quinta-feira, 31 de março de 2022

Intervenção pedagógica

 Como fazer um projeto de intervenção pedagógica


30 de março de 2022

  • Performance
  • Planejamento
  • Práticas Pedagógicas


Intervir no âmbito da educação é interferir com planejamento. Podemos pensar em um projeto de intervenção pedagógica como uma forma de direcionar as ações de ensino-aprendizado, ampliando ou modificando a situação atual.

Costumamos usar um projeto de intervenção pedagógica quando existe necessidade de modificar a realidade do contexto educacional, seja porque existe alguma variável que está interferindo no aprendizado, seja porque há alguma situação emergencial que exige uma ação pedagógica diferenciada.

 

Em que consiste o projeto de intervenção pedagógica

Todo projeto de intervenção pedagógica surge da reflexão sobre a prática em sala de aula ou do contexto educacional geral. Na educação, chamamos essa reflexão oriunda da prática e que gera novas práticas de práxis pedagógica. A primeira observação geralmente é feita sem diagnóstico formal.

Um ótimo exemplo é o contexto educacional de retorno após a pandemia do covid-19. A percepção dos educadores sobre a prática diária em sala de aula aponta para a defasagem no aprendizado e para as dificuldades de socialização. Órgãos internacionais como o Unicef têm divulgado balanços preocupantes.

Muitas outras reflexões sobre a prática também surgem todos os dias, enquanto os educadores trabalham, fazem diagnósticos, planejam, avaliam e convivem no ambiente escolar. 

São reflexões sobre a violência escolar diante da dificuldade da convivência pacífica entre estudantes ou entre eles e os professores. Reflexões acerca das dificuldades específicas que podem se apresentar em uma turma ou em parte dela, em dado momento.

Também podemos pensar em reflexões mais gerais, sobre o contexto educacional geral e sobre a sociedade. No Brasil temos altos índices de violência contra mulheres e crianças, exigindo que a escola se desdobre sobre essas pautas para que os estudantes adquiram consciência sobre a violência e não se tornem parte desse sistema sem reflexão.

Etapas do projeto de intervenção pedagógica

A intervenção pedagógica, no entanto, embora parta da reflexão a olho nu sobre a prática do professor, sobre o processo de ensino-aprendizado ou sobre questões sociais, precisa de embasamento e planejamento para ser colocada em prática.

Assim, a partir de uma observação ou de uma necessidade dentro do contexto escolar, pode-se pensar em realizar a intervenção. Existem muitas formas de elaborar um projeto de intervenção pedagógica. Elencamos a seguir as principais etapas. Acompanhe a leitura!

Diagnóstico

Depois de observado o problema ou a dificuldade, o próximo passo é formalizar que existe necessidade de intervenção pedagógica. A forma de fazer esse levantamento é por meio de um diagnóstico sobre a situação.

No caso de dificuldades com aprendizado, como apropriação da leitura, cálculos ou raciocínio lógico, podem-se aplicar avaliações diagnósticas no início do ano ou em etapas. 

No entanto, esse diagnóstico possui outro objetivo, que é embasar a intervenção que virá e avaliar o grau do problema e da dificuldade dos estudantes. 

Assim, se o professor observa que grande parte de sua turma apresenta dificuldades em compreender e seguir orientações escritas, é na elaboração e na aplicação do diagnóstico que a dimensão da dificuldade poderá ser medida.

Aplicando a avaliação inicial, poderemos saber quais e quantos estudantes possuem a dificuldade, sobre o que exatamente ela consiste e, a partir daí, pensar as intervenções necessárias e como aplicá-las.

Já para situações mais amplas como violência escolar, dificuldades de convivência e mudanças sociais, o diagnóstico pode ser realizado de outras formas. 

Uma possibilidade é fazer o levantamento a partir de dados (como a alta quantidade de brigas ocorridas durante aulas e intervalos), a partir de falas de professores, funcionários e estudantes e também utilizando rodas de conversa para levantar como o problema está ocorrendo.

Planejamento

Com o diagnóstico em mãos, a próxima fase é planejar a intervenção. Como se trata de um projeto, sua elaboração deverá ser escrita e embasada por estudos e teorias da educação e de outras áreas.

Assim, pode-se utilizar uma estrutura mínima para compor o projeto de intervenção,  contendo cada um dos pontos abordados a seguir. Confira!

Apresentação 

A apresentação consiste em elucidar o problema, que deverá ser esmiuçado a partir do diagnóstico. Assim, essa etapa do projeto é apenas uma pequena explicação do que está acontecendo e dos motivos pelos quais é preciso realizar a intervenção.

 

Intervenção pedagógica

A intervenção pedagógica são as ações que se pretende fazer para modificar a situação apresentada. Nessa etapa do planejamento, deverão constar as aulas, os conteúdos e as formas como o professor e os outros profissionais planejam interferir para melhorar o quadro.

Se estivermos falando de um projeto de intervenção para reduzir a violência, essa etapa poderá ser realizada a partir de assembleias, palestras sobre violência, jogos cooperativos, debates, apresentação dos estudantes e outras ações que se façam necessárias.

Já nos casos de intervenções para elevar os níveis de alfabetização, as ações poderão incluir separação da turma por níveis mesclados ou não, uso de monitoria de estudantes que já estejam em fases adiantadas, rodas de leitura, produção de textos escritos, dentre outros.

Metodologia

Muitas vezes, durante a realização do projeto, pode-se confundir a etapa de escrita da metodologia com as ações. No entanto, a metodologia consiste em quais métodos serão utilizados para realizar as ações, além de englobar conceitos teóricos sobre a educação.

Podemos pensar em metodologias ativas de ensino para intervenção pedagógica na alfabetização, metodologia construtivista para intervenções artísticas e matemáticas e ainda metodologias sociológicas ou antropológicas para elaborar intervenções de convivência.

O professor pode optar pela utilização de mais de uma metodologia, caso deseje e também é possível mesclar essa fase do projeto com as ações, desde que ambos estejam claros.

Cronograma

O cronograma do projeto de intervenção pedagógica costuma ser feito em forma de tabela para indicar em quanto tempo o projeto será realizado e quando será colocada em prática cada uma das etapas.

Em projetos formais, o cronograma é obrigatório porque fecha melhor o tempo e a duração das intervenções.

Avaliação

De que forma e quando a intervenção será avaliada é ponto fundamental de qualquer projeto pedagógico. Ainda é importante lembrar que essa etapa não visa a avaliar apenas os estudantes, mas todo o trabalho realizado durante as ações.

O mais indicado é realizar pequenas avaliações durante o processo, inclusive para redirecionar as ações caso seja necessário. Ao final do projeto, faça uma avaliação final para ponderar quais resultados foram realmente obtidos.

Pode-se optar pela apresentação desses resultados à equipe pedagógica ou à coordenação escolar.

Quando utilizar um projeto de intervenção pedagógica

É importante diferenciar o que é um projeto de intervenção pedagógica de projetos para desenvolver habilidades e conteúdos programáticos de rotina. O primeiro deve ser utilizado quando existe um problema, geralmente específico e fora do esperado.

Essa diferenciação é importante, porque o projeto de intervenção pedagógica é um recurso muito interessante para modificação de cenários educacionais complexos e exige empenho e esforço dos professores e da equipe pedagógica.

Por isso, o ideal é sempre apresentar o projeto escrito antes de sua aplicação para a coordenação pedagógica e, se possível, trabalhar em conjunto com esses profissionais e com outros professores para obter os melhores resultados possíveis com os estudantes.

Não deixe de conferir outros textos sobre educação! Acompanhe conteúdos de qualidade, com temas atualizados para professores, gestores e profissionais da educação!

Fonte:  blog do Poliedro Sistema de Ensino


O Papel do Coordenador Pedagógico

O papel do Coordenador Pedagógico


As inúmeras atividades desenvolvidas diariamente na coordenação pedagógica de uma escola da rede pública de Brasília deixam Maria Luiza Alves de Moura cansada, mas também realizada. Para ela, a função que exerce é polivalente e engloba, além da parte pedagógica, práticas habitualmente desempenhadas por pais, professores, profissionais de saúde e até mesmo delegados.


“Procuro fazer o melhor dentro do possível e conto com boa equipe de professores e gestores”, assegura Maria Luiza. Ela trabalha no Centro de Ensino Fundamental (CEF) da SQN 102. Licenciada em ciências, matemática, e biologia, pós-graduada em psicopedagogia institucional, Maria Luiza está na carreira do magistério há 32 anos, sempre na rede pública. Desse período, 26 anos foram dedicados à regência de classe, como professora de ciências e biologia, e seis à coordenadoria pedagógica.

A cada início de ano letivo, a escola promove a Semana Pedagógica. “São revistas as metas da proposta pedagógica do ano anterior, refeitas as que não fluíram e reforçadas as que obtiveram sucesso”, revela. Nesse período, são acolhidos os novos professores, discutidas sugestões de melhoria do trabalho e estabelecido cronograma com os eventos previstos para o decorrer do ano — datas festivas, reuniões com os pais e conselhos de classe.

Na primeira semana de aulas, é destacada, entre os estudantes, a importância da boa convivência no ambiente escolar. Isso é feito por meio de oficinas, com temas que envolvam valores e com a distribuição e a leitura do regimento escolar.

Desafios — A professora brasiliense assegura que o principal desafio enfrentado como coordenadora pedagógica é o próprio sistema educacional, consequência de problemas como a falta de professores no início de cada ano letivo e o grande número de alunos nas turmas. Para ela, classes mais reduzidas permitiriam melhorar a qualidade do atendimento.

De acordo com Maria Luiza, as crianças, hoje, atropelam o tempo, pela curiosidade, pelo amadurecimento precoce, pela inversão de valores, pela sede de tecnologia em suas vidas. “Isso exige do professor habilidades diversas para atender as necessidades dos alunos”, afirma.

Outro problema citado por Maria Luiza é substituição de professores com contrato temporário por profissionais com cargos efetivos no decorrer do ano letivo. A mudança provoca transtornos de relacionamento e de adaptação dos alunos, além de alterações no método de trabalho. “Na maioria das vezes, isso acontece no meio de um bimestre, o que é lamentável, pois o aluno acaba prejudicado”, salienta. “Percebemos claramente como o rendimento cai e a indisciplina aumenta.”

O excesso de projetos que, segundo Maria Luiza, minam o período letivo, é outra questão que a incomoda. Ela diz entender que a educação não pode se pautar em pilares estáticos, pois a inovação é importante, mas que tudo precisa ser feito na medida certa, com base no cotidiano da comunidade e, principalmente, no número de aulas previstas para cada professor. “Ninguém sobrecarregado consegue realizar um bom trabalho”, afirma.

Fátima Schenini


domingo, 27 de março de 2022

Nós adoecemos da ausência de amigos.


"Nós adoecemos da ausência de amigos.
Precisamos desse reconhecimento mútuo, pessoa a pessoa: um reconhecimento não fundado no confronto ou na competição, mas no afeto; não determinado meramente pelas leis da justiça ou pelos vínculos de sangue, mas assente na gratuidade.
O olhar do amigo é uma âncora.
A ela nos seguramos em estações diferentes da vida para receber esse bem inestimável de que temos absoluta necessidade e que, verdadeiramente, só a amizade nos pode dar: a certeza de que somos acompanhados e reconhecidos. Sem isso a vida é uma baça surdina destinada ao esquecimento."

(José Tolentino Mendonça, in 𝘕𝘦𝘯𝘩𝘶𝘮 𝘊𝘢𝘮𝘪𝘯𝘩𝘰 𝘴𝘦𝘳á 𝘓𝘰𝘯𝘨𝘰)

Via página: Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago.


 

quarta-feira, 23 de março de 2022

José Pereira: Franca-São Paulo

                                  José Pereira- 2020

Meu irmão José Pereira, estaria completando hoje 84 anos de vida!

Primogênito do sr. Norberto e de dona Duvina, casou aos 18 anos e foi pai aos 19. Desde que se casou passou a morar em Franca-SP.
Lá criou os 5 filhos trabalhando como motorista particular de uma Indústria de calçados.
Faleceu em 2020, aos 82 anos, em decorrência da COVID.
Falar sobre ele aqui é uma forma de homenageá-lo e de celebrar a oportunidade de ter sido sua irmã e ter podido compartilhar o tecido dessa vida que, em muitas cores e texturas, nós juntos tecemos.
Uma vida tecida com fios bonitos e resistentes que meu bom José deixa como legado aos seus filhos, netos e bisnetos.
Festeje e sorria com os anjos. Que aí seja, de fato o paraíso porque por aqui não foi bolinho não!

sábado, 19 de março de 2022

Maria José Pereira Costa: minha irmã Fiúca!



Fiúca faleceu dia 21 de dezembro de 2016.

Em 19 de março de 2014 escrevi :
Parabéns, Fiuca!
É hoje! Dia especial. Você é um presente de Deus, para nós que a amamos. Uma pessoa que espalha sorriso e palavra de sabedoria por onde passa. Amo você.
Hoje lhe ofereço flores e uma prece.
Diante da saudade cabe a mim relembrar bons momentos.
Diante da saudade, cabe a mim o sentimento de gratidão por ter tido a honra de conviver com você em um mesmo momento da vida e do tempo, dividirmos aprendizados e convivermos em harmonia.
Diante da saudade, cabe a mim orar por você, para que esteja plena de paz e de luz.
Diante da saudade, poderia chorar (como muitas vezes já fiz), mas principalmente, cabe à mim sorrir diante da recordação das inúmeras vezes em que rimos juntas. E se lágrimas rolarem, que sejam estas lágrimas de amor e não lágrimas de dor e de desespero.
Diante da saudade, sinto fortalecida a minha certeza de que o Amor continua vivo e intacto.
Independente da ausência física, da distância que os olhos não conhecem, da separação no tempo e no espaço, porque simplesmente, o Amor permanece, minha irmãzinha.
Continuo desejando que esteja muito feliz junto aos anjos.


 

Dia de São José






Norberto Olimpio Pereira

 Hoje,19 de Março celebramos o dia de São José!

Em 19 de março de 1964 meu pai, Norberto Olimpio Pereira, retornou à Pátria espiritual com 49 anos.
Havíamos nos mudado para Uberaba fazia seis meses.
Minha mãe, Ludovina ficou com cinco filhos menores, para educar e sustentar. E fez isso com muito amor e sabedoria.
Gratidão, Mãezinha.
Pai, meu pai amado, elevo a Deus uma prece silenciosa com o coração inundado de amor. Seja feliz, Norberto! Luz, muita luz, meu pai.

sexta-feira, 18 de março de 2022

TAL DEUS — Wilson Bueno na voz de Sílvio Diogo


Wilson Bueno

Tal Deus




Convido-os a ouvir Sílvio Diogo em https://soundcloud.com/desenhares


TAL DEUS
— Wilson Bueno
na voz de Sílvio Diogo
*
Descubro Deus, pasmo de horror, pelas esquinas e quebradas; suas asas me guardam, ainda que a vida desafine e me jogue na agrura, cascalho ao sol.
A vida e Deus somos dois entes que se completam e se entreolham com gravidade, quase solenes, sem perder a curiosidade jamais.
Como Deus existe, nem sequer o dia é ateu com a sua luz e a manhã profana.
O meu Deus, por exemplo, é assim, e leva a noite nas costas como o prisioneiro em um campo-de-concentração.
No fundo do copo, na madrugada tchecoviana, no trânsito da cidade, no corpo que cai no Xaxim, no sangue do sagrado vivo, o meu Deus é estupendo e exalta as coisas, todas as coisas, com aspereza quase incompreensível — não fosse ele o Deus e eu, a sua criatura.
Salvo dos escombros, esse Deus não dá mostra de que tenha sofrido um viaduto sobre os ossos martirizados. A sua humildade, sendo altiva, chega a parecer quase insolente; o seu manto me concede a sombra; e o mistério me dá o Norte da estrela-do-paraíso.
É ele quem vai, a barba por fazer, moído de cansaço, mal aponte a manhã, é ele quem vai atrás do rabo do arco-íris. E não dá bom-dia a quem passa, este ser alheado e cheio de dúvida.
O meu Deus é tão surpreendente que pode exibir, como prova de seu destino rude, as mãos, as grandes mãos de minha avó bugra com nome de imperatriz — Maria Rosa Custódia de Cenes — e, ao mesmo tempo, levar-me, tugúrio adentro, ao doloroso encontro com a minha cara que o tempo, a machadadas, se incumbiu de esculpir. Sulcos, queixos, arestas. É uma cara enorme e dois olhos esbugalhados.
Nunca que tenha morado comigo um Deus gentil, pois, se assim fosse, certamente eu não o teria percebido, e, creio, nem ele a mim — de tal forma carecemos um do outro, muita vez desavergonhadamente. Mas como seja ele o dono de tudo, sou eu quem me calo — com pudor.
Egresso da noite dos enforcados, tal Deus não se emociona com o que o dia possa parecer estragado pelo veneno de um novo dia, e, atormentado pelo dom da fuga, como o encarcerado de uma galera portuguesa, inventa logo um crepúsculo — brusco rompante de sua inquietação aturdida.
Não que eu seja um crente; ele é que é espantoso, esse Deus construído pra que não se morra diante do alto risco de viver.
*
Do livro ‘Bolero’s Bar’. Curitiba: Criar Edições, 1986 (1ª ed.); Travessa dos Editores, 2007 (2ª ed.).

quinta-feira, 17 de março de 2022

Soneto de Fidelidade Vinicius de Moraes


Soneto de Fidelidade


De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento


Quero vivê-lo em cada vão momento

E em louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento


E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama


Eu possa me dizer do amor (que tive)

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure


















Redes Sociais e o diálogo reflexivo

 "As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha."


Zygmunt Bauman

terça-feira, 15 de março de 2022

Darcy Ribeiro

Darcy Ribeiro


"Ao longo de muitos milênios de ocupação da Amazônia, os povos indígenas acumularam um conhecimento minucioso da floresta e dos seres que ela abriga. Criaram diversas formas de adaptação humana, não destrutiva, através de formas avançadas de manejo que permitem enriquecer a floresta em lugar de degradá-la. [...] Ao contrário da indígena, a ocupação civilizada da Amazônia é essencialmente destrutiva."

Darcy Ribeiro
 

sexta-feira, 11 de março de 2022

Silvio Diogo Lourenço dos Santos


                                                     Silvio Diogo Lourenço dos Santos


Nascimento: 16/12/1982

Falecimento: 11/11/ 2018 





Somente os amigos que se comunicavam com Diogo assiduamente sabiam da doença, do tratamento e da energia sublime que fluía em seus olhos e em suas palavras, dando a cada um de nós a certeza de que a morte não o alcançaria. Afinal um ser humano como ele é eterno.



Silvio Diogo havia passado a virada do ano comigo em Brasília. Há anos isso não acontecia porque nós dois sempre estávamos no trabalho na última semana do ano, pois optávamos por passar o natal em família aqui em Uberaba.
Ele estava tão bem. Saudável. Feliz e cheio de planos para aquele ano de 2016.
Em março recebi um telefonema dele na manhã de uma terça-feira e ele se queixava de uma dor na perna.
Dor a que ele atribuía ao exaustivo evento que ele coordenava, e que havia se encerrado no sábado anterior. Era a “Semana ENVOLVER”, projeto da UFVJM (Universidade Federal dos Vales Jequitinhonha e Mucuri) em Diamantina.
Disse que havia procurado a fisioterapeuta e ela o aconselhou a procurar o ortopedista, porque a dor não era muscular.
Ele disse que já havia feito uma tomografia e o médico  o encaminhara para um oncologista ortopédico em Belo Horizonte.
Como era de costume, ele se mostrava sereno e disposto a enfrentar o que viesse.
Pediu-me que não comentasse com ninguém até que saísse os resultados finais dos exames.
Fiquei apreensiva, coração apertado e iniciei um diálogo interminável com Deus suplicando saúde para meu filho.
Ia todos os dias à FEB (Federação Espírita Brasileira, que ficava há alguns quarteirões da UnB. Lá eu podia desabafar, falar da minha dor e receber o acolhimento dos amigos.
No início do mês de maio, Silvio Diogo já receberia o resultado da biópsia e eu viajei para Belo Horizonte para ir com ele ao médico.
O diagnóstico indicava um tumor cancerígeno na bacia.
O ortopedista o encaminhou para Dra. Ana Alice, médica oncologista que prescreveu 35 sessões de radioterapia.
Hospedamos-nos em um Hostel no Bairro Santa Teresa e eu o acompanhei durante todo o tratamento.
Sempre sorrindo, brincando com os médicos e enfermeiros, cativava a todos.
No mês de outubro foi liberado para retornar ao trabalho na UFVJM. Estava feliz e bem disposto. Retornei ao trabalho, em Brasília.
No final de 2016 fui para Rondonópolis acompanhar minha filha, Sílvia Beatriz, que se submeteu a uma pequena cirurgia.
Silvio Diogo passou o natal com a filha, Joana, em Belo Horizonte e a passagem de ano em São Paulo, com amigos.
Falava sempre com ele, e o visitara muitas vezes em Diamantina.
Era final de março, certa tarde, ele me ligou sentindo muita dor. Combinamos de nos encontrar na manhã seguinte em Belo Horizonte. Diogo estava no Rio de Janeiro celebrando o aniversário de seis anos da filha Joana, naquele 28 de março.

Nos encontramos, em Belo Horizonte, na manhã seguinte e nos hospedamos no Hostel em Santa Teresa. A consulta foi marcada para o dia 30 de março.
Dra. Ana Alice solicitou novos exames e foi então diagnosticado Mieloma Múltiplo, um câncer agressivo na medula.
Dia 03 de abril eu o levei ao hospital com dores horríveis nas pernas e ali antes de internar, ele perdeu os movimentos da cintura para baixo.
Ele foi operado, dia 05/04, para fazer uma descompressão medular. A cirurgia devolveu-lhe parte dos movimentos, mas as pernas continuavam inertes e sem sensibilidade. Nessa mesma cirurgia deveria ter sido feita a artrodese, colocação de pinos de titânio para firmar os ossos da coluna, contudo, houve início de hemorragia e o procedimento foi adiado.

Na semana seguinte, 12/04, foi realizada a segunda cirurgia. Foram 47 dias de internação. Meses de fisioterapia. Oito meses de cadeira de rodas. Depois o andador, a bengala e, finalmente, caminhando com desenvoltura.
A cirurgia abriu uma ferida profunda na cicatriz. Ferida que não chegou a fechar totalmente, o que restringia a vida social de Diogo.
Durante o tratamento Silvio Diogo fez a tradução do livro de Maria Zambrano, Clareiras Del Bosque, que foi encaminhado às editoras para publicação, mas ainda não foi publicado.
Concluiu o terceiro livro de poemas intitulado “Cambalhota” que foi publicado pela Arte Desemboque Casa Editorial. Foram feitos lançamentos em Diamantina e em Belo Horizonte.
Semanalmente, fazia a leitura de poemas de autores consagrados ou amigos e publicava no seu Blog Desenhares, sempre aos domingos.
Silvio Diogo tem uma coleção de vinis que sempre foi o xodó e que ele ouvia diariamente e se deleitava com as letras e as melodias. A arte primorosa das capas era encantamento à parte.
Somente os amigos que se comunicavam com Diogo assiduamente sabiam da doença, do tratamento e da energia sublime que fluía em seus olhos e em suas palavras, dando a cada um de nós a certeza de que a morte não o alcançaria. Afinal um ser humano como ele é eterno.
A partir de fevereiro de 2018, Diogo iniciou preparação para prestar exame de seleção para o mestrado da UFMG. Adquiriu toda a bibliografia, estudou, fez a inscrição.
No dia 22 de outubro sentiu um mal estar e o levei ao hospital, estava com anemia. Foi internado. Pediu-me que não comunicasse o fato com ninguém.
-” Daqui a dois dias estarei em casa, não vamos alarmar as pessoas.”
Um exame de ultrassonografia acusou dois enormes tumores no fígado e orientado pela médica, estava à espera de uma biópsia.
Diogo hospitalizado levantava cedo, tomava o banho, se arrumava, sentava-se na poltrona e lia em voz alta (seu jeito de estudar) os livros que o preparavam para a prova de mestrado que seria realizada no dia 30 de outubro.
Dormia bem, se alimentava bem, sorria, brincava.
Embora soubesse da gravidade de seu quadro clínico, solicitou à médica que o liberasse para fazer os exames para o mestrado. Ficou extremamente abatido com a recusa dela.

Diogo pensava somente na vida, e queria seguir seus projetos.

Às vésperas do dia 02 de novembro, iniciou com todos os funcionários do hospital, um mirabolante plano de fuga para não passar no hospital, o feriado. Eram risos e brincadeiras que anunciavam vida, amor e brilho do além tempo.
Naquela segunda-feira, 04/11, Diogo acordou abatido e com a saturação muito baixa. Sílvio, o pai, chegou por volta de 11 horas trazendo o notebook para que ele pudesse pagar as contas e transferir a pensão de Joana. Ele fez essas tarefas e fez algumas postagens no facebook  e dialogou com amigos no whatsap.

Naquele noite não dormimos. Ele sentava-se na cama conversava comigo. Por volta de três horas, daquele dia 05/11, a enfermeira colocou o oxigênio. O médico veio e depois de examiná-lo chamou-me e perguntou se eu sabia da gravidade do quadro de saúde de Diogo. Respondi afirmativamente, em lágrimas e ele disse que estava levando-o para o CTI para entubá-lo e amenizar o sofrimento dele e que ele não regressaria. 
Liguei para Alcione e Ronaldo, meus amigos espíritas que iam semanalmente em nossa casa para o evangelho no lar, para que viessem fazer uma prece pelo meu filho antes que o levassem.
O enfermeiro chegou uns 30 minutos depois e pedi que ele esperasse a chegada de meus amigos que estavam a caminho.
Diogo olhou-me e disse:
 “–Deixa eu  ir, mãe!  Eu preciso ir”. Olhei-o com um sorriso e disse: vai meu filho. Deus o abençoe.
Acompanhei-o sorridente até o elevador. Assim que as portas do elevador se fecharam desabei num choro silencioso e compulsivo. Meus amigos me encontraram assim, me abraçaram e choraram comigo.
Comuniquei com os amigos e familiares que se assustaram pois a maioria dos amigos sequer sabiam que Diogo lutava contra o câncer.
A recepção do Hospital Belo Horizonte se tornou uma sala de visitas que estava sempre lotada de amigos que vieram de todos os cantos do país. Minha filha Silvia chegou com a minha sobrinha Paula Maria, viajaram de carro de Rondonópolis a BH. Minhas irmãs Lenice e Maria do Pilar chegaram de Uberaba, a filha do Diogo, Joana, de 7 anos,  a mãe dela Themis, se juntaram a nós. A visita ao CTI foi liberada  e de terça a sábado foi feita uma vigília com orações, leitura de poemas pelos amigos e familiares. Sem contar os desenhos e as emocionantes cartinhas de Joana para o pai.
A 1 hora e 40 minutos do domingo dia 11 de novembro de 2018, Diogo faleceu.
Às três horas o amigo médium Ivani, enviou-me a seguinte mensagem pelo celular:
“- Estamos em atendimento ao Sílvio neste momento. Oração e fé. Ele está na espiritualidade”.
Ivani não havia sido informado do falecimento de Silvio Diogo. Para mim, que sou espírita, foi um alento, uma certeza de a vida não acaba com a morte. Ele não está morto. Mudou de casa.
Assim que amanheceu o dia ligamos para os amigos e familiares e comunicamos o falecimento de meu filho e anunciamos o velório de 10 minutos na Funerária de Belo Horizonte. O evento acabou  durando mais de uma hora. Amigos cantaram, declamaram poemas e fizeram orações para Diogo numa cerimônia linda e cheia de poesia, de dor e de amor.
Trouxemos o corpo para ser velado em Uberaba, Funerária LIV, centenas de amigos e parentes muito emocionados foram nos abraçar e falar sobre o amor pelo meu filho. Diogo era um ser humano doce e forte que tinha tempo marcado para viver entre nós.
Trouxe com ele sua doçura, sua bondade, sua sabedoria, sua beleza e sua luz esplêndida.
Diogo marcou com suas palavras, seu olhar, seus gestos cada pessoa que cruzou o seu caminho.
Diogo levou com ele o amor que semeou por aqui entre risos e lágrimas, poemas e canções, ternura e mansidão.

Diogo, meu filho, levo comigo a doce certeza de que há entre nós apenas um fino véu que cobre a nossa visão.

  Fala da mãe (sobre a filha) O relacionamento com minha filha, em criança, foi de muitos momentos mágicos. E, por vezes, engraçados. Silv...