Pietá
Silvio Diogo. Meu filho, a sua morte me fez sentir como um trem
fora dos trilhos. Um trem que desviou do caminho e seguiu sem destino.
Senti uma dor que não tem nome, uma dor que não tem jeito, uma dor
que não há remédio que faça ela parar de doer.
Que vontade de devolver a vida a você, devolver seu sorriso, o
brilho em seu olhar e reinaugurar seu coração.
Diogo, Pietá é a expressão mais bela dessa dor sem nome. Uma dor
estranha, um jeito estranho de perder a minha essência, a minha cor. Era uma
realidade que não cabia em mim. Não achava espaço em meu coração, em meu
pensamento, em minhas palavras. No momento de esvaziar sua casa, desfazer de
suas roupas, seus livros-quantos livros- seus vinis, suas cartas, seus bilhetes
senti que tudo ali era você. Você que eu recolhia aqui e ali nos objetos,
lembranças de suas viagens, mimos de seus amigos, de seus amores. Retalhos de
uma história que estava sendo tecida meio às linhas dos sonhos, dos projetos,
dos risos e das dores. Eu sentia o vazio de sua profunda ausência e via aquele
fio que destecia a nossa história, que estava sendo tecida até ali, desde o dia
em que o tive em meus braços pela primeira vez. Os fios se romperam e não havia
remendo que desse jeito. Eu tinha que recolher novos fios e continuar a tecer a
minha história.
Eu, seu pai Silvio, sua irmã Sílvia,sua filha Joana, seu sobrinho
Heitor, seus amigos, cuidamos de fazer com que você vivesse em nós por meio de
tudo que você esqueceu dentro de nossa alma. Sim, você partiu e deixou em nós a
história linda que você estava desenhando.
Recolhi seus projetos, seus poemas e recomecei a escrita dessa
história com os talentos que eram seus- alguns detalhes herdados dessa dona
rosinha- como o gosto pela leitura, pela escrita, pela música, pelos estudos,
pelas viagens. Sigo trabalhando, espalhando sorrisos, fazendo o bem, sendo
generosa. Eu não desisti da vida. Sigo trabalhando pelas causas que você
acreditava. Suas causas agora pertencem a mim.
É por meio de minhas conversas diárias com Deus que eu mando
recados a você, meu filho. Falo sempre das alegrias e das esperanças que tenho
vivido. O trem da minha vida voltou aos trilhos. Parafraseando o poeta Thiago
de Melo, busco um jeito novo de caminhar a cada dia.
