LEITURA EM SALA DE AULA: A FORMAÇÃO DE LEITORES
PROFICIENTES
Publicado em 13 de May de 2009 por Cristina Queiroz
Cláudio Henrique de Oliveira
Cristina Maria de Queiroz[2]
RESUMO: Neste trabalho,
buscamos apresentar uma breve discussão teórica a respeito do ensino de
leitura, bem como refletir sobre os fatores que contribuem essencialmente para
a realização dessa habilidade e, consequentemente, para a construção de
significados dos textos. Para isso, respaldamo-nos em alguns teóricos que
propõem discussões e esclarecimentos a respeito da temática e, a partir dos
aspectos teóricos discutidos, mostrarmos a importância de se trabalhar a
leitura numa nova perspectiva, considerando e explorando os diversos aspectos
(objetivos e conhecimento prévio, por exemplo) que conduzem o aluno a uma visão
ampla dos textos e que, a partir dessa habilidade, possa interagir ativa e
satisfatoriamente com o meio que o cerca e, por fim, ratificamos a necessidade
de uma prática de ensino de leitura significante, que motive os alunos a
realizarem leituras futuras e que contribua para a formação de pessoas
conscientes, criativas que possam compreender, analisar e se sobressair na
sociedade em que vive.
Palavras-chave: leitura, ensino, objetivos,
conhecimento prévio.
CONSIDERAÇÕES
INICIAIS
A leitura representa uma atividade de grande importância para a vida de
cada indivíduo. É através dela que podemos interagir e compreender o mundo a
nossa volta e sua própria formação, realizar atividades que contribuem para o
nosso crescimento e para agir ativa e criticamente na sociedade.
No que se refere ao ensino de leitura no âmbito escolar, podemos
verificar que há muitas discussões a respeito, principalmente nas aulas de língua
portuguesa. Dentre as discussões, observamos que a principal preocupação está
em se dar a importância e o devido espaço para o ensino de leitura nas
atividades de sala de aula. No entanto, outras atividades têm sido priorizadas,
ou seja, a leitura fica para segundo plano, tornando o ensino de língua
portuguesa cada vez mais mecânico e desinteressante. Acreditamos que essa
prática de ensino é ocasionada por concepções que não conduzem o aluno a nada,
ou seja, são práticas que não fazem parte da realidade dos alunos, que não os
consideram como ponto de partida para a realização de um ensino produtivo.
Por entendermos o ato de ler como um processo no qual o leitor realiza
um trabalho ativo de compreensão e análise do texto, a partir de diversos
fatores, nesse trabalho buscamos fazer uma breve abordagem a respeito do ensino
de leitura em sala de aula; em seguida, discorremos sobre fatores que
contribuem essencialmente para a realização dessa habilidade e,
consequentemente, para a construção de construção de significados dos textos.
A LEITURA NO
CONTEXTO ESCOLAR: UMA BREVE DISCUSSÃO
A leitura é uma atividade de um elevado grau de importância para a vida
do homem em sociedade. Em virtude disso, muitas discussões têm surgido em torno
de sua importância para a formação de leitores e de cidadãos críticos, bem como
em torno da prática de ensino de língua materna. Isso se justifica devido ao
fato de que a leitura possibilita ao homem a inserção e participação ativa no
meio social e, por isso, essa prática deve ser desenvolvida desde cedo e,
primordialmente, no âmbito escolar.
Delmanto (2009) ressalta que a escola deve ter a preocupação cada vez
maior com a formação de leitores, ou seja, a escola deve direcionar o seu
trabalho para práticas cujo objetivo não seja apenas o ensino de leitura em si,
mas desenvolver nos alunos a capacidade de fazer uso da leitura (com também, da
escrita) para enfrentar os desafios da vida em sociedade e, a partir do
conhecimento adquirido com essa prática e com suas experiências, continuar o
processo de aprendizado e ter um bom desempenho na sociedade ao longo da vida.
A autora ainda acrescenta que diante das diversas transformações com as
quais convivemos, a escola precisa, mais do que nunca, fornecer ao estudante os
instrumentos necessários para que ele consiga buscar, analisar, selecionar,
relacionar e organizar as informações complexas do mundo contemporâneo.
Nesse sentido, compreendemos que a leitura é um processo que não está
limitado apenas ao âmbito escolar ou somente um meio para obter informações,
mais do que isso, a ela deve ser uma prática que todos possam usá-la na própria
convivência com o meio social. Entretanto, o que observamos é que, em muitas
escolas, a leitura ainda é desenvolvida a partir da influência de muitos modelos
tradicionais ou concepções errôneas de leitura. Solé (1996, p.33) discorre
sobre essa problemática e esclarece que
O problema do ensino de leitura na escola não se situa no nível do
método, mas na própria conceituação do que é leitura, da forma em que é avaliada
pelas equipes de professores, do papel que ocupa nos Projeto Curricular da
escolar, dos meios que se arbitram pra fortalecê-la, naturalmente, das
propostas metodológicas que se adotam para ensiná-la.
O posicionamento da autora esclarece e ratifica o que dissemos
anteriormente que muitas concepções ultrapassadas ainda perduram no método de
ensino das escolas, principalmente pelo fato de muitos professores ainda
estarem atrelados a práticas de leitura equivocadas. Esse fato, por sua vez,
nos leva a acreditar que o ensino de leitura pautado nessas concepções acaba
limitando as possibilidades de formação de bons leitores, capazes de interagir
com as diversas estratégias de leitura. Na visão de Kleiman (2004), a
aprendizagem da criança no âmbito escolar está baseada, fundamentalmente, na
escola e, por essa razão, a leitura deve proporcionar uma interação entre o
interlocutor e o autor do texto, ou seja, é necessário que se ensine a criança
a compreender o texto escrito.
Desse modo, vemos que é preciso adotar métodos, criar situações que
possibilitem aos alunos a capacidade de desenvolverem diferentes capacidades de
leitura. Sobre isso, Delmanto (2009) considera que devemos ensinar, além da
decodificação, a compreensão, apreciação do texto, assim como a relação do
leitor com o texto. A autora acrescenta que se os educadores propuserem
atividades visando a esses objetivos,
os alunos serão capazes não apenas de localizar informações, mas de
relacionar e integrar as partes do texto, de refletir sobre os seus sentidos –
captando as intenções informações implícitas, de perceber relações com outros
contextos, assim como de gerar mais sentidos para o texto e de valorar os que
leem de acordo com seus próprios critérios. (DELMANTO 2009, p. 29)
Essa concepção revela o tratamento que deve ser dado ao ensino de
leitura em sala de aula: a leitura deve ser vista como um processo de
construção de significados. Diante disso, vemos a necessidade de a escola
oferecer possibilidades de transformação, objetivando a formação de leitores
críticos e conscientes de sua realidade.
Nessa perspectiva, entendemos que o ensino de leitura deve ir além do
ato monótono que é aplicado em muitas escolas, de forma mecânica e muitas vezes
descontextualizado, mas um processo que deve contribuir para a formação de
pessoas críticas e conscientes, capazes de interpretar a realidade, bem como
participar ativamente da sociedade.
Leitura: uma nova concepção
Como já discutimos, a leitura é essencial para o bom desenvolvimento
individual e social do homem, é pela leitura que podemos construir e
reconstruir conceitos que servirão para a nossa formação enquanto sujeitos
sociais.
Leffa (1996, p. 17-18), ao propor uma definição de leitura, afirma que
A leitura é um processo feito de múltiplos processos, que ocorrem tanto
simultânea como sequencialmente; esses processos incluem desde habilidades de
baixo nível, executadas de modo automático na leitura proficiente, até
estratégias de alto nível, executadas de modo consciente.
Diante desses esclarecimentos, compreendemos que a leitura é um processo
amplo no qual o leitor precisa dispor de diversas estratégias para chegar à
compreensão do texto. Em outras palavras, a leitura não estaciona na mera
decodificação, tendo em vista que essa concepção, como mostra Kleiman (1997),
dá lugar a leituras dispensáveis, pois não modifica a visão do aluno em nada.
Assim, Leffa (1996) pretende esclarecer que o leitor dispõe de diversas
estratégias para construir o significado do texto e por essa razão, a leitura
não deve envolver somente o leitor ou o texto, mas a interação entre o leitor e
o texto para, enfim, se produzir o sentido do texto.
Outro aspecto relevante que Leffa (1996) ressalta é que, além das
competências essenciais para a leitura, o leitor precisa ter a intenção de ler
determinado texto. Na concepção do autor, "essa intenção pode ser
caracterizada como uma necessidade que precisa ser satisfeita, a busca de um
equilíbrio interno ou a tentativa de colimação de um determinado objetivo em
relação a um determinado texto." (LEFFA, 19996, p. 17)
Diante desse pressuposto, acreditamos que a leitura não é uma prática
isolada, e para que ela ocorra de forma satisfatória, faz-se necessário que o
leitor defina, no momento da leitura, os seus objetivos, e assim, possa chegar
ao sentido do texto.
Na opinião de Kato (1987), estabelecer objetivos para a leitura é um dos
meios que compõem o ato de ler. A autora menciona o fato de que estabelecer
metas durante a leitura, além de ser um modo de chegar a uma melhor compreensão
do texto, é também um caminho para uma leitura madura, traçar objetivos são,
portanto, estratégias conscientes e, típicas de um leitor maduro, proficiente.
Kleiman (2004) também partilha desse ponto de vista e ressalta que ao
ler, todo leitor tem objetivos, propósitos específicos e que ao estabelecer
metas para a leitura, o leitor terá uma compreensão maior do texto e, além
disso, será capaz de lembrar melhor os detalhes relacionados a seus objetivos,
ou seja, lembrará mais e melhor aquilo que leu especialmente as informações
e/ou metas que pretendia encontrar no texto. Assim, Kleiman (2004, p.30)
ratifica esse posicionamento quando afirma que "há evidências inequívocas
de que nossa capacidade de processamento e de memória melhoram significativamente
quando é fornecido um objetivo para uma tarefa."
Seguindo esse ponto de vista, a autora complementa que "a leitura
que não surge de uma necessidade para chegar a um propósito não é propriamente
leitura" (KLEIMAN, 2004, p.35). Diante disso, compreendemos que muitas
vezes a leitura realizada no âmbito escolar acaba se tornando uma atividade
desmotivadora, mecânica que não leva a nenhum aprendizado, tendo em vista que
os objetivos traçados por outrem para a leitura de um determinado texto, muitas
vezes, não satisfazem o interesse de todos e acaba tornando o ato de ler
desinteressante. Assim, entendemos que a escola deve propor aos alunos, durante
as aulas de leitura, textos que despertem o interesse da turma, a fim de que
esta possa definir objetivos para a leitura daquele texto e, em consequência
disso, sejam induzidos a ler outros textos.
Solé (1996, p. 22) se inclui nessa mesma concepção sobre o ato de ler,
quando define leitura como "um processo de interação entre leitor e o
texto; neste processo, tenta-se satisfazer os objetivos que guiam sua
leitura". Essa afirmação ratifica o que discutimos anteriormente, já que
esclarece que no ato da leitura, deve haver o envolvimento de um leitor ativo
que examina e reflete sobre o texto, assim como deve existir um objetivo para
guiar a leitura (seja por lazer, obter informações, ou até mesmo seguir
instruções para a realização de uma atividade). Desse modo, acreditamos que a
interpretação que fazemos de um texto depende dos objetivos que temos naquela leitura,
assim, é possível que diferentes leitores com finalidades diferentes possam
construir sentidos diferentes ao lerem o conteúdo de um mesmo texto.
Por fim, acreditamos que a capacidade de estabelecer objetivos é de
fundamental importância no ato de ler, é, acima de tudo, de acordo com Kleiman
(2004), uma estratégia metacognitiva, uma vez que, o leitor terá a capacidade
de controlar e condicionar o próprio conhecimento, pois permite avaliar sua
capacidade, bem como refletir sobre o próprio conhecimento.
Além desses aspectos já apresentados, Kleiman (2004) explica que o
conhecimento prévio é outro elemento preponderante no ato de ler, ou seja, é um
dos caminhos para se chegar à compreensão do texto. Para a autora, "a
compreensão de um texto é um processo que se caracteriza pela utilização de o conhecimento
prévio: o leitor utiliza na leitura o que ele já sabe, o conhecimento
adquirido ao longo da vida". (KLEIMAN, 2004, p.13)
A esse respeito, Leffa (1996, p. 10) ressalta que "a verdadeira
leitura só é possível quando se tem um conhecimento prévio", pois não
lemos "apenas a palavra escrita mas também o próprio mundo que nos
cerca". Assim, compreendemos que para o autor, o sentido de um texto não
está em si mesmo, mas sofre influências do conhecimento de mundo de que o
leitor dispõe, e a partir disso, atribui significado ao texto. Esses
esclarecimentos revelam que, na prática de leitura, o leitor não lê letra por
letra, mas faz uso de seus conhecimentos prévios, e, à proporção que vai lendo,
vai fazendo antecipações e inferências sobre o conteúdo do texto.
É por essa razão que Kleiman (2004) mostra que em alguns textos,
inicialmente incompreensíveis, só são possíveis de serem compreendidos quando o
conhecimento prévio é ativado. A autora salienta que, nesse caso, o texto
permanece o mesmo, o que ocorre é uma modificação na compreensão ocasionada
pela ativação do conhecimento já adquirido, isto é, "devido à procura na
memória (que é nosso repositório de conhecimentos) de informações relevantes
para o assunto, a partir de elementos formais fornecidos no texto".
(KLEIMAN 2004, p.22)
A partir desses esclarecimentos, podemos compreender que a ativação do
conhecimento prévio constitui num fator essencial para a compreensão do texto,
uma vez que se trata do conhecimento que o leitor tem sobre um determinado
assunto que lhe permite fazer inferências que permite fazer relações com as
diferentes partes do texto e, assim, construir o sentido do texto como um todo.
Kato (1987) confirma e finaliza esses esclarecimentos a respeito do
conhecimento prévio, explicando que para o entendimento do texto envolve o
conhecimento de mundo do leitor e suas experiências. A autora elucida que a
leitura de um texto não é realizada apenas com base nos contexto linguístico
imediato, mas compreende informações extra textuais, ou seja, a leitura envolve
o conhecimento de mundo do leitor que, por sua vez, contribui para dar sentido
ao texto.
A partir desses esclarecimentos que o ato de ler envolve muito mais do
que uma mera decodificação das palavras ou extração de informação, é, na
verdade, um processo múltiplo que envolve diversos fatores – como os objetivos
e o conhecimento prévio abordados – que, por sua vez, capacita o leitor a
desenvolver habilidades próprias de leitores proficientes.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Como pudemos verificar, muitas tendências surgiram buscando inovar o
ensino de leitura nas aulas de língua materna e acabam criando discussões
acerca de como essa habilidade vem sendo trabalhada em muitas escolas durante
as aulas de língua portuguesa. Além disso, essas discussões procuram promover
mudanças positivas no ensino de leitura, ou seja, procuram mostrar que um
método de ensino desvinculado das concepções tradicionais que não acrescentam
nada ao conhecimento do aluno.
Diante disso, compreendemos que é o ensino de leitura deve está
fundamentado nas reais necessidades do aluno e que cabe à escola repensar a sua
prática e criar condições para a realização de um ensino interativo. Para
atingir esse objetivo, é preciso, antes de tudo, que a escola analise a sua
postura e faça as modificações necessárias, pois, só assim, ela estará
superando o tradicionalismo que ainda predomina no seu fazer pedagógico.
Acreditamos que uma nova postura da prática de ensino de leitura seria
bem mais satisfatória. Para isso, seria necessário considerar os diversos
fatores que contribuem para a concretização de uma leitura proficiente. Em
outras palavras, é preciso que os professores tenham consciência de que o
leitor e o texto mantêm entre si uma relação de interação e que nessa troca
diversos outros aspectos contribuem para a compreensão dos textos. Assim,
cremos que motivar os alunos a estabelecerem metas para suas leituras (a partir
de uma condição prazerosa de leitura) e que consideram seus conhecimentos prévios,
teríamos um ensino produtivo e motivador.
Por fim, ratificamos a necessidade de uma prática de ensino em que o ato
de ler se torne para os alunos uma prática significante e uma motivação para
futuras leituras, bem como um recurso para a formação de leitores proficientes,
de pessoas conscientes, criativas que possam compreender, analisar e se
sobressair na sociedade em que vive.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
DELMANTO, Dileta. A
leitura em sala de aula. Construir Notícias, Recife, ano 08, n. 45,
p. 24-26, mar./abril. 2009.
KATO, Mary. No
mundo da escrita: uma perspectiva psicolingüística. São Paulo: Ática,
1987.
KLEIMAN, A. Texto
& Leitor: Aspectos cognitivos da leitura. 9 ed. Campinas: Pontes, 2004.
LEFFA. Vilson. Aspectos
da leitura. Porto Alegre: Sangra – Luzzatto, 1996.
SOLÉ, L. Estratégias
de Leitura. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
[1] Trabalho
apresentado ao Curso de Especialização em Lingüística Aplicada do Departamento
de Letras da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Campus Avançado
"Profª. Maria Elisa de A. Maia", em Pau dos Ferros, como
pré-requisito de avaliação da disciplina Leitura.
[2] Alunos do
curso de Especialização em Lingüística Aplicada - CAMEAM/UERN
Revisado por Editor do Webartigos.com