Memorial de Leitura: Um chão cor-de-rosa.
“Entre o sono e o
sonho/entre mim e o que em mim é o que eu me suponho/
corre um rio sem fim.” (Fernando Pessoa)
As leituras que tenho feito ao longo do caminho é que me possibilitam a
escritura desse texto. Quantas vezes temos que nos reportar aos livros para
sustentar nosso dizer e nosso fazer como educadores?
Falar de minhas experiências com a leitura é falar de amor e de muita
dor. É tocar o dedo nas feridas.
Como começar?
Começo do fim?
Não é melhor começar pelo início. Ao final vejo como amarro esse tecido
textual com o tecido da minha vida. Ambos se confundem, enlaçam fios e cores
numa tessitura única. Porque assim é cada vida. Assim é cada ser.
Eu fui atrás das letras. Segui uma trilha solitária.
E as encontrei. Elas sorriram para mim e jamais me abandonaram.
Foi por volta dos meus 4 ou 5 anos. Minhas irmãs iam para a escola e eu
as acompanhava de longe. Se me vissem não me deixariam ir. A escola era uma
casa. A professora era a dona da casa. Aprendera a ler e ensinava as crianças
dela e as crianças das fazendas vizinhas. Eu ficava do lado de fora. Tudo que a
professora falava lá dentro eu repetia baixinho: ma-ta, ta-tu... O quadro negro
era feito de tábuas. Ela copiava lá e eu escrevia no chão duro, de terra
batida, com um pedaço de pau. Lembro-me do dia que aprendi o R maiúsculo. O R
de Rosa.
Primeira leitura foi em uma lata que minha mãe guardava polvilho. Eu li:
“Óleo de amendoim”.Guardei segredo.
Guardar segredo desse momento mágico! Por quê?
É que certo dia estava no quarto folheando os livros de minhas irmãs, as
cartilhas, e uma delas viu e saiu correndo e gritando meu pai. Levei uma surra.
Estava proibida de mexer nos objetos de escola delas. Objetos de desejo. Como
eu os desejava! Chorei muito e não dormi à noite. Eu só queria ver! Pegava
escondidos pedaços de jornais e de revistas que vinham embrulhando as compras e
levava para o milharal. E lá eu lia. Lia em voz alta, gesticulava. Apontava as
montanhas, o céu.
Nessa época morávamos no alto da serra. Alto-Porã, município de
Pedregulho, no Estado de São Paulo. Lá do alto avistava o Rio Grande e as
montanhas que ficavam do outro lado do rio. Uma paisagem magnífica que jamais
saiu de meus olhos e de minha alma.
Corria o ano de 1963, estava com 7 anos, quando atravessamos a ponte.
Fomos morar em Uberaba, Minas Gerais. Seis meses depois de nossa mudança papai
faleceu.
Fui morar com uma família. Fazia pequenos serviços domésticos em troca
de comida, roupa, calçados. Em 1966, estava eu com 10 anos, quando me
matricularam no Grupo Escolar.
Já no primeiro dia de aula, a professora nos deu uma cartilha. Novinha.
Estava encapada com papel pardo. E eu li. Li em voz alta como se estivesse
lendo para o cafezal em flor, para as montanhas. Ignorei a presença da
professora, dos alunos. Finalmente eu estava na escola e tinha nas mãos uma
cartilha. Foi o dia mais feliz da minha infância.
Quando acabei de ler a professora levou-me para o primeiro ano
“adiantado”.
Ao final de cada ano eu ganhava um presente por ser a primeira aluna da
sala. Lembro-me apenas de um que ganhei na segunda série: Um livro que veio com
dedicatória da professora Áurea Celeste. “A Cabana do Pai Tomaz”. Era a triste
história de um escravo em fuga.
Outra lembrança de leitura que me marcou deu-se no quarto ano. Toda
sexta-feira, depois do recreio, a professora entrava na sala com um enorme
livro vermelho, de capa dura, e lia uma história para nós. Rapunzel, João e o
pé de feijão, A bonequinha preta... A voz suave da professora ecoava pela sala
e ficou guardada para sempre em minha memória.
Concluí o ensino primário no final de 1969 com direito à solenidades de
formatura. Missa, entrega de certificados e discursos políticos.
Fui oradora da turma. No meu texto fiz um breve relato sobre meu
ingresso no mundo dos letrados. Lembro-me de que muito dos presentes choraram.
Eu estava feliz. Só isso.
Neste momento, a lembrança desse dia dói em minha alma. Aos 13 anos, eu
lia as palavras, mas não aprendera ainda a ler a vida. “Na escola primária/Ivo
viu a uva/e aprendeu a ler.”
No início do ano seguinte, fui morar e trabalhar em Brasília. Era babá.
Foram três anos sem ver minha família, três anos sem férias, três anos fora da
escola. Lia muito. Jornais e revistas, e li ainda A moreninha, Meu pé de
laranja lima, e Senhora. Escrevia cartas. Muitas cartas.
Retornei a Uberaba no final de 1973 e não cheguei a ficar um mês com a
minha família.
Estava com 16 anos, e conheci meu primeiro amor Ao ficar rapaz/Ivo viu a
Eva/e aprendeu a amar.
Mudei-me para Presidente Prudente, estado de São Paulo, com outra
família.
Era um casal e 4 filhos. Fiz o exame de admissão. Retornei à escola.
Ficamos em Prudente um ano e nos mudamos para Pariquera-Açu, cidadezinha
litorânea próxima a Iguape. Perdi meu grande amor sem ao menos tê-lo namorado.
Trocamos centenas de cartas. Devia tê-las guardado, porque eram belíssimos
poemas. Eu lia muito. A biblioteca da casa era riquíssima e estava sempre sendo
atualizada.
Em meados de 1976, retornei para Uberaba. Fui morar com uma tradicional
família da cidade.
Era então dama de companhia de uma senhora acamada. Ela perdera a visão
por causa da doença. Das 19 às 23 horas uma funcionária me substituía para eu
ir para o colégio. Fiz o colegial no COC. Numa madrugada, a senhora percebeu
que estava acordada e perguntou-me o que eu estava fazendo. Disse que estava
lendo um livro. Era Grande sertão: Veredas. – Veja que lindo! – eu dissera – e
li um longo trecho para ela. Depois daquele dia, tornou-se rotina eu ler para
ela os romances, os poemas, indicados pelos professores. Numa fria manhã de
abril ela acordou sorrindo e disse que havia sonhado comigo. Perguntei-lhe como
eu era em seu sonho. Ela respondeu: – Como você é. Linda! Chorei muito. Poucas
horas depois ela dormiria para não mais acordar. Nessa época eu já estava na
Universidade. Inúmeros questionamentos foram tornando-se
relevantes fazendo com que eu buscasse melhor fundamentação para reflexões
que, desde o início de minha formação acadêmica, surgiam como fundamentais.Como
diz Foucault, “é preciso compreender um acontecimento como uma relação de
forças que se inverte, um poder confiscado, um vocabulário retomado e voltado contra
seus utilizadores, uma dominação que se enfraquece, se amplia e se envenena e
outra que faz entrada mascarada”. O ano era 1980. Passei a trabalhar dois
períodos no colégio COC.No período matutino dava aulas para uma turma de 5ª
série e no período vespertino, eu era professora “eventual”.
Casei no início de 1981. Nesse mesmo ano nasceu minha filha Sílvia
Beatriz e, em 1982 nasceu meu filho, Sílvio Diogo.
De 1981 a 1984 dividia minha vida entre a universidade e a educação dos
meus filhos. Comprava muitos livros para eles, mas à noite as histórias vinham
de minha memória. E eu as contava dramatizando, cantando...
Meus filhos foram o maior legado que a vida reservou para mim. Com eles
e por eles aprendi a arte de viver. Foram eles que despertaram em mim o olhar
atento para o grande espetáculo da vida. Aprendi a olhar e aprendi a ver além.
Muito além das aparências.
Em 1986 fiz minha primeira Especialização em Língua Portuguesa. Tive a
felicidade de conhecer e de aprender com Eni Orlandi, Eduardo Guimarães, Eugênio
Estevam, Maria Luiza Braga, Kanavillil Rajagopalan, Silvana Mabel Serrani. Eles
vieram da Unicamp para dar as aulas no Curso. Muitas leituras. Aprendizado e
vivência.
Nesse mesmo ano retornei à escola como professora do Ensino Médio.
Acompanharam-me Paulo Freire, Rubem Alves, Edgar Morin, Moacir Gadotti, Pedro
Demo e tantos outros estudiosos, que sustentaram minha prática pedagógica.
Considerando que duas características dos discursos são a dispersão e a
polissemia, concebo que conceitos e teorias são fenômenos culturais,
socialmente construídos e legitimados. Assim, entendo o conhecimento não como
algo a ser possuído, mas algo que se constrói de modo dinâmico e processual.
Minha trajetória profissional tem estado vinculada, durante esses 22
anos, na área de educação, tendo trabalhado em todos os níveis educacionais
(Educação Básica e Ensino Superior – Graduação, Projetos de Pesquisa e de
Extensão). Atuei com coordenadora pedagógica da área de Língua Portuguesa.
Minha experiência de docência é basicamente como professora.
A segunda especialização foi em Lingüística Aplicada ao ensino de Língua
materna. Mais uma caminhada ao lado de grandes mestres: Doutora Ormezinda Maria
Ribeiro, Aya, UnB; Dr. João Bosco e Dr Cleudemar, UFU; Dra Vânia Maria Resende,
USP; Dr. Carlos Brandão e tantos outros mestres. Além desses havia Vigotsky,
Sírio Possenti, Bakhtin, Barthes, Kleiman...
O trabalho de conclusão foi orientado pela professora Aya. “O texto
poético em sala de aula: para além do dizível”. Artigo publicado na Revista
Athos&Ethos.
O caminho profissional foi sempre partilhado com a tarefa prazerosa de
ser mãe.
Em minha trajetória humana fui Gata Borralheira, Cinderela, Macabéa, Ana
Moura, Clarissa, Madalena (Paulo Honório).
Hoje sou mais eu. Eu mesma. A professora Rosa Maria Olimpio. A rosa do
alto da serra.
No ano de 2011 nasceram meus netos. Joana e Heitor. Ambos
estão com 4 anos. Joana, é filha de Silvio Diogo e Thêmis mora no Rio de
Janeiro. Heitor é filho de Silvia Beatriz e Danillo Fernandes e mora em
Rondonópolis- MT. Atualmente trabalho com Assessora Técnica na UnB, Brasília.
Atuo ainda como tutora da UAB/UnB. Viajo pelo Brasil levando aos futuros
professores a certeza de que vale a pena investir na Educação como processo de
renovação e de reconstrução de um mundo mais justo para nossos jovens.Que esses
jovens tenham acesso ao mundo da cidadania assegurada pela aprendizagem da
leitura. Leitura da palavra. Leitura do mundo.
No fino tear do destino, teci um final feliz para a história daquela
menina que de sua mais profunda solidão atravessou o rio, as montanhas e se
lançou por inteira no mundo da arte, cuja matéria prima está sempre à espera de
ser lapidada: a palavra
A poética da palavra como paixão criativa, que gesta discursos
provocadores. Recordo-me de uma declaração de Friedrich Nietzsche, em seu livro
Humano, demasiado humano: “Há tensão e paixão que caracterizam aqueles que
arriscam deslocar-se para lugares desconhecidos, desafiam verdades prontas,
movem-se em busca de conhecimentos novos, viajam pelo conhecimento. Aquele que
pretende apenas em certa medida alcançar a liberdade da razão não tem durante
muito tempo o direito de se sentir sobre a terra, senão como um viajante – e
nem sequer como um viajante que se encaminhe para um ponto de chegada; pois
este não existe. Terá em vista, isso sim, observar bem e manter os olhos
abertos para tudo o que realmente se passa no mundo; [...] é necessário que
nele haja sempre algo de viajante, cujo prazer reside na mudança e na
passagem”.
Acrescento minha experiência pessoal ao comentário de Nietzsche, com a
poesia existencial de Clarice Lispector, e encerro esse memorial.
“Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em
entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”
E creio que, nos caminhos por onde andei, o chão ficou
cor-de-rosa.
Primeira Lição
Na escola primária
Ivo viu a uva
e aprendeu a ler.
Ao ficar rapaz
Ivo viu a Eva
e aprendeu a amar.
E sendo homem feito
Ivo viu o mundo,
seus comes e bebes.
Um dia num muro
Ivo soletrou
a lição da plebe.
E aprendeu a ver.
Ivo viu a ave?
Ivo viu o ovo?
Na nova cartilha
Ivo viu a greve
Ivo viu o povo.
( Lêdo Ivo )