sexta-feira, 22 de abril de 2022

Fernando Pessoa


 "Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino."
.
*Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

quinta-feira, 21 de abril de 2022

História


 Um homem entrava todos os dias no ônibus para ir trabalhar.

Uma parada depois, uma idosa entrava no ônibus e sentava ao lado da janela.
A idosa abria um saco e durante todo o trajeto, ia jogando algo pela janela.
Sempre fazia o mesmo e um dia, intrigado, o homem perguntou o que era o que jogava pela janela.
- São sementes, disse a
idosa.
- Sementes?
Sementes de quê?
- De flores!
É que olho para fora e está tudo tão vazio...
Queria poder viajar vendo flores durante todo o caminho.
- Mas as sementes caem em cima do asfalto, esmagam-nas os carros, comem-nas os pássaros... Acha que as suas sementes vão germinar ao lado do caminho?
- Com certeza que sim. Mesmo que muitas se percam, algumas vão acabar na valeta e, eventualmente, brotar.
- Mas... Elas vão demorar a crescer, eles precisam de água...
- Eu faço o que posso.
Os dias de chuva virão!
A idosa continuou com o seu trabalho...
E o homem desceu do ônibus para ir trabalhar, achando que a idosa tinha perdido um pouco a cabeça.
Alguns meses depois, indo para o trabalho, o homem, olhando pela janela viu todo o caminho cheio de flores...
Tudo o que eu via era uma paisagem colorida e florida!
Lembrou-se da idosa, mas há dias que não a via. Perguntou ao motorista:
- A idosa das sementes?
- Bem, ela morreu há um mês.
O homem voltou para o seu lugar e continuou a olhar para a paisagem.
′′As flores brotaram, pensou , mas de que lhe serviu o seu trabalho?
Ela não conseguiu ver a sua obra ".
De repente, ele ouviu o rir de um menino.
Uma menina apontou empolgada para as flores.
- Olha, pai!
Olha quantas flores!
Não é preciso explicar o sentido desta história…
A idosa da nossa história tinha feito o seu trabalho, e deixou a sua herança a todos os que a pudessem receber, a todos os que pudessem contempla-la e ser mais feliz.
Dizem que aquele homem, desde aquele dia, faz a viagem de casa para o trabalho com um saco de sementes que vai atirando pela janela.
Não pare de plantar coisas boas...
Alguém sempre vai colher a sua semeadura....

Autor desconhecido

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Daniek Becker: Seu filho deve aprender que não é o centro do mundo.

 “O pediatra Daniel Becker é o criador da Pediatria Integral: um conceito de que a criança precisa ser vista de forma mais abrangente. Não é apenas tratar e prevenir doenças, mas cuidar do bem estar emocional, social e até espiritual da criança e da família. São 20 anos de experiência de consultório no Rio de Janeiro. Formado pela UFRJ, ele é especialista em Homeopatia e mestre em Saúde Pública. Médico do Instituto de Pediatria da UFRJ, ele foi pediatra da Médicos sem Fronteira em campos de refugiados na Ásia e fundador de uma ONG, o CEDAPS, Centro de Promoção da Saúde, com atuação em comunidades carentes. Com tantos compromissos, entre palestras e consultas, ele abriu gentilmente um espaço na agenda para responder às minhas perguntas”.

1.Na sua palestra no Ted, você diz que um dos pecados contra a infância é a “entronização”. O que isso significa? Estamos colocando nossas crianças em um trono?

A gente vive em tempos de hipervalorização da infância tanto pela mídia quanto pretensamente pela família e pela sociedade. Mas na verdade a infância é desvalorizada naquilo que ela tem de real, na sua essência. Um dos fatores que explica esse paradoxo é a falta de intimidade e de convivência entre pais e filhos por causa das questões da vida moderna.

E quando estão juntos, os pais não conhecem essas crianças, não sabem lidar com elas. Estão estressados com os seus trabalhos, estão viciados nos seus telefones e não querem também se submeter à desaprovação social de uma criança que chora ou se comporta mal. Acaba que essa criança não tem direito de se manifestar de forma negativa, que faz parte do comportamento infantil. Ela não pode fazer uma birra, dizer “não”, chorar, explorar seus limites de atuação no mundo.

Como os pais não sabem lidar com essas situações, a criança acaba tendo todos os seus desejos realizados, não lhe colocam limites, não lhe dizem que ela tem que lidar com a frustração. A gente quer calar a qualquer custo o mal estar. Então para parar com o chilique, a gente acaba cedendo. Ao invés de aprender as regras de convivência, a criança passa a ser uma rainha que dita as normas, os programas, os horários.

 2. E o pecado que você chama de “superproteção da infância”?

A superproteção é impedir que as crianças tenham suas próprias experiências. A gente está presente o tempo todo, aquilo que os americanos chamam de “helicopter parent”, pais que ficam flutuando em torno das crianças fazendo com que elas não tenham a experiência do mundo, justamente porque os pais se interpõem entre o mundo e a criança.

Elas ficam impedidas de lidar com o risco, com a aventura, com as relações interpessoais, com os problemas da escola, com a dor, com os machucados. Se a criança tem um problema com uma outra criança, os pais se interpõem para resolver a questão, no playground não deixam ela se arriscar a subir mais alto no trepa-trepa. É claro que ninguém quer que o filho quebre um dedo ou receba um ponto, mas são experiências da infância.

A criança tem que ter a experiência do risco, do machucadinho e da frustração. Outra coisa muito grave é que para evitar os perigos do mundo, as famílias ficam muito em casa, se expõem pouco à natureza, as praças e as praias. Os riscos desses lugares existem e temos que lidar com eles, pois fazem parte da vida.

3. Qual o prejuízo real para crianças que não sabem ouvir a palavra “não”? O que vai ser (ou já está sendo) dessa geração sem limites? 

Eu já vi criança dormindo às duas da manhã, já vi criança de dois anos que comanda o que tem na geladeira e no armário da despensa. Outras que determinam o programa da família nos fins de semana, se elas não querem sair, ninguém sai.

Pais que deixam a criança de 3 anos ficar horas na televisão porque não sabem desligar o aparelho e deixar ela ficar frustrada. Criança que come o biscoito ao invés da comida, que ganha o presente depois de ter se jogado no chão do shopping. Isso tudo causa um prejuízo enorme, tanto na qualidade de vida dessa família, quanto na psiquê, na emocionalidade dessa criança. Ela precisa saber que a sua vida tem limites, que a sua influencia tem limites, que o mundo não gira em função do seu umbigo.

Muitos meninos e meninas dessa geração vão levar isso para a vida adulta e não só terão dificuldades de convívio como vão quebrar a cara nos seus ambientes de trabalho e em relacionamentos interpessoais. Porque nem sempre a vida vai acolher esse tipo de onipotência que é resultado de uma educação cheia de falhas nesse sentido.

4. A culpa que os pais carregam é a grande vilã nessa história?

Eu tenho muito medo da gente restringir a questão à responsabilidade da família. A família é responsável sim, tem que saber lidar com a frustração, o choro, as emoções negativas da criança, tem que saber mostrar a ela que esses momentos passam, que estas situações vão deixar ensinamentos importantes.

Os pais sentem culpa porque não estão presentes na vida dela e quando estão juntos querem dar coisas demais. A gente briga com essa história de dar presente, ao invés de dar presença. Muitas vezes o tal “deficit de atenção” é deficit de atenção de pai e mãe que a criança sofre.

Mas a gente tem que justamente tomar muito cuidado para não piorar isso dizendo que os pais são os culpados porque o que leva a tudo isso é a vida moderna, é a perda de referências, é a falta de capacidade de aprender com as gerações anteriores, com a experiência dos outros, é a invasão do tempo de trabalho e do tempo de entretenimento no tempo em família, é o vício do smartphones.

Tudo isso tem que ser pesado na compreensão desse fenômeno da entronização e da superproteção da infância, a gente não pode restringir a responsabilidade e nem as soluções apenas a nível familiar.

5.A justificativa sincera de muitos pais é de que eles fazem o melhor que podem. Trabalham o dia todo, batalham para dar conforto aos filhos. chegam exaustos em casa. É até mesmo controverso: as pessoas querem ter filhos mas não conseguem ter tempo de conviver com eles. Como resolver este impasse? 

As pessoas querem ter filhos e imaginam que tudo vai ser um mar de rosas. Elas têm que ter consciência de que vão ter filhos neste mundo em que vivem: nas grandes cidades, muitas vezes com a falta de presença de familiares, com trabalhos que demandam excessivamente, com transporte que fazem elas chegarem tarde em casa, isso tudo tem que ser incorporado por um casal quando eles planejam filhos. Planejar ter filho é ver o futuro.

Claro que a maioria das pessoas não faz isso, a gente quer ter filho, a gente quer reproduzir a nossa própria genética, isso faz parte de um mandato biológico. Mas hoje em dia a gente tem que pensar nas condições de vida que essa criança vai nascer e como nós vamos dedicar o nosso tempo a ela. Isso faz parte da responsabilidade de um casal. É preciso planejar a carreira, o local de trabalho para que a convivência familiar seja maximizada, para que a criança cresça com a presença dos pais, dos avós, tios, primos. Escolher um lugar para morar com natureza por perto. De novo a gente não pode reduzir a solução deste impasse a nível da família, a gente tem que tentar pensar na sociedade como um todo. A sociedade brasileira é insegura, desigual e cheia de problemas e isso influencia nas condições de vida das famílias.

6. O video americano “Childhood is not a mental disorder já deu o que falar sobre o uso exagerado de remédios em crianças para controlar “doenças do comportamento”? Você concorda que é preciso ter muito cuidado com os diagnósticos?

Eu gosto muito desse vídeo e ele traz mesmo uma dimensão terrível do que a sociedade está fazendo com a infância. O mercado pressiona a família por soluções fáceis, todo mundo quer resolver os problemas imediatamente. A energia da criança está sendo reprimida.

É claro que o comportamento dela vai ser muito afetado por todas as questões que eu já citei, podendo se rebelar, ter insônia, desatenção, brigar na escola, ser impulsiva. Em vez da gente repensar como oferecer a estas crianças uma infância melhor, mais saudável, mais verdadeira, o que o mercado propõe é que elas sejam medicalizadas. A indústria de diagnósticos e de remédios é monstruosa e crescente.

No Brasil, a Ritalina é o principal remédio usado para criança. Em 10 anos a venda de Ritalina subiu de 75 mil caixas para 2 milhões de caixas. O Ministério da Saúde agora está estabelecendo uma regulação para a venda do remédio. A gente não pode negar que essas doenças existem, o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) é uma doença grave, mas ela atinge um pequeno número de crianças.

A grande maioria desses diagnósticos está sendo feita de forma arbitrária, sem critério suficiente, eu diria até perversa. É preciso mudar o comportamento da família ou ir para psicoterapia, terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia, que são benéficas para este tipo de problemas e poderiam ser tentadas antes e de forma mais eficaz. Porque o remédio vai ter efeitos colaterais, vai rotular esta criança, como o video expõe muito bem, vai colocar na cabecinha dela que ela é apenas um transtorno e não uma criança que tem potencialidades múltiplas e possibilidades infinitas para o seu futuro.

Tem a historia de uma mãe que levou a filha ao pediatra porque achava que ela tinha problemas e o pediatra deixou a criança com uma música e saiu da sala por alguns minutos com a mãe. Eles ficaram observando a criança do lado de fora, enquanto ela dançava o tempo todo. E o pediatra disse: “Sua filha não tem um problema, sua filha é uma bailarina, leve-a para uma aula de ballet e vão ser felizes”. Gillian Barbara Pyrke, a menina da historia, se tornou uma famosa coreógrafa da Broadway. Quantos gênios, artistas, cientistas nós não estamos perdendo medicando e rotulando essas crianças?

7.Quais as suas dicas para criarmos “crianças como crianças”?

Acolher as crianças nas suas emoções. Especialmente as crianças pequenas têm uma racionalidade limitada e uma emocionalidade muito grande. Se ela está com raiva, você pode dizer pra ela “você está com muita raiva”. E mostrar de forma teatral o que está acontecendo com ela, fazê-la entender o sentimento que ela está tendo e dar permissão para ela sentir essas emoções, tanto negativas quanto positivas.

Acolher também os desejos: “você quer esse brinquedo, eu sei que você quer muito ele, eu te entendo, mas a mamãe não pode comprar ele agora”. Isso quebra um pouco esse mecanismo da birra.

Ter convivência com os nossos filhos, oferecer a eles oportunidades de conversa, de refeições em família, de sair na rua juntos, brincar nos parques, subir no trepa-trepa, ralar o joelho no chão, cair do skate (com capacete!), subir numa árvore, levar um zero, aprender com a frustração: tudo isso é importante para formar uma criança mais feliz e um adulto mais íntegro, preparado para conviver com o outro.

Pra saber respeitar o outro a primeira coisa que a criança tem que entender é que ela não é o centro do mundo. Ela é um membro da família e ter relações igualitárias com os outros membros da família vai fazê-la entender que ela vive numa sociedade. Esse é o nosso papel como pais.

 

**Por Fabiana Santos – extraído de Tudo Sobre a Minha Mãe –  site que recomendamos a visita.

terça-feira, 19 de abril de 2022

19 de abril

 Hoje é dia 19 de Abril:

Dia de:
Dia da primeira batalha dos Guararapes (1648)
Dia Nacional do Índio
Dia Pan-Americana do Índio
Dia Estadual da Juventude (SP)
Dia do Exército Brasileiro
Dia Mundial da Bicicleta
Aniversariantes do dia:

Roberto Carlos ☆ 1941
Eduardo Galvão ☆ 1962 ✝️ 2020
Getúlio Vargas ☆ 1883

Fatos

Morte do naturalista Charles Darwin ✝️ 1882
Morte do cartunista Belmonte, criador do personagem Juca Pato ✝️ 1947
Morte do ator Walter D'Ávila ✝️ 1996
Início do domínio espanhol no Brasil ☆ 1581
Morte de Dr. Eloy de Miranda Chaves, criador da primeira Lei da Previdência ✝️ 1964
Santo do Dia:

Santa Ema
São Leão IX
Santo Expedito






Dia do índígena

Ouvir com o coração e não com as orelhas.
Sentir com o coração e não com as mãos.
Ver com o coração e não com os olhos.
Falar com o coração e não com a boca.
Pensar com o coração e não com a mente.
Ser único com tudo na Terra.
Prece Indigena
Crianças da etnia Ashaninka, Acre



Ricardo Stuckert

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Ouro Preto

Foto linda.
 

Chico Buarque

O Chico Buarque é o cara que registrou em imagens de alta resolução grandes momentos históricos do Brasil contemporâneo.

O fim do país suburbano e bucólico como em 'A Banda', ou 'Até Pensei'. A expansão predatória dos grandes conglomerados urbanos no milagre econômico, como em 'Construção', ou 'Pivete'. A frustração da Campanha das Diretas em 'Pelas Tabelas', a explosão da violência em 'Estação Derradeira', a distopia do segundo milênio em 'Querido Diário' ou 'As Caravanas', entre tantas outras.

O que ninguém esperava era que o Chico também tivesse o dom de prever o futuro.

E foi o que ele fez em 'E Se...', parceria com Francis Hime de 1980.

Chico, 42 anos atrás, indagava: - E se o Carnaval cair em abril?

De uma precisão nostradâmica! Os desfiles das escolas de samba no Carnaval pós-pandemia de 2022, acontecerão entre os dias 20 e 23 de abril.

E por que nosso agora revelado oráculo terá escolhido justamente o mês que o destino trataria de confirmar? Por que não o calorento dezembro? O chuvoso fim de março? Ou agosto, associado ao desgosto e à loucura, ingredientes indispensáveis do tríduo de Momo?

O motivo é mais prosaico. Ou mesmo um não motivo.

Diferentemente de:

'Construção', onde os versos sem rimas terminam sempre em palavras proparoxítonas, ou em:

'Ela é Dançarina' em que as rimas espalhadas por cerca de 70 versos, à exceção de apenas três, são todas paroxítonas...

'E Se...' fecha cada um de seus versos com uma oxítona.

O mago tinha apenas uma opção.

Afinal, abril é a única oxítona entre os nomes dos doze meses do nosso calendário.

🎶

E SE... (Francis Hime & Chico Buarque)

E se o oceano incendiar
E se cair neve no sertão
E se o urubu cocorocar
E se o Botafogo for campeão
E se o meu dinheiro não faltar
E se o delegado for gentil
E se tiver bife no jantar
E se o carnaval cair em abril
E se o telefone funcionar
E se o pantanal virar pirão
E se o Pão-de-Açúcar desmanchar
E se tiver sopa pro peão
E se o oceano incendiar
E se o Arapiraca for campeão
E se à meia-noite o sol raiar
E se o meu país for um jardim
E se eu convidá-la pra dançar
E se ela ficar assim, assim
E se eu lhe entregar meu coração
E meu coração for um quindim
E se o meu amor gostar então
De mim


 

Chico Buarque | Todo o sentimento (Cristovão Bastos e Chico Buarque) | Á...



domingo, 17 de abril de 2022

Páscoa!!!



Páscoa é uma palavra de origem hebraica que significa "passagem", onde se celebra a ressurreição de Jesus após sua crucificação.

 

sábado, 16 de abril de 2022

Mia Couto



 "Cantar, dizem, é um afastamento da morte. A voz suspende o passo da morte e, em volta, tudo se torna pegada da vida. Dizem mas, para mim, a voz serve-me para outras finalidades: cantando eu convoco um certo homem. Era um apanhador de pérolas, um vasculhador de maresias. Esse homem acendeu a minha vida e ainda hoje eu sigo por iluminação desse sentimento. O amor, agora sei, é a terra e o mar se inundando mutuamente."

Mia Couto

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Triste fim de Policarpo Quaresma


Lima barreto

“Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifrável da nossa própria natureza, fica amedrontado, sentindo que o gérmen daquilo está depositado em nós e que por qualquer coisa ele nos invade, nos toma, nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora compreensão inversa e absurda de nós mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após. E essa mudança, não começa, não se sente quando começa e quase nunca acaba.”
– Lima Barreto, no livro “Triste fim de Policarpo Quaresma”. Ática, 2002


 

sábado, 9 de abril de 2022

Violência contra a mulher: Um poema do meu filho sobre o tema.


 

Masculina Coragem

Silvio Diogo Lourenço dos Santos

 

Necessita-se de homens corajosos;

Homens que olhem nos olhos

E aprimorem o jeito de alegrar as mulheres,

Calentar as mulheres.

E alertar-se.

Homens que assumam as próprias imperfeições

E as enfrentem com o ímpeto de que são dotados.

Que percebam, sim, os marasmos da amada

E busquem nos segredos da convivência

Os pontos precisos, os momentos precisos

De falar e de agir.

Homens que sejam tocados pelo desejo

De estarem felizes consigo,

Com os amigos, o trabalho, os sonhos, a vida.

Necessita-se de homens corajosos

Para lidar com a casa, as necessidades, as perdas;

Os assuntos fortes e delicados.

Homens que procurem cuidar

Das carências do corpo,

da saúde do coração.

Necessita-se de novos homens.

E de experiência, também, necessita-se.

Em proveito dos gêneros

(muito mais do que dois)

É concebido este anúncio.

Necessita-se, por certo,

De mulheres atentas

A essas tantas

Necessidades.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Armando Liguori Junior: Ser leve Leva tempo


 Te conheci antes da linguagem. Eram outros tempos. Tempos de sinais de fumaça. Te conheci antes do corpo. Eram outros tempos. Tempos imateriais. Te conheci antes do beijo. Eram outros tempos. Tempos de olhares. Te conheci antes de mim. Eram outros tempos. Tempos sem espelhos. E é por ter te conhecido antes de tudo, que te desconheço tão bem.

.
.
Se os homens calassem não se perderiam vidas. Se não falassem tanto talvez concluíssem que somos curtos de existência: alguns segredos, alguns segundos e fim. Talvez vissem que no fundo somos todos ingênuos por acreditarmos demais ou desconfiarmos de menos. E que morremos culpados mesmo por crimes que não cometemos. Sairemos da vida sem compreender todos os seus sinais. Não é porque muitos querem o céu que ele necessariamente exista.
.
.
São tantos os desvios, as esquinas, os cruzamentos. Perdoe-me se me perdi. Faltou mapa. Faltou senso. Devia ter parado. Segui. Me perdi. E me perdendo, te perdi. Perdão. Eu peço. Tem muito muro nessa cidade. Difícil achar quem se procura. Tem muita gente também. Fácil se perder. Tem muita placa apontando direções. Para cá. Para lá. Em frente. Vira. Como alguém pode chegar a algum lugar assim? Como alguém pode se encontrar? Perdão. Me perdi. E não foi longe. Foi perto de ti.
.
.
(Armando Liguori Junior in “Ser Leve Leva Tempo”. Págs. 11, 21 e 43. Editora Desconcertos, 2022.)
.
O Armando Liguori Junior lançará o “Ser Leve Leva Tempo”, livro excelente, belíssimo, que eu lerei e relerei muito além de uma ‘quinta leitura’, hoje (07/04) às 20 horas, em live a ser exibida no canal da Desconcertos Editora, no Youtube.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Rubem Alves

 



"O amor começa quando colocamos uma metáfora poética no rosto da pessoa amada. A paixão é uma experiência estética. Está ligada à contemplação da beleza. A pessoa pela qual se está apaixonado é bela. Não é que ela seja bela – é o olhar apaixonado que a torna assim. Porque não vemos o que vemos, vemos o que somos."

Rubem Alves

terça-feira, 5 de abril de 2022

Cecília Meireles: Timidez

 







Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

– mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

– palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

– que amargamente inventei.
– Cecília Meireles, em ‘Viagem’ (1973)

Ingrid Yurie : Como ter um currículo literário que favoreça a formação de leitores

 Saiba como construir trabalho sólido na escola para que os alunos dos Anos Finais sejam capazes de ler muito além do texto em si.


Ao longo do Ensino Fundamental momentos prazerosos de leitura embaixo de uma árvore, em uma cabaninha ou em roda na sala de aula vão ficando cada vez mais raros. Nos Anos Finais, os livros passam a aparecer no dia a dia escolar quase como um obstáculo que os estudantes precisam transpor para realizar, por exemplo, um fichamento e obter uma nota. Essa forma de trabalho pode afastá-los da literatura e traz prejuízos para seu desenvolvimento cognitivo e emocional. 

“Nos documentos curriculares aparece a formação de um leitor crítico, competente e proficiente que consegue compreender o que leu e se posicionar a partir disso”, diz Érica de Faria Dutra, formadora de professores no Instituto Vera Cruz, no Avisa Lá e na Comunidade Educativa CEDAC, e coordenadora pedagógica do programa Taba na Escola. “Mas podemos ser mais ousados e desejar formar, junto a isso, um leitor mais humano, que possa olhar para sua vida e para a do outro de um jeito mais empático", complementa.

É nessa perspectiva que trabalha Ana Cláudia Santos, uma das vencedoras do Prêmio Educador Nota 10 em 2014 e em 2018 e professora de Língua Portuguesa na Escola Estadual Padre Paulo, em Santo Antônio do Monte (MG). Ela planeja um percurso para que, ao final do 9° ano, o perfil leitor de seus estudantes seja o de coautor das obras que leem: “Isto é, que eles tenham a capacidade de extrair a essência das obras literárias, traduzi-las para suas vivências e ampliar seus horizontes”. 

Nisso, a escola tem papel central. Ela permite o acesso, de forma mediada, à diversidade de obras, estilos e autores, e pode criar espaços e tempos consistentes para que os estudantes tenham a oportunidade de explorar o que gostam (ou não) de ler, e de criar suas próprias interpretações acerca das narrativas, bem como confrontá-las com as dos colegas. 


“O equilíbrio está em atrelar as impressões pessoais do estudante – o que sentiu, pensou, como a história se relaciona com sua vida – às respostas mais analíticas e referentes ao seu repertório literário. E quando isso é feito com a turma toda, o aluno percebe que ele interpretou uma coisa e o colega, outra, e não existe certo ou errado”, sintetiza Érica. 

É assim que a característica humanizadora da literatura se estende do individual para o coletivo, porque os estudantes compreendem que pontos de vista diferentes sobre um mesmo tema são possíveis e que derivam das subjetividades, contextos e trajetórias de cada um. 

Currículo literário na escola

Ao longo do Ensino Fundamental momentos prazerosos de  leitura embaixo de uma árvore, em uma cabaninha ou em roda na sala de aula vão ficando cada vez mais raros. Nos Anos Finais, os livros passam a aparecer no dia a dia escolar quase como um obstáculo que os estudantes precisam transpor para realizar, por exemplo, um fichamento e obter uma nota. Essa forma de trabalho pode afastá-los da literatura e traz prejuízos para seu desenvolvimento cognitivo e emocional. 

“Nos documentos curriculares aparece a formação de um leitor crítico, competente e proficiente que consegue compreender o que leu e se posicionar a partir disso”, diz Érica de Faria Dutra, formadora de professores no Instituto Vera Cruz, no Avisa Lá e na Comunidade Educativa CEDAC, e coordenadora pedagógica do programa Taba na Escola. “Mas podemos ser mais ousados e desejar formar, junto a isso, um leitor mais humano, que possa olhar para sua vida e para a do outro de um jeito mais empático", complementa.


É nessa perspectiva que trabalha Ana Cláudia Santos, uma das vencedoras do Prêmio Educador Nota 10 em 2014 e em 2018 e professora de Língua Portuguesa na Escola Estadual Padre Paulo, em Santo Antônio do Monte (MG). Ela planeja um percurso para que, ao final do 9° ano, o perfil leitor de seus estudantes seja o de coautor das obras que leem: “Isto é, que eles tenham a capacidade de extrair a essência das obras literárias, traduzi-las para suas vivências e ampliar seus horizontes”. 

Nisso, a escola tem papel central. Ela permite o acesso, de forma mediada, à diversidade de obras, estilos e autores, e pode criar espaços e tempos consistentes para que os estudantes tenham a oportunidade de explorar o que gostam (ou não) de ler, e de criar suas próprias interpretações acerca das narrativas, bem como confrontá-las com as dos colegas. 

“O equilíbrio está em atrelar as impressões pessoais do estudante – o que sentiu, pensou, como a história se relaciona com sua vida – às respostas mais analíticas e referentes ao seu repertório literário. E quando isso é feito com a turma toda, o aluno percebe que ele interpretou uma coisa e o colega, outra, e não existe certo ou errado”, sintetiza Érica. 

É assim que a característica humanizadora da literatura se estende do individual para o coletivo, porque os estudantes compreendem que pontos de vista diferentes sobre um mesmo tema são possíveis e que derivam das subjetividades, contextos e trajetórias de cada um. 

Currículo literário na escola

No cotidiano escolar os educadores esbarram em uma série de entraves para formar esse perfil leitor. “Faltam estímulos por parte do governo federal em relação a políticas de livros, o que na prática dificulta o acesso às obras”, observa Luiz Guilherme Fernandes, professor de Língua Portuguesa para os Anos Finais na Escola Municipal de Ensino Fundamental Presidente Prudente de Morais, em São Paulo (SP). 

Além disso, as obras literárias competem com a atratividade que as telas exercem sobre os adolescentes, e demandam do professor um jogo de cintura para conciliar diferentes formas de ler em meio às salas superlotadas e à falta de tempo e espaços para promover atividades de leitura.

  Fala da mãe (sobre a filha) O relacionamento com minha filha, em criança, foi de muitos momentos mágicos. E, por vezes, engraçados. Silv...