corre um rio sem fim.” (Fernando Pessoa)                                                   
Nasci em Alto-Porã, município de Pedregulho, no Estado de São Paulo. Lá do alto avistava o Rio Grande e as montanhas que ficavam do outro lado do rio. Uma paisagem magnífica que jamais saiu de meus olhos e de minha alma.
Corria o ano de 1963, estava com sete anos, quando atravessamos a ponte. Viemos para  Uberaba, Minas Gerais. Seis meses depois de nossa mudança papai faleceu.
Fui morar com uma família. Fazia pequenos serviços domésticos em troca de comida, roupa, calçados. Em 1966, estava eu com 10 anos, quando me matricularam no Grupo Escolar.
Já no primeiro dia de aula, a professora nos deu uma cartilha. Novinha. Estava encapada com papel pardo. E eu li. Li em voz alta como se estivesse lendo para o cafezal em flor, para as montanhas. Ignorei a presença da professora, dos alunos. Finalmente eu estava na escola e tinha nas mãos uma cartilha. Foi o dia mais feliz da minha infância.
Quando acabei de ler a professora levou-me para o primeiro ano “adiantado”.                  
Ao final de cada ano eu ganhava um presente por ser a primeira aluna da sala. Lembro-me apenas de um que ganhei na segunda série: Um livro que veio com dedicatória da professora Áurea Celeste. “A Cabana do Pai Tomaz”. Era a triste história de um escravo em fuga.
Concluí o ensino primário no final de 1969 com direito à solenidades de formatura. Missa, entrega de certificados e discursos políticos.
Fui oradora da turma. No meu texto fiz um breve relato sobre meu ingresso no mundo dos letrados. Lembro-me de que muito dos presentes choraram. Eu estava feliz. Só isso.
Neste momento, a lembrança desse dia dói em minha alma. Aos 13 anos, eu lia as palavras, mas não aprendera ainda a ler a vida. “Na escola primária/Ivo viu a uva/e aprendeu a ler.”
No início do ano seguinte, fui morar e trabalhar em Brasília. Era babá. Foram três anos sem ver minha família, três anos sem férias, três anos fora da escola. Lia muito. Jornais e revistas, e li ainda A moreninha, Meu pé de laranja lima, e Senhora. Escrevia cartas. Muitas cartas.
Retornei a Uberaba no final de 1973 e não cheguei a ficar um mês com a minha família.
Mudei-me para Presidente Prudente, estado de São Paulo, com outra família. Era um casal e quatro filhos. Fiz o exame de admissão. Retornei à escola. Ficamos em Prudente um ano e nos mudamos para Pariquera-Açu, cidadezinha litorânea próxima a Iguape. Perdi meu grande amor sem ao menos tê-lo namorado. Trocamos centenas de cartas. Devia tê-las guardado, porque eram belíssimos poemas. Eu lia muito.A biblioteca da casa era riquíssima e estava sempre sendo atualizada.
Em meados de 1976, retornei para Uberaba. Fui morar com uma tradicional família da cidade.
Era então dama de companhia de uma senhora acamada. Ela perdera a visão por causa da doença. Das 19 às 23 horas uma funcionária me substituía para eu ir para o colégio. Fiz o colegial no COC. Numa madrugada, a senhora percebeu que estava acordada e perguntou-me o que eu estava fazendo. Disse que estava lendo um livro. Era Grande sertão: Veredas. – Veja que lindo! – eu dissera – e li um longo trecho para ela. Depois daquele dia, tornou-se rotina eu ler para ela os romances, os poemas, indicados pelos professores. Numa fria manhã de abril ela acordou sorrindo e disse que havia sonhado comigo. Perguntei-lhe como eu era em seu sonho. Ela respondeu: – Como você é. Linda! Chorei muito. Poucas horas depois ela dormiria para não mais acordar. Nessa época eu já estava na Universidade e dava aulas no COC no turno matutino. Inúmeros questionamentos foram tornando-se relevantes, fazendo com que buscasse melhor fundamentação para reflexões que, desde o início de minha formação acadêmica, surgiam como fundamentais. Tematizava a importância da linguagem na constituição de formas de significação da existência. Como diz Foucault, “é preciso compreender um acontecimento como uma relação de forças que se inverte, um poder confiscado, um vocabulário retomado e voltado contra seus utilizadores, uma dominação que se enfraquece, se amplia e se envenena e outra que faz entrada mascarada”. O ano era 1980. Passei a trabalhar dois períodos no colégio, no período vespertino, eu era professora “eventual”.
Casei-me no início de 1981. Nesse mesmo ano nascera minha filha Sílvia Beatriz e em 1982 nasceu meu filho, Sílvio Diogo.
De 81 a 83 dividia minha vida entre a universidade e a educação dos meus filhos. Comprava muitos livros para eles, mas à noite as histórias vinham de minha memória. E eu as contava dramatizando, cantando...
Meus filhos foram o maior legado que a vida reservou para mim. Com eles e por eles aprendi a arte de viver. Foram eles que despertaram em mim o olhar atento para o grande espetáculo da vida. Aprendi a olhar e aprendi a ver além. Muito além das aparências.
Em 1986 fiz minha primeira Especialização em Língua Portuguesa. Tive a felicidade de conhecer e de aprender com Eni Orlandi, Eduardo Guimarães, Eugênio Estevam, Maria Luiza Braga, Kanavillil Rajagopalan, Silvana Mabel Serrani. Eles vieram da Unicamp para dar as aulas no Curso. Muitas leituras. Aprendizado e vivência.
Nesse mesmo ano retornei à escola como professora do Ensino Médio. Acompanharam-me Paulo Freire, Rubem Alves, Edgar Morin, Moacir Gadotti, Pedro Demo e tantos outros estudiosos, que sustentaram minha prática pedagógica. Considerando que duas características dos discursos são a dispersão e a polissemia, concebo que conceitos e teorias são fenômenos culturais, socialmente construídos e legitimados. Assim, entendo o conhecimento não como algo a ser possuído, mas algo que se constrói de modo dinâmico e processual. Sendo assim, o rigor e a avaliação na aplicação do procedimento metodológico são fenômenos da ordem da intersubjetividade e estão vinculados à possibilidade de socializar o processo interpretativo.
Minha trajetória profissional tem estado vinculada, durante esses 22 anos, na área de educação, tendo trabalhado em todos os níveis educacionais (Educação Básica e Ensino Superior – Graduação, Projetos de Pesquisa e de Extensão). Atuei com coordenadora pedagógica da área de Língua Portuguesa. Minha experiência de docência é basicamente como professora.
A segunda especialização foi em Linguística Aplicada ao ensino de Língua materna. Mais uma caminhada ao lado de grandes mestres: Doutora Ormezinda Maria Ribeiro, Aya, UnB; Dr. João Bosco e Dr Cleudemar, UFU; Dra Vânia Maria Resende, USP; Dr. Carlos Brandão e tantos outros mestres. Além desses havia Vigotsky, Sírio Possenti, Bakhtin, Barthes, Kleiman...
O trabalho de conclusão foi orientado pela professora Aya. “O texto poético em sala de aula: para além do dizível”. Artigo publicado na Revista Athos&Ethos.
O caminho profissional foi sempre partilhado com a tarefa prazerosa de ser mãe.
Em minha trajetória humana fui Gata Borralheira, Cinderela, Macabéa, Ana Moura, Clarissa, Madalena (Paulo Honório).
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Morei e trabalhei em Brasília de 2009 a 2016 atuando como Tutora da EAD e como avaliadora de redações pelo  CESPE.
Atuei como formadora do GESTAR pela UnB, Brasília. Viajava pelo Brasil levando aos educadores a crença do programa GESTAR, que é chegar aos alunos – crianças como eu fui em minha infância – o acesso ao mundo da cidadania assegurada pela aprendizagem da leitura. Leitura da palavra. Leitura do mundo
Aposentei no final de 2016, ano em que meu filho Silvio Diogo foi diagnosticado com câncer na medula. Mudei-me para Belo Horizonte para acompanhá-lo em seu tratamento.
No dia 11 de novembro de 2018 meu filho faleceu.  Retornei a Brasília e estou me reinventando na difícil arte de viver.
No fino tear do destino, estou tecendo  um final feliz para a história daquela menina que de sua mais profunda solidão atravessou o rio, as montanhas e se lançou por inteira no mundo da arte, cuja matéria prima está sempre à espera de ser lapidada: a palavra.
A poética da palavra como paixão criativa, que gesta discursos provocadores. Recordo-me de uma declaração de Friedrich Nietzsche, em seu livro Humano, demasiado humano: “Há tensão e paixão que caracterizam aqueles que arriscam deslocar-se para lugares desconhecidos, desafiam verdades prontas, movem-se em busca de conhecimentos novos, viajam pelo conhecimento. Aquele que pretende apenas em certa medida alcançar a liberdade da razão não tem durante muito tempo o direito de se sentir sobre a terra, senão como um viajante – e nem sequer como um viajante que se encaminhe para um ponto de chegada; pois este não existe. Terá em vista, isso sim, observar bem e manter os olhos abertos para tudo o que realmente se passa no mundo; [...] é necessário que nele haja sempre algo de viajante, cujo prazer reside na mudança e na passagem”.
Acrescento minha experiência pessoal ao comentário de Nietzsche, com a poesia existencial de Clarice Lispector, e encerro o meu relato.
“Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”



Rosa Maria Olimpio março de 2019 em Belo Horizonte

 2019 "Basta-me um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve…" Cecília Meireles