A repercussão do crime que tirou a vida do médico na Lagoa Rodrigues de Freitas, no Rio de Janeiro, tem sido expressada
pela indignação diante da brutalidade do ato que banaliza a existência. Contudo, tenho sido tocada pelo subtexto que norteia a
informação dos jornalistas e o clamor da população em geral. Vejo ecoar um grito que ressalta, principalmente, o projeto
fracassado de se ter uma vida tranquila nas grandes cidades.
A urgência em
encontrar o culpado que ceifou a vida do nobre cidadão, (nobre por ser
um ser humano, e não somente por ser doutor, ou por morar em um bairro requintado)levou os investigadores a uma favela e à prisão de um jovem. A população
clama por mais segurança pública, e bandeiras são erguidas a favor da redução da
maioridade penal.Fosse a vítima, o João jardineiro, a população não
teria engendrado tamanho alarde em relação a sua morte. Penso ainda que os investigadores não lograriam o mesmo êxito na localização e
prisão do deliquente. As atitudes e as
falas em torno do fato, suscitam em mim a quase certeza de que a desigualdade social
seja de fato, a marca da violência em cada canto do nosso país. Desigualdade e
violência andam de mãos dadas e, infelizmente, não é problema somente das metrópoles.Estamos
diante de um estado, que apesar dos esforços, não tem conseguido diminuir a
distância entre os príncipes e os plebeus da sociedade brasileira.
O discurso da população e da mídia
impressa e falada é legítimo, uma vez
que é a expressão da dor, e representa
reações humanas diante de vidas ceifadas. Discurso que acaba
funcionando como catarse e que em nada ajuda em relação ao fato
ocorrido, e em nada coopera para a diminuição desses acontecimentos , e faz com
que os rancores sociais sejam cada vez mais acirrados.Um perigoso caminho vai sendo tecido
junto a essas falas opostas. O que se vê é, de um lado setores mais radicais afirmando que o
social é mero engodo para manter os pobres no seu lugar, porque o projeto
global, na realidade é a exploração dos pobres nas campanhas eleitorais. E, de outro lado,
há os que afirmam ser perda de tempo e de recursos financeiros investir nesses pobres irrecuperáveis, cujo
destino há de ser a morte ou a prisão.
A discussão do tema,aparentemente, politiza e fomenta o diálogo consciente entre as partes. E talvez por receio de meter o dedo na ferida, de se ater às especificidades e pontos sutis que se juntam para tecer uma realidade feia e triste, ou pelo receio de se ater à complexidade da questão humana, faltam atitudes e sobram discursos inflamados.
Li o depoimento-postado nas redes sociais neste fim de semana- de Preto Zezé, liderança nacional da Cufa (Central Única das Favelas) que vem das
Quadras de Fortaleza, com trajetória de dedicação intelectual e de ações
concretas, “Senhoras e
Senhores, apresento-lhes nossos meninos-bombas!”.Esse líder lança um olhar atento e sensível sobre o acontecimento e sua fala vai muito além de um desabafo carregado de desesperança. Segundo ele, “esses meninos que explodem só são vistos, debatidos e lembrados
quando surgem das sombras e tiram vidas que são mais vidas que as suas, aliás,
suas vidas são apenas números”.
Diante de vidas que se teceram
na descrença, que nada tem a perder, porque não se sentem donos nem da própria existência, me pergunto: o que pode ser feito a favor desses jovens de modo a criar, para suas vidas, novas trilhas rumo a novos destinos ? Penso que não podemos abandonar o social. Mas é possível e, urgente, ressignificá-lo. Sugiro que sejam tomadas ações efetivas no sentido de se inserir a criança e o jovem na vida em sociedade por meio de projetos de arte-educação.O reconhecimento do próprio valor, do pertencimento por meio de sua capacidade criadora e de sua sensibilidade. Vidas que desejam ser reconhecidas aceitas e, principalmente, desejam ganhar visibilidade positiva.
É sabido que o ensino regular não é suficiente para o pleno desenvolvimento humano. Os projetos de vida necessitam ser construídos. Inúmeras promessas foram feitas pelas entidades governamentais. No entanto,educadores, ativistas sociais e pesquisadores apontam sempre a carência de ações significativas.São muitos os jovens que
estão no caminho errado. Encarcerá-los
ou matá-los seria solução provisória, porque outros estão sendo tecidos
em seus cantos. Isso mesmo, outros virão.E
não é porque nasceram assim. O fato é que não
foram priorizados no espaço em que vivem e tecem seus destinos.
Este não é o desabafo de uma plebeia louca defendendo os seus iguais. Penso e, me compadeço dos príncipes acuados em seus castelos e jardins, com medo dos marginais que os rodeiam.Também eles são vítimas desse contexto social em que a insegurança e o medo impedem a tessitura de uma vida tranquila.
Sou a favor da paz tecida e entretecida por atitudes conscientes e eficazes. Ações articuladas entre os governantes e a população em busca do equilíbrio entre as classes sociais em nosso país. É viável a construção de uma sociedade mais humanizada, que não seja enredada entre vilões e mocinhos, herois e bandidos, cidadãos e marginais, cujo antagonismo seja tecido pelo dinheiro.Sabemos que há muito bandido entre os príncipes assim como é possível encontrar herois entre os plebeus.
Este não é o desabafo de uma plebeia louca defendendo os seus iguais. Penso e, me compadeço dos príncipes acuados em seus castelos e jardins, com medo dos marginais que os rodeiam.Também eles são vítimas desse contexto social em que a insegurança e o medo impedem a tessitura de uma vida tranquila.
Sou a favor da paz tecida e entretecida por atitudes conscientes e eficazes. Ações articuladas entre os governantes e a população em busca do equilíbrio entre as classes sociais em nosso país. É viável a construção de uma sociedade mais humanizada, que não seja enredada entre vilões e mocinhos, herois e bandidos, cidadãos e marginais, cujo antagonismo seja tecido pelo dinheiro.Sabemos que há muito bandido entre os príncipes assim como é possível encontrar herois entre os plebeus.
3 comentários:
Contundentes colocações, Rosa.
Abraço amigo!
São reflexões acerca do tema, meu amigo.
Ainda fervem incertezas em minha cabeça.
Grata pelo carinho.Boa noite.
Rosa Maria
Will, acrescentei 2 parágrafos ao texto.
Se puder (e quiser) leia e comente, por favor.
É importante para mim, sua opinião.
Abraço amigo!
Postar um comentário
Faça seu comentário abaixo: