— poema de Sílvio Diogo —
na voz do autor
*
De dentro do gigante,
cruzada a bocarra,
engolido já,
deglutido nas vísceras,
entre as engrenagens
do motor do relógio,
o menino arteiro
luta por inventar
movimento.
O gigante aperta
a cada viravolta;
o roncar parece
pulsar indiferente.
As pequenas mãos
do artífice desvendam
a luz de uma artéria.
O gigante se mexe;
seu sono é nublado.
O menino persiste:
por mais que se canse,
necessita do espaço
que existe, ele sabe,
no organismo do monstro.
Por onde andará
a primeira invenção
que fez no titã?
Mantém consigo um mapa
no qual desenhou
os trajetos de outrora;
porém, espremido,
não o consegue abrir.
Só uma artimanha
pode ser que revele
o fio da clareira.
O mirim não se move;
deixa que os ouvidos
capturem as batidas
que o gigante ecoa.
Os roncos diminuem:
um respiro fundo
arrasta o cataclismo
pelo corpanzil.
O pequeno decola;
voa para o íntimo
do peito que se abre.
*
Foto: Maxwell Vilela
diana













