Somente os amigos que se
comunicavam com Diogo assiduamente sabiam da doença, do tratamento e da energia
sublime que fluía em seus olhos e em suas palavras, dando a cada um de nós a
certeza de que a morte não o alcançaria. Afinal um ser humano como ele é
eterno.
Silvio Diogo havia
passado a virada do ano comigo em Brasília. Há anos isso não acontecia porque
nós dois sempre estávamos no trabalho na última semana do ano, pois optávamos
por passar o natal em família aqui em Uberaba.
Ele estava tão bem.
Saudável. Feliz e cheio de planos para aquele ano de 2016.
Em março recebi um
telefonema dele na manhã de uma terça-feira e ele se queixava de uma dor na
perna.
Dor a que ele
atribuía ao exaustivo evento que ele coordenava, e que havia se encerrado no
sábado anterior. Era a “Semana ENVOLVER”, projeto da UFVJM (Universidade
Federal dos Vales Jequitinhonha e Mucuri) em Diamantina.
Disse que havia
procurado a fisioterapeuta e ela o aconselhou a procurar o ortopedista, porque
a dor não era muscular.
Ele disse que já havia
feito uma tomografia e o médico o
encaminhara para um oncologista ortopédico em Belo Horizonte.
Como era de costume,
ele se mostrava sereno e disposto a enfrentar o que viesse.
Pediu-me que não
comentasse com ninguém até que saísse os resultados finais dos exames.
Fiquei apreensiva,
coração apertado e iniciei um diálogo interminável com Deus suplicando saúde
para meu filho.
Ia todos os dias à FEB (Federação Espírita
Brasileira, que ficava há alguns quarteirões da UnB. Lá eu podia desabafar,
falar da minha dor e receber o acolhimento dos amigos.
No início do mês de
maio, Silvio Diogo já receberia o resultado da biópsia e eu viajei para Belo
Horizonte para ir com ele ao médico.
O diagnóstico
indicava um tumor cancerígeno na bacia.
O ortopedista o encaminhou
para Dra. Ana Alice, médica oncologista que prescreveu 35 sessões de radioterapia.
Hospedamos-nos em um
Hostel no Bairro Santa Teresa e eu o acompanhei durante todo o tratamento.
Sempre sorrindo,
brincando com os médicos e enfermeiros, cativava a todos.
No mês de outubro foi
liberado para retornar ao trabalho na UFVJM. Estava feliz e bem disposto. Retornei ao trabalho, em Brasília.
No final de 2016 fui
para Rondonópolis acompanhar minha filha, Sílvia Beatriz, que se submeteu a uma
pequena cirurgia.
Silvio Diogo passou o
natal com a filha, Joana, em Belo Horizonte e a passagem de ano em São Paulo,
com amigos.
Falava sempre com
ele, e o visitara muitas vezes em Diamantina.
Era final de março,
certa tarde, ele me ligou sentindo muita dor. Combinamos de nos encontrar na manhã seguinte em Belo Horizonte. Diogo estava no Rio de Janeiro celebrando o aniversário de seis anos da filha Joana, naquele 28 de março.
Nos encontramos, em Belo Horizonte, na manhã seguinte e nos hospedamos no Hostel em Santa Teresa. A consulta foi marcada para o dia 30 de março.
Dra. Ana Alice solicitou novos
exames e foi então diagnosticado Mieloma Múltiplo, um câncer agressivo na medula.
Dia 03 de abril eu o levei ao hospital com dores horríveis nas pernas e ali antes de internar, ele perdeu os movimentos da cintura para baixo.
Dia 03 de abril eu o levei ao hospital com dores horríveis nas pernas e ali antes de internar, ele perdeu os movimentos da cintura para baixo.
Ele foi operado, dia
05/04, para fazer uma descompressão medular. A cirurgia devolveu-lhe parte dos
movimentos, mas as pernas continuavam inertes e sem sensibilidade. Nessa mesma
cirurgia deveria ter sido feita a artrodese, colocação de pinos de titânio para firmar os ossos da coluna, contudo, houve início
de hemorragia e o procedimento foi adiado.
Na semana seguinte,
12/04, foi realizada a segunda cirurgia. Foram 47 dias de internação. Meses de
fisioterapia. Oito meses de cadeira de rodas. Depois o andador, a bengala e,
finalmente, caminhando com desenvoltura.
A cirurgia abriu uma
ferida profunda na cicatriz. Ferida que não chegou a fechar totalmente, o que
restringia a vida social de Diogo.
Durante o tratamento
Silvio Diogo fez a tradução do livro de Maria Zambrano, Clareiras Del Bosque,
que foi encaminhado às editoras para publicação, mas ainda não foi publicado.
Concluiu o terceiro
livro de poemas intitulado “Cambalhota” que foi publicado pela Arte Desemboque
Casa Editorial. Foram feitos lançamentos em Diamantina e em Belo Horizonte.
Semanalmente, fazia a
leitura de poemas de autores consagrados ou amigos e publicava no seu Blog
Desenhares, sempre aos domingos.
Silvio Diogo tem uma
coleção de vinis que sempre foi o xodó e que ele ouvia diariamente e se
deleitava com as letras e as melodias. A arte primorosa das capas era
encantamento à parte.
Somente os amigos que
se comunicavam com Diogo assiduamente sabiam da doença, do tratamento e da
energia sublime que fluía em seus olhos e em suas palavras, dando a cada um de
nós a certeza de que a morte não o alcançaria. Afinal um ser humano como ele é
eterno.
A partir de fevereiro
de 2018, Diogo iniciou preparação para prestar exame de seleção para o mestrado
da UFMG. Adquiriu toda a bibliografia, estudou, fez a inscrição.
No dia 22 de outubro
sentiu um mal estar e o levei ao hospital, estava com anemia. Foi internado. Pediu-me
que não comunicasse o fato com ninguém.
-” Daqui a dois dias
estarei em casa, não vamos alarmar as pessoas.”
Um exame de
ultrassonografia acusou dois enormes tumores no fígado e orientado pela médica,
estava à espera de uma biópsia.
Diogo hospitalizado levantava
cedo, tomava o banho, se arrumava, sentava-se na poltrona e lia em voz alta
(seu jeito de estudar) os livros que o preparavam para a prova de mestrado que
seria realizada no dia 30 de outubro.
Dormia bem, se alimentava
bem, sorria, brincava.
Embora soubesse da gravidade
de seu quadro clínico, solicitou à médica que o liberasse para fazer os exames
para o mestrado. Ficou extremamente abatido com a recusa dela.
Diogo pensava somente na vida, e queria seguir seus projetos.
Diogo pensava somente na vida, e queria seguir seus projetos.
Às vésperas do dia 02 de novembro, iniciou com todos os funcionários do hospital, um mirabolante plano de fuga para não passar no hospital, o feriado. Eram
risos e brincadeiras que anunciavam vida, amor e brilho do além tempo.
Naquela
segunda-feira, 04/11, Diogo acordou abatido e com a saturação muito baixa. Sílvio, o pai, chegou por volta de 11 horas trazendo o notebook para que ele pudesse
pagar as contas e transferir a pensão de Joana. Ele fez essas tarefas e fez
algumas postagens no facebook e dialogou
com amigos no whatsap.
Naquele noite não
dormimos. Ele sentava-se na cama conversava comigo. Por volta de três horas, daquele dia 05/11, a
enfermeira colocou o oxigênio. O médico veio e depois de examiná-lo chamou-me e
perguntou se eu sabia da gravidade do quadro de saúde de Diogo. Respondi
afirmativamente, em lágrimas e ele disse que estava levando-o para o CTI para
entubá-lo e amenizar o sofrimento dele e que ele não regressaria.
Liguei para Alcione e
Ronaldo, meus amigos espíritas que iam semanalmente em nossa casa para o evangelho no lar, para que viessem fazer uma prece pelo meu
filho antes que o levassem.
O enfermeiro chegou
uns 30 minutos depois e pedi que ele esperasse a chegada de meus amigos que
estavam a caminho.
Diogo olhou-me e
disse:
“–Deixa eu ir, mãe! Eu preciso ir”. Olhei-o com
um sorriso e disse: vai meu filho. Deus o abençoe.
Acompanhei-o
sorridente até o elevador. Assim que as portas do elevador se fecharam desabei num choro silencioso e compulsivo. Meus
amigos me encontraram assim, me abraçaram e choraram comigo.
Comuniquei com os
amigos e familiares que se assustaram pois a maioria dos amigos sequer sabiam
que Diogo lutava contra o câncer.
A recepção do
Hospital Belo Horizonte se tornou uma sala de visitas que estava sempre lotada
de amigos que vieram de todos os cantos do país. Minha filha Silvia chegou com
a minha sobrinha Paula Maria, viajaram de carro de Rondonópolis a BH. Minhas
irmãs Lenice e Maria do Pilar chegaram de Uberaba, a filha do Diogo, Joana, de
7 anos, a mãe dela Themis, se juntaram a
nós. A visita ao CTI foi liberada e de
terça a sábado foi feita uma vigília com orações, leitura de poemas pelos amigos
e familiares. Sem contar os desenhos e as emocionantes cartinhas de Joana para
o pai.
A 1 hora e 40 minutos
do domingo dia 11 de novembro de 2018, Diogo faleceu.
Às três horas o amigo
médium Ivani, enviou-me a seguinte mensagem pelo celular:
“-
Estamos em atendimento ao Sílvio neste momento. Oração e fé. Ele está na
espiritualidade”.
Ivani não havia sido
informado do falecimento de Silvio Diogo. Para mim, que sou espírita, foi um
alento, uma certeza de a vida não acaba com a morte. Ele não está morto. Mudou
de casa.
Assim que amanheceu o
dia ligamos para os amigos e familiares e comunicamos o falecimento de meu
filho e anunciamos o velório de 10 minutos na Funerária de Belo Horizonte. O
evento acabou durando mais de uma hora.
Amigos cantaram, declamaram poemas e fizeram orações para Diogo numa cerimônia
linda e cheia de poesia, de dor e de amor.
Trouxemos o corpo
para ser velado em Uberaba, Funerária LIV, centenas de amigos e parentes muito
emocionados foram nos abraçar e falar sobre o amor pelo meu filho. Diogo era um
ser humano doce e forte que tinha tempo marcado para viver entre nós.
Trouxe com ele sua
doçura, sua bondade, sua sabedoria, sua beleza e sua luz esplêndida.
Diogo marcou com suas
palavras, seu olhar, seus gestos cada pessoa que cruzou o seu caminho.
Diogo levou com ele o
amor que semeou por aqui entre risos e lágrimas, poemas e canções, ternura e
mansidão.
Diogo,
meu filho, levo comigo a doce certeza de que há entre nós apenas um fino véu que
cobre a nossa visão, você vive em minha mente e em meu coração.
