A Universidade de Brasília faz 54 anos em 2016.
Pedem-me um
texto que a homenageie nesta data tão importante para todos aqueles que, como
eu, têm dedicado a vida à educação, à pesquisa e à ação de tornar realidade o
desejo de que o conhecimento se expanda e se aprofunde na sociedade brasileira,
tornando-a mais efetivamente justa. Como as homenagens correm o risco de
diluírem-se no protocolo, dissolvendo-se em oficialismo, gostaria de usar
algumas prerrogativas de minha formação na área dos Estudos Literários e contar
algumas histórias da UnB de um ponto de vista bastante subjetivo, usando minha
memória para reviver momentos e companheiros como Honestino Guimarães e Darcy
Ribeiro.
Passei, até este 2016, 22 anos dentro da UnB, desde
que me matriculei no curso de Letras – Português, no ano de 1994. Entre
os momentos especiais que vivi na UnB está a cerimônia de outorga do título de
Doutor Honoris Causa ao grande pensador brasileiro, e fundador
da UnB, Darcy Ribeiro, ocorrida no teatro de arena lotado. A juventude ouvia
atenta. Os professores emocionados aplaudiam o grande mestre que ensaiava já
suas últimas lições devido à debilitação física evidente. A partir daquela
data, o campus levaria justamente o nome de seu idealizador.
Eu era apenas um estudante de primeiro ano de graduação e sentia que a poesia
política daquele momento inundava por completo as vidas de quem ouvia.
Darcy, naquele dia, fez uma fala emocionada e
aguerrida, que ficou marcada profundamente em mim. Hoje, graças ao registro que
foi feito do ato, posso recompor literalmente algumas de suas palavras que mais
me impressionaram: “Haverá quem pense que a Universidade, como a matriz de
reprodução das classes dirigentes da sociedade dentro de uma civilização, tem
mais a ver com a prosperidade dos ricos que com o destino dos pobres. É até
moda em nossos dias delegar aos automatismos da História as tarefas da redenção
social, cuidando que os ricos mais enriquecidos socorrerão os pobres”.
Era, na verdade, como pude depois entender, uma
lição a respeito da matéria concreta da democracia, que, ou se combina com a
ação de justiça social, ou é apenas um formalismo a serviço dos poucos que
concentram vorazmente a riqueza produzida pelo país. Fiz minha graduação, na
década de 1990, em uma Universidade que ainda representava majoritariamente o
que Darcy, com a razão e o coração, nomeava, em seu discurso, de “matriz de
reprodução das classes dirigentes” brasileiras. Tratava-se de uma Universidade
não apenas menor, mas muito menos matizada social e etnicamente do que aquela
em que hoje continuo aprendendo e ensinando.
Com a lição de Darcy na cabeça, procurei guiar a
minha atuação, primeiramente como estudante e depois como professor da UnB.
Isso implicou sempre manter vigilante a consciência de que é incontornável,
para a sonhada evolução igualitária da sociedade brasileira, a construção de
uma Universidade radicalmente democrática, que produza pensamento crítico capaz
de ir “contra os automatismos da História”. Sob essa perspectiva, uma
Universidade radicalmente democrática é aquela que constrói para (e junto com)
as classes populares as condições concretas necessárias para a sua conversão em
sujeito da transformação histórica. A UnB que vejo hoje quando ando pelos
corredores e entro em sala é um lugar muito mais plural, muito mais vivo, muito
mais politizado, muito mais saudavelmente misturado, muito mais aberto ao
interesse público... Esta UnB com 54 anos é, sem dúvida, mais democrática do
que aquela em que me formei no correr dos anos 1990. Ainda há muito o que
fazer, mas vimos significativos avanços, nos últimos tempos. E, principalmente,
conseguimos garantir nossa prerrogativa essencial, que é a manutenção da UnB (e
de qualquer outra Universidade Federal) como instituição pública, gratuita, de
qualidade e progressivamente mais democrática.
Em tempos difíceis como os que vivemos em 2016, é
fundamental lembrar o legado de Darcy Ribeiro. Naquele discurso emocionado de
1994, revelador por sua intensidade política, ele dizia da necessidade de
criarmos novas classes dirigentes para o Brasil, através (e a partir) da
vivência universitária democrática. Novas “elites”, que, para estarem à altura
da necessária democracia, deveriam laborar socialmente “cheias de indignação
frente à realidade sofrida do Brasil”. Essas “elites” novas precisariam ter a
“cara” do país, pois assim haveria, pensava ele, a possibilidade concreta de
juntos criarmos o que é historicamente novo, fugindo dos automatismos que
interessam ao pensamento conservador. Darcy falava, naquela década de 90, de
uma Universidade que tentava se reerguer após os tempos sombrios de ditadura
militar. Era uma Universidade ainda combalida pelos golpes que sofrera do
regime militar. Via-se, então, que Darcy ainda hesitava em acreditar que seu
desejo de um país mais igualitário construído através da Universidade tinha
forças materiais para se converter em realidade.
Aliás, falando em golpes sofridos pela Universidade
durante o regime de exceção, quero recordar outra história vinculada à
existência da UnB e às lutas que aqui se travaram contra todas as formas de
retrocesso. O aluno da UnB Honestino Guimarães é um símbolo da luta democrática
que sempre caracterizou a Universidade. Infelizmente, a utopia e a energia de
nosso colega eternamente presente foram moídos nos porões sujos de sangue de
uma ditadura das mais perversas e criminosas já vistas. Honestino foi morto,
como foram mortos tantos homens e mulheres, como foram mortos tantos desejos e
sonhos de liberdade e de democracia, naquela longa noite brasileira que durou
vinte anos. Aquele foi um regime espúrio, que quis silenciar a Universidade
brasileira e que sequer deu à família deste estudante de geologia da UnB a
possibilidade de enterrar o seu corpo humanamente. Se não lhe foi possível um
túmulo digno, a Universidade inteira, com sua história de resistência à
opressão, a sua vida hoje renovada, seu burburinho de liberdade, seu avanço
social visível, converte-se cabalmente, e cada vez mais, em um imenso monumento
a Honestino e a todos aqueles que sucumbiram clamando por um país mais livre e
mais democrático.
Nesses anos que vivi na UnB, aprendi que a
Universidade é um lugar de encontros, de diálogo, de debate, de estudos e de
luta política. Aprendi que ela é um lugar de radicalização da democracia,
porque nos seus corredores e salas de aula fazemos paulatinamente se tornarem
realidade, para além do campus, os sonhos coletivos de um país
melhor e mais justo. Eu tive a sorte de ver e viver, nesses mais de vinte anos
dentro da UnB, um ciclo desse processo que esperamos contínuo. É uma
instituição renovada a que completa 54 anos em 2016. É também uma UnB à qual o
presente, pelas voltas que o mundo dá, interpela, exigindo-lhe compromisso com
os ideais de um reitor e um líder estudantil, Darcy e Honestino, que tanto influenciam
os ideais dos que por aqui passam e dos que por aqui ficam.
Que nós, professores, alunos, funcionários e
dirigentes, saibamos lidar com esse legado, atualizando-o e aprofundando-o para
manter vivo o âmago político da Universidade: produzir, através do
conhecimento, uma realidade nacional socialmente mais justa. Por tudo isso que
vivi e que aprendi, sei que a nossa melhor homenagem neste ano à Universidade é
nosso trabalho honesto, é nosso companheirismo humano, é nossa vigília atenta
e, é claro, a nossa luta incansável pela democracia como contribuição vital da
UnB à sociedade brasileira.
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19/04/2016
Alexandre Pilati
Professor do Departamento de Teoria Literária e
Literaturas do Instituto de Letras / UnB, poeta e crítico literário