terça-feira, 23 de junho de 2009

CONTO

VENHA VER O PÔR DO SOL

Lygia Fagundes Telles

ELA SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.
Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante.
- Minha querida Raquel.
Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.
- Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima
Ele sorriu entre malicioso e ingênuo.
- Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância...Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?
- Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui? - perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. - Hem?!
- Ah, Raquel... - e ele tomou-a pelo braço rindo.
- Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado...Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal?
- Podia ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí? Um cemitério?
Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.
- Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. - Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.
- Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.
Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.
- Ver o pôr do sol!...Ah, meu Deus...Fabuloso, fabuloso!...Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério...
Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.
- Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...
- E você acha que eu iria?
- Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada...- disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento –Você fez bem em vir.
- Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
- Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.
- Mas eu pago.
- Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.
Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.
- Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.
- Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
- É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.
- Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo...
O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.
- É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente – exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega.
- Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.
- Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele beijou-lhe a mão.
- Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.
- É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
- Ele é tão rico assim?
- Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...
Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.
- Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?
Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.
- Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã...Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como agüentei tanto, imagine um ano.
- É que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem?
- Nenhum - respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: - A minha querida esposa, eternas saudades - leu em voz baixa. Fez um muxoxo.- Pois sim. Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.
Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja- disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas...Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.
- Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim – Deu-lhe um rápido beijo na face. - Chega Ricardo, quero ir embora.
- Mais alguns passos...
- Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para atrás. – Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.
- A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio – lamentou ele, impelindo-a para frente. – Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. – E, tomando-a pela cintura: - Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.
- Sua prima também?
- Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos...Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas...Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
- Vocês se amaram?
- Ela me amou. Foi a única criatura que...- Fez um gesto. – Enfim não tem importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o
- Eu gostei de você, Ricardo.
- E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?
Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
- Esfriou, não? Vamos embora.
- Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.
Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.
Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.
- Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico.
- Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo?
- Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.
Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.
- E lá embaixo?
- Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó- murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. – A cômoda de pedra. Não é grandiosa?
Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.
- Todas estas gavetas estão cheias?
- Cheias?...- Sorriu.- Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe- prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.
Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
- Vamos, Ricardo, vamos.
- Você está com medo?
- Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado:
- A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo-a se exibir, estou bonita? Estou bonita?...- Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.- Não, não é que fosse bonita, mas os olhos...Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.
- Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando...
Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.
- Pegue, dá para ver muito bem...- Afastou-se para o lado.- Repare nos olhos.
- Mas estão tão desbotados, mal se vê que é uma moça...- Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.- Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida...- Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel – Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti...
Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.
- Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso? Brincadeira mais cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma, ouviu?
Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.
- Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco.- Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!
- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.
Ela sacudia a portinhola.
- Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!- Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. - Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...
Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.
- Boa noite, Raquel.
- Chega, Ricardo! Você vai me pagar!... - gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.- Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos!- exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando.
- Não, não...
Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.
- Boa noite, meu anjo.
Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.
- Não...
Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:
- NÃO!
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Violinos não envelhecem.

Violinos não envelhecem.
Violinos não envelhecem - Rubem Alves

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VIOLINOS NÃO ENVELHECEM

Rubem Alves


Eu a escrevi faz muito tempo --- uma estória de amor. Quem a leu, eu sei, não se esqueceu.
Por razão do dito pela Adélia: " o que a memória ama fica eterno". História de amor não inventada, acontecida, tão comovente quanto Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa. O que fiz foi só registrar o acontecido.
Preciso contá-la de novo, para benefício daqueles que não a leram pela primeira vez, e a fim de acrescentar um final novo, inesperado, acontecido depois.
A testemunha que me relatou o sucedido foi sobrinho, médico-músico, pessoa querida e bonita.
Atrasou-se para um compromisso na minha casa, chegou três horas depois, explicando que havia ido ao velório de um tio de 81 anos de idade que morrera de amor. Parece que seu velho corpo não suportara a intensidade da felicidade tardia, e os seus músculos não deram conta do jovem que, repentinamente, dele se apossara.
O amor surgira no tempo em que ele é mais puro: a adolescência.
Mas naqueles tempos havia uma outra Aids, chamada tuberculose, que se comprazia em atacar as pessoas bonitas, os artistas, os apaixonados --- esses eram os grupos de risco.
Pois ela, a tuberculose, invejosa da felicidade dos dois, alojou-se nos pulmões do moço, que teve de ir em busca de ar puro, no alto das montanhas, sanatório, tal como Thomas Mann descreve em seu livro -A montanha mágica.
Quem ia para tais lugares despedia-se com um "adeus", um olhar de "nunca mais".
Na melhor das hipóteses, muitos anos haveriam de passar antes do reencontro.
Imagino o sofrimento da jovem dividida: o corpo, naquela casa, a alma por longe terra!
Na vida daquela menina, que surda, perdida guerra... (Cecília Meireles).
Valeram mais os prudentes conselhos da mãe e do pai: não trocar o certo pelo duvidoso.
Vale mais um negociante vivo que um tuberculoso morto. E aconteceu com ela o que aconteceu com a Firmina Dazza, que de longe e às escondidas namorava o Fiorentino Ariza, na estória de Gabriel García Márquez Amor nos tempos do cólera, que foi obrigada pelo pai a se casar com o doutor Urbino: não se troca um médico por um escriturário. Casou e com ele ficou até que, depois de 51 anos, veio a libertação...
Ela casou. Ele casou. Nunca mais se viram. Quando ele tinha 76 anos, ficou viúvo. Quando ela tinha 76 anos (ele tinha 79), ela ficou viúva. E ficou sabendo que ele estava vivo. A curiosidade e a saudade foram fortes demais. Foi procurá-lo. Encontraram-se. E, de repente, eram namorados adolescentes de novo.
Resolveram casar-se. Os filhos protestaram. Eles, os filhos, todos os filhos, não suportam a idéia de que os velhos também têm sexo. Especialmente os pais. Pais velhos devem ser fofos, devem saber contar estórias, devem tomar conta dos netos. Mas velho apaixonado é coisa ridícula. Não combina. Mais detalhes no livro da Simone de Beauvoir sobre a velhice. E houve também aquela estória do programa Você decide: o velho pai, infeliz a vida inteira com a esposa, encontra uma mulher por quem se apaixona.
A pergunta: ele deve ou não deve deixar a esposa para viver o novo amor? Você decide... A decisão do público --- os filhos, evidentemente: "Não, ele não deve viver o novo amor..."
Os filhos sempre decidem contra o amor dos pais.
Mas, na nossa estória, os dois velhos deram uma solene banana para os filhos e foram viver juntos em Poços de Caldas. Viveram um ano de amor maravilhoso, e ele até começou a escrever poesia e voltou a tocar o violino que ficara por mais de 50 anos sobre um guarda roupa, porque a esposa não gostava de música de violino. Confessou ao sobrinho: "Se Deus me der dois anos de vida com esta mulher, minha vida terá valido a pena..." Bem que Deus quis. Mas o corpo não deixou. Morreu de amor, como temia o Vinícius.
Achei a estória tão bonita que a transformei numa crônica a que dei um título inspirado nas Sagradas
Escrituras: "... e os velhos se apaixonarão de novo".
Começa aqui o novo final para a estória.
Passaram-se semanas. Eram dez horas. Eu estava trabalhando no meu escritório. O telefone tocou.
Voz aveludada de mulher do outro lado.
--- É o professor Rubem Alves?
--- Sim, respondi secamente. Eu sou sempre seco ao telefone.
--- Quero agradecer a belíssima crônica que o senhor escreveu com o título: " ...e os velhos se apaixona-rão de novo". O senhor já deve ter adivinhado quem está falando....
--- Não, respondi. Por vezes eu sou meio burro. Aí ela se revelou:
--- Sou a viúva.
Foi o início de uma deliciosa conversa de mais de 40 minutos, interurbano, em que ela contou detalhes que eu desconhecia. O medo que ela teve quando ele resolveu mandar consertar o violino! Ela temia que os dedos dele já estivessem duros demais...
Ah! Que metáfora fascinante para um psicanalista sensível! Sim, sim! Nem os violinos ficam velhos demais, nem os dedos ficam impotentes para produzir música! E aí foi contando, contando, revivendo, sorrindo, chorando --- tanta alegria, tanta saudade, uma eternidade inteira num grão de areia... Ao terminar, ela fez esta observação maravilhosa:
--- Pois é, professor. Na idade da gente, a gente não mexe muito com sexo. A gente vive de ternura!

Aqui termina a lição do Evangelho

domingo, 21 de junho de 2009

OLHAR ATENTO PARA A VIDA!

Sugestão de leitura

LINDOS DE MORRER
Autora:Jocelyne Levy Rosenberg

Lifting, botox, laser,silicone nos seios e bumbum, levantamento das pálpebras, lipoaspiração, anabolizantes...Vale tudo para conquistar um padrão de beleza? mas até onde uma pessoa pode chegar quando prisioneira desse labirinto de espelhos?Como reverter o quadro e voltar a levar uma vida saudável e verdadeiramente feliz?
A discussão está na ordem do dia e não pode mais esperar.Com a palavra DRA JOCELYNE!

Os Sete saberes....Todo educador precisa ler.

Resenha: Os Sete Saberes Necessários À Educação Do Futuro (Edgar Morin)
Por Conteúdoescola
23 de julho de 2004
Página 1 de 10
...

Morin, Edgar - Os sete Saberes Necessários à Educação do Futuro 3a. ed. - São Paulo - Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2001



Em 1999, a UNESCO solicitou ao filósofo Edgar Morin - nascido na França, em 1921 e um dos maiores expoentes da cultura francesa no século XX - a sistematização de um conjunto de reflexões que servissem como ponto de partida para se repensar a educação do século XXI.

Os sete saberes indispensáveis enunciados por Morin, objeto do presente livro:

- as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão;
- os princípios do conhecimento pertinente;
- ensinar a condição humana;
- ensinar a identidade terrena;
- enfrentar as incertezas;
- ensinar a compreensão;
- a ética do gênero humano,

são eixos e, ao mesmo tempo, caminhos que se abrem a todos os que pensam e fazem educação e que estão preocupados com o futuro das crianças e adolescentes.

O texto de Edgar Morin tem o mérito de introduzir uma nova e criativa reflexão no contexto das discussões que estão sendo feitas sobre a educação para o Século XXI.

Aborda temas fundamentais para a educação contemporânea, por vezes ignorados ou deixados à margem dos debates sobre a política educacional.

Sua leitura levará à revisão das práticas pedagógicas da atualidade, tendo em vista a necessidade de situar a importância da educação na totalidade dos desafios e incertezas dos tempos atuais.

Seus capítulos - ou eixos - expõem a genialidade, clareza e simplicidade do filósofo Morin, num texto dedicado aos educadores, em particular, mas acessível a todos que se interessam pelos caminhos a trilhar em busca de um futuro mais humano, solidário e marcado pela construção do conhecimento.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Sobre o filme: Nell

Uma vida dançando ao vento suave da memória

NELL

Um testemunho de uma vida dançando ao vento suave de memórias embebidas num mar de amor e de esperança onde a água brilha incessante, lavando a mágoa e a dor de um mundo onde cada vez mais se acolhe a tristeza e cruel visão de anjos vestidos de negro descendo à terra, resgatando das inocentes mãos de doces almas a pureza e simplicidade de sonhos. Despedaçando verdades e corações, tatuando na sua essência a amarga raiz da incompreensão humana e material, do culto opressor e metafísico. Nell encontra-se sozinha na floresta. Perante uma linguagem que aprendeu a amar e a proteger, que é somente a sua linguagem com a alma que a habita, com a essência que a define como um ser único, utiliza-a na sua vivência diária, como modo de transmitir os seus conhecimentos e a visão que possui de um mundo criado sobre as suas experiências. O seu dialecto constitui o testemunho de uma vida a ela entregue num manto suave de amor e compreensão. Dois médicos acabam por descobrir uma “criatura” fascinante perdida no leito suave e acolhedor da floresta. Rapidamente se torna um objecto de estudo apetecível para os dois, não só pelo desejo de descoberta de tal acontecimento, assim como de possível factor impulsionador de uma carreira de trabalho.
No entanto um dos médicos, desempenhado por Liam Neeson, esconde em si objectivos muito mais nobres no estudo de Nell. A sua natureza social, os modelos comportamentais que moldaram a sua maneira de ver e sentir o mundo não lhe envenenam o discernimento mental e a capacidade de compreensão de uma diferença que obviamente não é sempre inferior. O médico preocupa-se com a pessoa, com o ser que esconde sonhos e desejos, uma essência e uma alma únicas. Nell não é para ele uma “selvagem”, que possui uma “linguagem destorcida”. Nell é uma pessoa, um ser que possui sentimentos e tem o direito à compreensão.
A cultura moderna hostiliza tudo o que não é conhecido. Tudo o que não pertence ao foro do culturalmente adquirido e aceitado historicamente é potencialmente perigoso e inconcebível. É efectivamente disto que se trata, atitudes profundamente mergulhadas num egocentrismo e xenofobia opressores. Porque mesmo não se tratando obviamente de uma cultura diferente, Nell possui uma visão única e suave do mundo, como lugar habitado por uma natureza resplandecente, que destila incessante e de um modo suavemente sedutor toda a beleza que lhe veste a essência. À noite banha-se nas doces águas do rio, fundindo o seu corpo puro com a natureza que a acolhe e a incentiva a respirar sem névoa ou malícia um perfume que lhe parece sempre único. De noite rejuvenesce contemplando a beleza virgem de uma lua imensa, que engole o horizonte com o seu brilho transcendental. A vida saboreando a Natureza. A inocência de um sorriso simples e sentido. Oásis de amor e de esperança bebendo da floresta a sua inspiração e força, num contacto profundo com a pureza do sentir. O colo da lua é o seu baloiço de sonhos, o seu caleidoscópio de ensinamentos entoados sobre o leito límpido da Natureza. Não precisa de mais nada. Não pediu mais nada.
Efectivamente “as atitudes, as condutas e os pensamentos são eles próprios o resultado da adaptação do espírito do homem às condições ambientes e uma resposta aos estímulos exteriores”, segundo J.B.Watson. O filme claramente bebe da teoria behavorista parte da sua força e poder argumentativo. A personagem de Nell constitui a imagem crucial e materializada de um ser que se adaptou ao ambiente que a rodeia, constituindo o seu espírito e a sua essência o reflexo desse mesmo ambiente. Os pensamentos e condutas que perpetua e que defende são resultado desse meio onde se encontra inserida. Recorrendo por outro lado a uma teoria apresentada por Piaget, “o conhecimento tem início quando o recém nascido, através dos seus reflexos que fazem parte da sua bagagem hereditária, age assimilando alguma coisa do meio físico e social. Daí provém sucessivas estruturações formando etapas características, chamadas estágios ou níveis de conhecimento”. Recorrendo a esta teoria apresentada e aplicando-a ao caso específico do filme comentado é fácil estabelecer uma relação precisa e concisa entre as duas realidades. Nell recebeu uma educação “especial”. Na sua diferença reside o foco incessante e doloroso de repudia e incompreensão social. Nell assimilou factores e aspectos essenciais do meio físico e social em que se encontrava mergulhada , e o qual lhe banhava a face e lhe oferecia a dádiva pura e simples da natureza, dos valores simples e afectuosos.
Os estágios e níveis de conhecimento a que a transcrição se refere, no caso preciso de Nell manifestaram-se de uma forma muito pouco comum. Embora pareça possuir um conhecimento insuficiente ( para as pessoas que se encontram perto dela, para a maioria da sociedade ), a realidade irá mostrar a essas mesmas pessoas que efectivamente caíram em erro e foram claramente prejudicadas por juízos preconcebidos de valor.
Quando o doutor observa pela primeira vez a beleza pura e simples de uma “criança selvagem”, proferindo palavras soltas banhadas num oceano sedutor e inocente de incompreensão, não deixa de ficar profundamente apaixonado pela visão que se depara perante os seus olhos. Porque sente nela algo de diferente, no espaço que os envolve nasce uma intimidade que os irá guiar durante todo o filme. Nasce uma relação de compreensão, densificada em manifestações ternas de carinho e de procura de entendimento mútuo. Ele não está ali ávido de um objecto de estudo, detentor de um qualquer objectivo específico e preciso. Está ali movido por uma curiosidade aguçada e a sua essência e alma vão ser encaminhadas para uma realidade que irá ultrapassar a mera curiosidade. Conforme cresce a relação entre o médico e a Nell, nasce também uma nova realidade para o coração do médico. Novos valores e ensinamentos tatuam a sua essência, ajudando-o a encontrar na sua alma, parte de si que nunca reconhecera. Nell utilizando o dom que a faz ser única consegue aproximar e renascer essências anteriormente parcialmente adormecidas num trabalho e numa sociedade opressora e egocêntrica. A sociedade, as definições, valores culturais e humanos que a pretendem compreender nunca o conseguem por intermédio da sua acção, porque efectivamente guiam os seus esforços não em prol da compreensão mas sim de uma demonstração hipócrita e egoísta de uma detenção de um conhecimento perfeito e imutável. É principalmente devido a esta cruel realidade que a doutora não consegue compreender Nell , quando a começa a conhecer. Porque não a quer conhecer. A essência individual que lhe banha a face, os seus ensinamentos e os seus sonhos e valores, não são o objecto de estudo tão pouco. São alvos a abater em nome do que está socialmente alicerçado, dos valores culturais correctos e admitidos. A pessoa, a essência de Nell é subjugada sob o nome da ciência, dos valores e conceitos que a mesma defende. Sob o nome de um modelo social que possui regras inflexíveis alicerçado num aparelho estrutural rigidamente construído. A nossa sociedade é cada vez mais sinónimo de incompreensão e hostilidade pela diferença. E muitas vezes não se preocupa ( o que é verdadeiramente assustador ) sobre as causas e significado dessa mesma diferença, ou mesmo se a mesma constituí algum perigo ou ameaça ao bom funcionamento da vida em sociedade, em defesa dos valores e normas comportamentais culturalmente aceites.
Como ameaça ao bom funcionamento de uma sociedade, todo aquele que demonstre através dos seus actos poder vir a tornar-se uma ameaça para esse funcionamento, obviamente terá que ser alvo de medidas coesivas e de vigilância. É esse o principal objectivo da ciência em relação a pessoas como a Nell. A repudia da via de entendimento sobre a sombra negra e disforme da coasão e do controle social. Obviamente que as coisas nem sempre são assim tão simples, e em alguns casos essa coasão é profundamente justificável em nome da vida harmoniosa em sociedade. No entanto Nell sente os corações. Nell tem na sua essência a pureza de um sentimento que guia a vida e comanda um sonho. Tem na sua alma as asas que oferecem voos rumo ao verdadeiro sabor da vida. Na sua pureza e inocência afrodisíacas encontra-se reflectida na sociedade a realidade antagónica. Sede humana de poder, de conhecimento como obtenção desse mesmo poder. Sabor desejado de glória e de cifrões escorrendo brilhantes numa vida ostensiva. Vomitando notas que compram almas e sonhos. Que compram uma vontade e corrompem a verdade. A ela nada disso lhe interessava. Apenas continuar a viver a sua vida, comunicando com a linguagem que lhe fora transmitida, com a qual conhecia parte do mundo natural. O mundo que a acolhia sob a forma belíssima de florestas e rios, folhagens macias ondulando ao vento. Sob a forma de uma casa de campo que a protegia do frio e dos perigos da vida. Uma visão tão límpida, tão pura, a que guiava a sua razão e o seu amor, a sua fé infinitamente divina na procura de um sonho lindo, aquele que lhe oferecia a visão suave e terna da sua irmã, confidente de brincadeiras e de corridas livres no coração da floresta. O sol beijando a sua face, o amor terno de quentura primaveril. O brilho sem medos. A pureza magnífica do sol, irmão da lua, companheiros de essência. A beleza de uma relação pura e imortal. Os anjos levaram o corpo da sua irmã, mas a essência vive eternamente dentro dela. Linguagem de amor, de união. Quando olhou para o espelho procurou transmitir essa mesma linguagem. Procurou repartir com o mundo uma realidade inocente e pura. A ciência não a compreendeu. Viu-se a ela e à irmã. Tudo para ela é uma infinita descoberta. Sabor de vida, paladar existencial e metafísico. Procuravam-lhe retirar isso tudo em nome de um conhecimento científico ávido de novas realidades e noções. Um conhecimento científico que em prol da sua necessidade de informação pretendia utilizar uma essência e individualidade como cobaia para a sua obtenção de informação. Converter uma essência que não queria ser convertida. Ditar intoleravelmente o que era melhor para Nell, sem sequer procurar compreendê-la ou ouvir a sua voz. Nell para a ciência será sempre uma “pessoa atrasada” , detentora de “uma linguagem destorcida”, “uma criança selvagem”. Criança selvagem como sinónimo de uma inocência. Inocência porque a sua essência se encontra imaculada da podridão humana e de tudo o que inspira repudia. Selvagem porque não tem água corrente, electricidade nem telefone. Porque vive no coração da Natureza, não conhece um carro, um avião. Não possui o conhecimento para sobreviver segundo os parâmetros superiores da sociedade moderna. Quem disse? Quem o pode afirmar peremptoriamente?
Ninguém. Ninguém o pode afirmar. Porque não conhecer a sua essência, procurar compreender o que habita na sua alma? Não, para uma ciência sedenta de teorias escorrendo em páginas virgens de papel Nell é somente um objecto de estudo, possível cobaia numa experiência , sinónimo de novas etapas do procedimento e informação científica. A diferença que nela habita é um alvo a abater sem qualquer pudor. É uma necessidade. Imagem de intolerância e incompreensão.
No filme, o médico transpira a necessidade de compreensão tatuada num afecto e intimidade louvável. A sua preocupação primordial passa pela protecção de uma essência e de uma alma que constitui uma individualidade angelical. Desprovida de sombras e simulacros corruptos, detentora de uma realidade que ultrapassa escárnio e sedes opressoras de glória e endeusamento, Nell é uma essência voando livre em busca de um amor e uma esperança que definem e dêem sentido a uma vida. É um caso raro nos dias que correm, onde a preocupação de viver cada dia respira nos nossos corpos. Ela procura voar sobre o tempo e a mágoa de sentir o espírito doente. Protege esse espírito e esses valores abraçando a natureza, procurando mostrar a quem se encontra disponível e aberto para tal, essas mesmas realidades tatuadas no seu rosto sedoso e na sua pele inocente e pura. O seu olhar é denso e penetrante, despindo a natureza, descobrindo nos seus trajes a beleza e pureza que a define. Nell desperta nos dois médicos o brilho que tinham escondidos dentro deles. Consegue fazer aproximar as duas essências através da realidade que guia a sua vida, imortalizada nos valores e na visão do mundo que possui. Aquela que é hostilizada pelos parâmetros da sociedade, aquela que é vítima de um desejo egocêntrico de destruição. Quando é levada para o hospital, o seu espírito adoece lentamente. A sua alma pede ajuda ao coração que sempre brilhou, indiferente a toda a escuridão adjacente à vivência humana alicerçada nos valores ditos “comuns”. Encontra-se aprisionada no desconhecido, nos valores que nunca pediu para conhecer, aqueles sobre os quais possuí uma pequena ideia mas que não quer densificar.
Remete a sua dor para o silêncio onde a sua essência se encontra mergulhada. E finalmente quando tem oportunidade para comunicar o perfume que molda a sua essência, fá-lo proferindo as seguintes palavras: “Não se olham nos olhos e têm fome de sossego(...)sei que todos se vão, todos se vão embora(...) não tenham medo por Nell, não chorem por ela,(...) não tenho tristezas maiores que as vossas”. Acordes de uma vida, de um sonho, de uma verdade. Conseguiu transmitir a sua visão porque o médico procurou compreendê-la. Conduziu todas as suas forças e energia em busca desse objectivo nobre. Quis conhecer verdadeiramente a sua essência, a sua razão e a verdade sobre os ditames da tolerância e compreensão. Ficou para sempre maior como Homem e como Ser. Aprendeu vivendo, compreendo, desejando essa mesma compreensão. Não hostilizou a diferença, a hipotética ameaça.
O filme transpira todos estes conceitos, esta realidade. Será tão difícil ao homem compreender a diferença? Mesmo que ela signifique pureza, beleza e simplicidade. Mesmo que ela traduza de forma inocente mas infinitamente sedutora uma visão e um amor que todos porventura podemos desejar? Perguntas soltas. As quais todos nós poderemos dar resposta. Através de acções. Através de um sentimento. Do entoar livre e sentido de uma canção. A da vida, esperança e amor. Compreensão moldada a tons de sonho. De direito à diferença, de uma individualidade. Poderemos para sempre sermos maiores. Poderemos aprender vivendo. Interactuando. Convivendo apaixonadamente com a Natureza e com quem nos rodeia.

Rosa Maria Olimpio março de 2019 em Belo Horizonte

 2019 "Basta-me um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve…" Cecília Meireles