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quinta-feira, 13 de novembro de 2014
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
Memorial de Leitura: Um chão cor-de-rosa.
“Entre o sono e o
sonho/entre mim e o que em mim é o que eu me suponho/
corre um rio sem fim.” (Fernando Pessoa)
corre um rio sem fim.” (Fernando Pessoa)
As leituras que tenho feito ao longo do caminho é que me
possibilitam a escritura desse texto. Quantas vezes temos que nos reportar aos
livros para sustentar nosso dizer e nosso fazer como educadores?
Falar de minhas experiências com a leitura é falar de amor e
de muita dor. É tocar o dedo nas feridas.
Como começar?
Começo do fim?
Não é melhor começar pelo início. Ao final vejo como amarro
esse tecido textual com o tecido da minha vida. Ambos se confundem, enlaçam
fios e cores numa tessitura única. Porque assim é cada vida. Assim é cada ser.
Eu fui atrás das letras. Segui uma trilha solitária.
E as encontrei. Elas sorriram para mim e jamais me
abandonaram.
Foi por volta dos meus 4 ou 5 anos. Minhas irmãs iam para a
escola e eu as acompanhava de longe. Se me vissem não me deixariam ir. A escola
era uma casa. A professora era a dona da casa. Aprendera a ler e ensinava as
crianças dela e as crianças das fazendas vizinhas. Eu ficava do lado de fora.
Tudo que a professora falava lá dentro eu repetia baixinho: ma-ta, ta-tu... O
quadro negro era feito de tábuas. Ela copiava lá e eu escrevia no chão duro, de
terra batida, com um pedaço de pau. Lembro-me do dia que aprendi o R maiúsculo.
O R de Rosa.
Primeira leitura foi em uma lata que minha mãe guardava
polvilho. Eu li: “Óleo de amendoim”.Guardei segredo.
Guardar segredo desse momento mágico! Por quê?
É que certo dia estava no quarto folheando os livros de
minhas irmãs, as cartilhas, e uma delas viu e saiu correndo e gritando meu pai.
Levei uma surra. Estava proibida de mexer nos objetos de escola delas. Objetos
de desejo. Como eu os desejava! Chorei muito e não dormi à noite. Eu só queria
ver! Pegava escondidos pedaços de jornais e de revistas que vinham embrulhando
as compras e levava para o milharal. E lá eu lia. Lia em voz alta, gesticulava.
Apontava as montanhas, o céu.
Nessa época morávamos no alto da serra. Alto-Porã, município
de Pedregulho, no Estado de São Paulo. Lá do alto avistava o Rio Grande e as
montanhas que ficavam do outro lado do rio. Uma paisagem magnífica que jamais
saiu de meus olhos e de minha alma.
Corria o ano de 1963, estava com 7 anos, quando atravessamos
a ponte. Fomos morar em Uberaba, Minas Gerais. Seis meses depois de nossa
mudança papai faleceu.
Fui morar com uma família. Fazia pequenos serviços domésticos
em troca de comida, roupa, calçados. Em 1966, estava eu com 10 anos, quando me
matricularam no Grupo Escolar.
Já no primeiro dia de aula, a professora nos deu uma
cartilha. Novinha. Estava encapada com papel pardo. E eu li. Li em voz alta
como se estivesse lendo para o cafezal em flor, para as montanhas. Ignorei a
presença da professora, dos alunos. Finalmente eu estava na escola e tinha nas
mãos uma cartilha. Foi o dia mais feliz da minha infância.
Quando acabei de ler a professora levou-me para o primeiro
ano “adiantado”.
Ao final de cada ano eu ganhava um presente por ser a
primeira aluna da sala. Lembro-me apenas de um que ganhei na segunda série: Um
livro que veio com dedicatória da professora Áurea Celeste. “A Cabana do Pai
Tomaz”. Era a triste história de um escravo em fuga.
Outra lembrança de leitura que me marcou deu-se no quarto
ano. Toda sexta-feira, depois do recreio, a professora entrava na sala com um
enorme livro vermelho, de capa dura, e lia uma história para nós. Rapunzel,
João e o pé de feijão, A bonequinha preta... A voz suave da professora ecoava
pela sala e ficou guardada para sempre em minha memória.
Concluí o ensino primário no final de 1969 com direito à
solenidades de formatura. Missa, entrega de certificados
e discursos políticos.
Fui oradora da turma. No meu texto fiz um breve relato sobre
meu ingresso no mundo dos letrados. Lembro-me de que muito dos presentes
choraram. Eu estava feliz. Só isso.
Neste momento, a lembrança desse dia dói em minha alma. Aos
13 anos, eu lia as palavras, mas não aprendera ainda a ler a vida. “Na escola
primária/Ivo viu a uva/e aprendeu a ler.”
No início do ano seguinte, fui morar e trabalhar em Brasília.
Era babá. Foram três anos sem ver minha família, três anos sem férias, três
anos fora da escola. Lia muito. Jornais e revistas, e li ainda A moreninha, Meu
pé de laranja lima, e Senhora. Escrevia cartas. Muitas cartas.
Retornei a Uberaba no final de 1973 e não cheguei a ficar um
mês com a minha família.
Estava com 16 anos, e conheci meu primeiro amor Ao ficar
rapaz/Ivo viu a Eva/e aprendeu a amar.
Mudei-me para Presidente Prudente, estado de São Paulo, com
outra família.
Era um casal e 4 filhos. Fiz o exame de admissão. Retornei à
escola. Ficamos em Prudente um ano e nos mudamos para Pariquera-Açu,
cidadezinha litorânea próxima a Iguape. Perdi meu grande amor sem ao menos
tê-lo namorado. Trocamos centenas de cartas. Devia tê-las guardado, porque eram
belíssimos poemas. Eu lia muito. A biblioteca da casa era riquíssima e estava
sempre sendo atualizada.
Em meados de 1976, retornei para Uberaba. Fui morar com uma
tradicional família da cidade.
Era então dama de companhia de uma senhora acamada. Ela
perdera a visão por causa da doença. Das 19 às 23 horas uma funcionária me
substituía para eu ir para o colégio. Fiz o colegial no COC. Numa madrugada, a
senhora percebeu que estava acordada e perguntou-me o que eu estava fazendo.
Disse que estava lendo um livro. Era Grande sertão: Veredas. – Veja que lindo!
– eu dissera – e li um longo trecho para ela. Depois daquele dia, tornou-se
rotina eu ler para ela os romances, os poemas, indicados pelos professores.
Numa fria manhã de abril ela acordou sorrindo e disse que havia sonhado comigo.
Perguntei-lhe como eu era em seu sonho. Ela respondeu: – Como você é. Linda!
Chorei muito. Poucas horas depois ela dormiria para não mais acordar. Nessa
época eu já estava na Universidade. Inúmeros questionamentos foram tornando-se
relevantes fazendo com que eu buscasse melhor fundamentação para reflexões
que, desde o início de minha formação acadêmica, surgiam como fundamentais.Como
diz Foucault, “é preciso compreender um acontecimento como uma relação de
forças que se inverte, um poder confiscado, um vocabulário retomado e voltado
contra seus utilizadores, uma dominação que se enfraquece, se amplia e se
envenena e outra que faz entrada mascarada”. O ano era 1980. Passei a trabalhar
dois períodos no colégio COC.No período matutino dava aulas para uma turma de
5ª série e no período vespertino, eu era professora “eventual”.
Casei-me no início de 1981. Nesse mesmo ano nascera minha
filha Sílvia Beatriz e em 1982 nasceu meu filho, Sílvio Diogo.
De 81 a 83 dividia minha vida entre a universidade e a
educação dos meus filhos. Comprava muitos livros para eles, mas à noite as
histórias vinham de minha memória. E eu as contava dramatizando, cantando...
Meus filhos foram o maior legado que a vida reservou para
mim. Com eles e por eles aprendi a arte de viver. Foram eles que despertaram em
mim o olhar atento para o grande espetáculo da vida. Aprendi a olhar e aprendi
a ver além. Muito além das aparências.
Em 1986 fiz minha primeira Especialização em Língua
Portuguesa. Tive a felicidade de conhecer e de aprender com Eni Orlandi,
Eduardo Guimarães,
Eugênio Estevam, Maria Luiza Braga, Kanavillil Rajagopalan,
Silvana Mabel Serrani. Eles vieram da Unicamp para dar as aulas no Curso.
Muitas leituras. Aprendizado e vivência.
Nesse mesmo ano retornei à escola como professora do Ensino
Médio. Acompanharam-me Paulo Freire, Rubem Alves, Edgar Morin, Moacir Gadotti,
Pedro Demo e tantos outros estudiosos, que sustentaram minha prática
pedagógica. Considerando que duas características dos discursos são a dispersão
e a polissemia, concebo que conceitos e teorias são fenômenos culturais,
socialmente construídos e legitimados. Assim, entendo o conhecimento não como
algo a ser possuído, mas algo que se constrói de modo dinâmico e processual.
Sendo assim, o rigor e a avaliação na aplicação do procedimento metodológico
são fenômenos da ordem da intersubjetividade e estão vinculados à possibilidade
de socializar o processo interpretativo.
Minha trajetória profissional tem estado vinculada, durante
esses 22 anos, na área de educação, tendo trabalhado em todos os níveis
educacionais (Educação Básica e Ensino Superior – Graduação, Projetos de
Pesquisa e de Extensão). Atuei com coordenadora pedagógica da área de Língua Portuguesa.
Minha experiência de docência é basicamente como professora.
A segunda especialização foi em Lingüística Aplicada ao
ensino de Língua materna. Mais uma caminhada ao lado de grandes mestres:
Doutora Ormezinda Maria Ribeiro, Aya, UnB; Dr. João Bosco e Dr Cleudemar, UFU;
Dra Vânia Maria Resende, USP; Dr. Carlos Brandão e tantos outros mestres. Além
desses havia Vigotsky, Sírio Possenti, Bakhtin, Barthes, Kleiman...
O trabalho de conclusão foi orientado pela professora Aya. “O
texto poético em sala de aula: para além do dizível”. Artigo publicado na
Revista Athos&Ethos.
O caminho profissional foi sempre partilhado com a tarefa
prazerosa de ser mãe.
Em minha trajetória humana fui Gata Borralheira, Cinderela,
Macabéa, Ana Moura, Clarissa, Madalena (Paulo Honório).
Hoje sou mais eu. Eu mesma. A professora Rosa Maria Olimpio.
A rosa do alto da serra.
No ano de 2011 nasceram meus netos. Joana e
Heitor. Ambos estão com 3 anos. Joana, é filha de Silvio Diogo e Thêmis mora no
Rio de Janeiro. Heitor é filho de Silvia Beatriz e Danillo Fernandes e mora em
Rondonópolis- MT. Atualmente trabalho com Assessora Técnica na UnB, Brasília.
Atuo ainda como tutora da UAB/UnB. Viajo pelo Brasil levando aos futuros
professores a certeza de que vale a pena investir na Educação como processo de
renovação e de reconstrução de um mundo mais justo para nossos jovens.Que esses
jovens tenham acesso ao mundo da cidadania assegurada pela aprendizagem da
leitura. Leitura da palavra. Leitura do mundo.
No fino tear do destino, teci um final feliz para a história
daquela menina que de sua mais profunda solidão atravessou o rio, as montanhas
e se lançou por inteira no mundo da arte, cuja matéria prima está sempre à
espera de ser lapidada: a palavra
A poética da palavra como paixão criativa, que gesta
discursos provocadores. Recordo-me de uma declaração de Friedrich Nietzsche, em
seu livro Humano, demasiado humano: “Há tensão e paixão que caracterizam
aqueles que arriscam deslocar-se para lugares desconhecidos, desafiam verdades
prontas, movem-se em busca de conhecimentos novos, viajam pelo conhecimento.
Aquele que pretende apenas em certa medida alcançar a liberdade da razão não
tem durante muito tempo o direito de se sentir sobre a terra, senão como um viajante
– e nem sequer como um viajante que se encaminhe para um ponto de chegada; pois
este não existe. Terá em vista, isso sim, observar bem e manter os olhos
abertos para tudo o que realmente se passa no mundo; [...] é necessário que
nele haja sempre algo de viajante, cujo prazer reside na mudança e na
passagem”.
Acrescento minha experiência pessoal ao comentário de
Nietzsche, com a poesia existencial de Clarice Lispector, e encerro esse
memorial.
“Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe
em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”
E creio que, nos caminhos por onde andei, o chão ficou
cor-de-rosa.
Comentário da professora Inalda Henrique Pereira-aluna do Curso de Especialização MEC/UnB/GDF
Você nasceu Rosa e com essa rosa, enroseirou todos os caminhos por onde passou. Aprendeu a ser pedra, dura, resistente. Foi acolhida, acolheu. Foi menina, babá, aluna, professora, mulher e mãe. E de tão prestimosa,acalentou a todos que encontrou. Quantos não queriam ter tido o privilégio de ser Rosa e Maria. As duas juntas formaram uma heroína das histórias do cangaço que minha mãe contava ou uma fada das aventuras de Clara Luz, ou então, uma linda princesa dos contos de Simbad, o marujo. Com toda a maestria executou a sua vida e com toda a sua força retirou todas as pedras que estavam no meio do seu caminho.
A leitura foi sua companheira leal, fisgou-te, buscou tua alma. Foste alimentada por ela todos os dias. Teu lazer eram os belos salões das bibliotecas. Agora sei o porquê de tanto amor. Recebeste muito, mas não te tornaste fútil, a magia transformou-te em fada, a dama de companhia mais linda que alguém pode ter. E não estou falando apenas da beleza que os olhos podem alcançar. Estou falando da beleza que o tempo não consome: generosidade. Já li tanto de ti e com isso, deixaste escapar pedacinhos do teu eu. Mestra amorosa, gentil, sorriso fácil. Vai em frente Rosa, vai preenchendo as lacunas do mundo. E com o teu exemplo, ensina-nos a partilhar o conhecimento.
"Porque sonho que se sonha só é apenas um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto, vira realidade"
Não há nem pau, nem pedra e nem fim do caminho. O trabalho do professor é infinito, sempre deixará marcas indeléveis, mas profundas nos corações de quem os conhece.
Parabéns, seu memorial é um deleite.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
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