“Entre o sono e o sonho/entre mim e o que em mim é o
que eu me suponho/
corre um rio sem fim.”
(Fernando Pessoa)
Nasci em Alto-Porã, município de Pedregulho, no
Estado de São Paulo. Lá do alto avistava o Rio Grande e as montanhas que
ficavam do outro lado do rio. Uma paisagem magnífica que jamais saiu de meus
olhos e de minha alma.
Corria o ano de 1963, estava com sete anos, quando
atravessamos a ponte. Viemos para Uberaba, Minas Gerais. Seis meses depois de
nossa mudança papai faleceu.
Fui morar com uma família. Fazia pequenos serviços
domésticos em troca de comida, roupa, calçados. Em 1966, estava eu com 10 anos,
quando me matricularam no Grupo Escolar.
Já no primeiro dia de aula, a professora nos deu uma
cartilha. Novinha. Estava encapada com papel pardo. E eu li. Li em voz alta
como se estivesse lendo para o cafezal em flor, para as montanhas. Ignorei a
presença da professora, dos alunos. Finalmente eu estava na escola e tinha nas
mãos uma cartilha. Foi o dia mais feliz da minha infância.
Quando acabei de ler a
professora levou-me para o primeiro ano “adiantado”.
Ao final de cada ano eu ganhava um presente por ser
a primeira aluna da sala. Lembro-me apenas de um que ganhei na segunda série:
Um livro que veio com dedicatória da professora Áurea Celeste. “A Cabana do Pai
Tomaz”. Era a triste história de um escravo em fuga.
Concluí o ensino primário no final de 1969 com
direito à solenidades de formatura. Missa, entrega de certificados e discursos
políticos.
Fui oradora da turma. No meu texto fiz um breve
relato sobre meu ingresso no mundo dos letrados. Lembro-me de que muito dos
presentes choraram. Eu estava feliz. Só isso.
Neste momento, a lembrança desse dia dói em minha
alma. Aos 13 anos, eu lia as palavras, mas não aprendera ainda a ler a vida. “Na
escola primária/Ivo viu a uva/e aprendeu a ler.”
No início do ano seguinte, fui morar e trabalhar em
Brasília. Era babá. Foram três anos sem ver minha família, três anos sem
férias, três anos fora da escola. Lia muito. Jornais e revistas, e li ainda A
moreninha, Meu pé de laranja lima, e Senhora. Escrevia cartas. Muitas cartas.
Retornei a Uberaba no final de 1973 e não cheguei a
ficar um mês com a minha família.
Mudei-me para Presidente Prudente, estado de São
Paulo, com outra família. Era um casal e quatro filhos. Fiz o exame de
admissão. Retornei à escola. Ficamos em Prudente um ano e nos mudamos para
Pariquera-Açu, cidadezinha litorânea próxima a Iguape. Perdi meu grande amor
sem ao menos tê-lo namorado. Trocamos centenas de cartas. Devia tê-las guardado,
porque eram belíssimos poemas. Eu lia muito.A biblioteca da casa era riquíssima
e estava sempre sendo atualizada.
Em meados de 1976, retornei para Uberaba. Fui morar
com uma tradicional família da cidade.
Era então dama de companhia de uma senhora acamada.
Ela perdera a visão por causa da doença. Das 19 às 23 horas uma funcionária me
substituía para eu ir para o colégio. Fiz o colegial no COC. Numa madrugada, a
senhora percebeu que estava acordada e perguntou-me o que eu estava fazendo.
Disse que estava lendo um livro. Era Grande sertão: Veredas. – Veja que lindo!
– eu dissera – e li um longo trecho para ela. Depois daquele dia, tornou-se
rotina eu ler para ela os romances, os poemas, indicados pelos professores.
Numa fria manhã de abril ela acordou sorrindo e disse que havia sonhado comigo.
Perguntei-lhe como eu era em seu sonho. Ela respondeu: – Como você é. Linda!
Chorei muito. Poucas horas depois ela dormiria para não mais acordar. Nessa
época eu já estava na Universidade e dava aulas no COC no turno matutino.
Inúmeros questionamentos foram tornando-se relevantes, fazendo com que buscasse
melhor fundamentação para reflexões que, desde o início de minha formação
acadêmica, surgiam como fundamentais. Tematizava a importância da linguagem na
constituição de formas de significação da existência. Como diz Foucault, “é
preciso compreender um acontecimento como uma relação de forças que se inverte,
um poder confiscado, um vocabulário retomado e voltado contra seus
utilizadores, uma dominação que se enfraquece, se amplia e se envenena e outra
que faz entrada mascarada”. O ano era 1980. Passei a trabalhar dois períodos no
colégio, no período vespertino, eu era professora “eventual”.
Casei-me no início de 1981. Nesse mesmo ano nascera
minha filha Sílvia Beatriz e em 1982 nasceu meu filho, Sílvio Diogo.
De 81 a 83 dividia minha vida entre a universidade e
a educação dos meus filhos. Comprava muitos livros para eles, mas à noite as
histórias vinham de minha memória. E eu as contava dramatizando, cantando...
Meus filhos foram o maior legado que a vida reservou
para mim. Com eles e por eles aprendi a arte de viver. Foram eles que despertaram
em mim o olhar atento para o grande espetáculo da vida. Aprendi a olhar e
aprendi a ver além. Muito além das aparências.
Em 1986 fiz minha primeira Especialização em Língua
Portuguesa. Tive a felicidade de conhecer e de aprender com Eni Orlandi,
Eduardo Guimarães, Eugênio Estevam, Maria Luiza Braga, Kanavillil Rajagopalan,
Silvana Mabel Serrani. Eles vieram da Unicamp para dar as aulas no Curso.
Muitas leituras. Aprendizado e vivência.
Nesse mesmo ano retornei à escola como professora do
Ensino Médio. Acompanharam-me Paulo Freire, Rubem Alves, Edgar Morin, Moacir
Gadotti, Pedro Demo e tantos outros estudiosos, que sustentaram minha prática
pedagógica. Considerando que duas características dos discursos são a dispersão
e a polissemia, concebo que conceitos e teorias são fenômenos culturais,
socialmente construídos e legitimados. Assim, entendo o conhecimento não como
algo a ser possuído, mas algo que se constrói de modo dinâmico e processual.
Sendo assim, o rigor e a avaliação na aplicação do procedimento metodológico
são fenômenos da ordem da intersubjetividade e estão vinculados à possibilidade
de socializar o processo interpretativo.
Minha trajetória profissional tem estado vinculada,
durante esses 22 anos, na área de educação, tendo trabalhado em todos os níveis
educacionais (Educação Básica e Ensino Superior – Graduação, Projetos de
Pesquisa e de Extensão). Atuei com coordenadora pedagógica da área de Língua
Portuguesa. Minha experiência de docência é basicamente como professora.
A segunda especialização foi em Linguística Aplicada
ao ensino de Língua materna. Mais uma caminhada ao lado de grandes mestres:
Doutora Ormezinda Maria Ribeiro, Aya, UnB; Dr. João Bosco e Dr Cleudemar, UFU;
Dra Vânia Maria Resende, USP; Dr. Carlos Brandão e tantos outros mestres. Além
desses havia Vigotsky, Sírio Possenti, Bakhtin, Barthes, Kleiman...
O trabalho de conclusão foi orientado pela
professora Aya. “O texto poético em sala de aula: para além do dizível”. Artigo
publicado na Revista Athos&Ethos.
O caminho profissional foi sempre partilhado com a
tarefa prazerosa de ser mãe.
Em minha trajetória humana fui Gata Borralheira,
Cinderela, Macabéa, Ana Moura, Clarissa, Madalena (Paulo Honório).
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Morei e trabalhei em Brasília de 2009 a 2016 atuando
como Tutora da EAD e como avaliadora de redações pelo CESPE.
Atuei como formadora do GESTAR pela UnB, Brasília.
Viajava pelo Brasil levando aos educadores a crença do programa GESTAR, que é
chegar aos alunos – crianças como eu fui em minha infância – o acesso ao mundo
da cidadania assegurada pela aprendizagem da leitura. Leitura da palavra.
Leitura do mundo
Aposentei no final de 2016, ano em que meu filho
Silvio Diogo foi diagnosticado com câncer na medula. Mudei-me para Belo
Horizonte para acompanhá-lo em seu tratamento.
No dia 11 de novembro de 2018 meu filho faleceu. Retornei a Brasília e estou me reinventando
na difícil arte de viver.
No fino tear do destino, estou tecendo um final feliz para a história daquela menina
que de sua mais profunda solidão atravessou o rio, as montanhas e se lançou por
inteira no mundo da arte, cuja matéria prima está sempre à espera de ser
lapidada: a palavra.
A poética da palavra como paixão criativa, que gesta
discursos provocadores. Recordo-me de uma declaração de Friedrich Nietzsche, em
seu livro Humano, demasiado humano: “Há tensão e paixão que caracterizam
aqueles que arriscam deslocar-se para lugares desconhecidos, desafiam verdades
prontas, movem-se em busca de conhecimentos novos, viajam pelo conhecimento.
Aquele que pretende apenas em certa medida alcançar a liberdade da razão não
tem durante muito tempo o direito de se sentir sobre a terra, senão como um
viajante – e nem sequer como um viajante que se encaminhe para um ponto de
chegada; pois este não existe. Terá em vista, isso sim, observar bem e manter
os olhos abertos para tudo o que realmente se passa no mundo; [...] é
necessário que nele haja sempre algo de viajante, cujo prazer reside na mudança
e na passagem”.
Acrescento minha experiência pessoal ao comentário
de Nietzsche, com a poesia existencial de Clarice Lispector, e encerro o meu
relato.
“Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”