Mário Lago
'Fiz o que quis e fiz com paixão. Se a paixão estava errada, paciência. Não fiquei vendo a vida passar, sempre acompanhei o desfile.''
Mário Lago
'Fiz o que quis e fiz com paixão. Se a paixão estava errada, paciência. Não fiquei vendo a vida passar, sempre acompanhei o desfile.''
Como são fortes as palavras! Elas dizem coisas que só o coração escuta. Se escritas sobre papel claro, ficam mais iluminadas e eternas. Sei que as palavras podem abrir novo caminho. A ternura e a coragem da mulher é que dão colorido ao caminho da existência humana.
Parabéns a todas nós, mulheres!
Apresento aqui uma passagem da versão em português do livro Claros del bosque, de María Zambrano. A circunstância da tradução de uma obra escrita por uma filósofa, em linguagem dotada de forte sentido poético — a fronteira tênue em que Zambrano constrói conceitos e metáforas —, estabelece desafios para o exercício do trânsito entre idiomas.
O intenso diálogo da filosofia com a poesia marca toda a trajetória intelectual de María Zambrano (1904-91). Sobre a singularidade de Claros del bosque, publicado em 1977, assim se expressa a própria pensadora: “Creio portanto que, como livro, é o que mais responde a essa ‘ideia’ há tempos formulada de que ‘pensar é antes de tudo — como raiz, como ato — decifrar o que se sente’, entendendo por sentir o ‘sentir originário’, expressão usada por mim já há muito anos”.
O excerto a seguir está no quinto capítulo do livro, “La metáfora del corazón”.
Texto de Silvio Diogo Lourenço dos Santos
CLAREIRAS DO BOSQUE
— A metáfora do coração
É profeta o coração, tal como aquilo que se encontra no centro e num confim, sempre na iminência de ir ainda mais além do que já foi. Está a ponto de romper a falar, de que o seu reiterado som se articule nesses instantes em que quase se detém para recobrar o alento. O novo que habita no homem, a palavra; mas não as que dissemos, ou no mínimo como as dissemos; uma palavra que fosse nova apenas porque brotasse, porque nos surpreendesse como o alvor da palavra. Visto que o homem padece por não haver assistido à sua própria criação. E à criação de todo o universo conhecido e desconhecido. A sua ânsia de conhecer parece ter precisamente como fonte essa ânsia de não haver assistido à criação em sua totalidade, desde a luz primeira, desde antes: desde as trevas não dilaceradas. A teologia das grandes religiões — e também a filosofia, de modo mais circunspecto — dá testemunho do caráter ineludível desta revelação.
E não parece que se tenha considerado suficientemente este grande ressentimento, este ressentimento “fundamental” que o ser humano leva no seu coração, como raiz de todos os ressentimentos que o povoam: não haver assistido — e seria, por sinal, testemunha única — ao ato criador. Se tomamos por base o relato sagrado do Gênesis, o homem sucumbiu à sedução promissora do futuro: “Sereis como deuses”, não em apetite de felicidade, mas, ao contrário, saindo da felicidade que o inundava para ir buscar uma criação própria, de algo que ele fizesse; não se restringindo a contemplar o que se lhe oferecia, para fugir da pura presença dos seres de quem sabia o nome, mas não o segredo. Todavia, a palavra que não chega a sair do coração não se perde, essa palavra nova na qual resplandeceria, com claridade inextinguível, o novo da palavra. A palavra diáfana, virginal, sem pecado de intelecto, nem de vontade, nem de memória. E a sua claridade teria o que nenhuma palavra nos dá certeza de alcançar: ser inextinguível. Não se perde, desata-se em voz, uma voz que suspira sozinha e, tal como o suspiro, eleva-se atravessando angústia e espera; transcendendo.
E é a voz que se infiltra em certas palavras de uso cotidiano e, com ainda maior ênfase, nas mais simples, as que dão certeza. E se não se tornam por isso inextinguíveis, têm uma espécie de firmeza e até de fórmula sagrada.
E é a voz interior que se identifica com algumas vozes, com algumas palavras que se escutam não se sabe bem se dentro ou fora, porque se escutam do íntimo. E ao sair para escutá-las, é de si mesmo que se sai. E entre dentro e fora, todo o ânimo fica suspenso, como fica sempre em toda identificação de algo que pulsa no coração e algo que existe objetivamente. É o terror supremo que se precipita ao escutar como certo aquilo que se teme. E o total esquecimento de si, quando se escuta o que nem sequer se sabia estar aguardando. E nesta feliz situação dá-se a música perfeita; o canto.
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Tradução: Sílvio Diogo Lourenço dos Santos
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Catedral Metropolitana Nossa Igreja Matriz
Localizada na Praça Rui Barbosa
Uberaba tem sua origem na ocupação do Triângulo Mineiro, que ficou sob a jurisdição de Goiás até 1816. A região começou a ter importância preciosa, que consistia em uma das metas administrativas da Coroa Portuguesa, o governador da Capitania de São Paulo e Minas Gerais articulou a abertura de uma estrada. Esta missão ficou a cargo de Bartolomeu Bueno da Silva Filho (filho de Anhanguera). A expedição era composta por 152 homens, entre os quais 20 índios carregadores, 3 religiosos e 39 cavalos. Ela partiu de São Paulo pelos rios Atibaia, Camanducaia, Moji-Guaçu, Rio Grande, Rio das Velhas e penetrando em Goiás pelo Corumbá. Segundo alguns relatos da época, a expedição passou por terras de Uberaba. Esta rota ficou conhecida como Estrada Real ou Anhanguera que consistia em um importante caminho para que as autoridades portuguesas implementassem a colonização, a produção e escoamento dos minerais preciosos. Na verdade, a maioria das riquezas minerais do Brasil foram levadas para Portugal e utilizadas para o pagamento de suas dívidas em relação à Inglaterra. Posteriormente, a expedição do filho de Anhanguera fundou em 1725 o povoado de Vila Boa em Goiás.
Outra estrada mais a Oeste foi aberta em 1736, passando por terras de Araxá em direção à Vila Boa denominada Picada de Goiás.
A exploração e o povoamento de todo o Triângulo Mineiro, de modo geral, se fez como em todo o Brasil - Colônia, pelo amansamento e extermínio das populações indígenas e dos negros nos quilombos.
As estradas para Goiás tornaram-se palco de batalhas, entre os exploradores dos sertões e os nativos.
Diante disso, o governo de Goiás viabilizou a segurança das estradas e por isso nomeou em 1742, o Coronel Antônio Pires de Campos para policiar, amansar e até mesmo exterminar os silvícolas rebeldes, fato constatado com a matança dos Caiapós.
Em 1766 foi criado o Julgado de Nossa Senhora do Desterro do Desemboque, sob a administração de Goiás, local rico em minas auríferas e de intensa exploração. A posse desse Arraial por Goiás era vantajosa aos moradores, pois estavam livres do pagamento de imposto sobre minerais, denominado "derrama", cobrado em Minas Gerais.
Desemboque teve o seu esplendor até 1781, quando as minas auríferas se esgotaram.
Prosseguindo a exploração das terras, o governo de Goiás para dinamizar a administração dos Sertões, nomeou pela Portaria de 1809 Antônio Eustáquio da Silva Oliveira (natural de Ouro Preto) para a função de Comandante Regente dos Sertões da Farinha Podre (Triângulo Mineiro), e em 1811 foi nomeado pelo Ato Governamental, Curador de índios.
Em 1810, Major Eustáquio liderou uma Bandeira até o Rio da Prata, passando por terras de Uberaba.
Outra expedição chefiada por José Francisco Azevedo, atingiu a cabeceira do Ribeirão Lajeado, fundando o Arraial da Capelinha, aproximadamente a 15 km do Rio Uberaba. Entretanto este local não se desenvolveu por falta de água e terras férteis, conforme constatou Major Eustáquio em visita ao Arraial.
Consequentemente, o Regente dos Sertões comanda outra Bandeira com 30 homens e procura novas terras para se estabelecerem. Atingem o Rio Uberaba e fixam-se na margem esquerda do Córrego das Lages, onde foi edificada a Chácara da Boa Vista (hoje Fazenda Experimental da Epamig).
Junto com Major Eustáquio vieram fazendeiros e aventureiros que passaram a produzir e comercializar com as caravanas que ligavam Goiás a São Paulo.
Algum tempo depois, Major Eustáquio construiu sua residência na Praça Rui Barbosa (atual Hotel Chaves).
Grande número de pessoas sabendo das condições propícias de Uberaba e do prestígio e segurança que o comandante Major Eustáquio oferecia, imigraram para o novo Arraial. Eram boiadeiros, mascates, comerciantes, criadores de gado, ferreiros, etc...
Os moradores logo ergueram uma Capela tendo como oragos Santo Antônio e São Sebastião, benzida em 1818 pelo padre Hermógenes Cassimiro de Araújo Brunswick, do Desemboque. Assim foi estabelecido o reconhecimento do povoado pela Igreja. Esta instituição representava prestígios decisórios junto aos governos.
Visto que em 2 de março de 1820, o rei D. João VI decreta a elevação de Uberaba à condição de Freguesia.
O Decreto Real constituiu um grande avanço para a comunidade. Significou a emancipação e gerência própria em assuntos de ordem civil, militar e religioso. Foi o reconhecimento oficial tanto pela Igreja como pelo Governo Real.
Uberaba foi crescendo e as terras foram ocupadas formando-se extensas propriedades devidas o baixo valor da terra e isenção de impostos sobre elas. Em pouco tempo reuniu-se seleta população de agricultores, pecuaristas e comerciantes e outras profissões, fato que viabilizou o Governo Provincial de Minas Gerais a criar o Município de Santo Antônio de Uberaba em 1836.
Uberaba, em 1840 passou a sediar uma Comarca para distribuir a justiça na região.
A importância regional da Vila de Santo Antônio de Uberaba era próspera que ela mereceu o título de Cidade em 1856, tornando-se um importante centro comercial que se acentuou com a inauguração da Estrada de Ferro em 1889, que foi um acontecimento facilitador da imigração européia para a cidade e do desenvolvimento da pecuária zebuína.
A riqueza econômica refletiu na estrutura urbana onde surgiram requintadas construções no estilo eclético.
No século XX, a cidade demonstra um crescimento da agricultura, da pecuária, da indústria e do comércio, atendendo as demandas nos aspectos econômicos, culturais e de serviços essenciais à população.
Hoje Uberaba representa um centro comercial dinâmico, uma agricultura produtiva, um parque industrial diversificado e uma planejada estrutura urbana.
Dada à importância histórica de 02/03/1820, quando a cidade foi elevada à Freguesia, o Município instituiu oficialmente como a data que se comemora o aniversário de Uberaba.
Parabéns para os uberabenses que de maneira harmônica tem cumprido sua cidadania, preservando os valores culturais de nossa terra e valorizando a qualidade de vida da população.
Texto da Historiadora Marta Zednik de Casanova
Memorial do Convento faz parte da leva de romances históricos produzidos por Saramago ao longo de sua carreira – para quem não sabe, um romance histórico é aquele que se situa em um momento histórico real para falar de personagens e situações fictícias. Desses livros, o único do autor que havia lido era O Evangelho Segundo Jesus Cristo, e encontrei no relançamento de Memorial do Convento pela Companhia das Letras a oportunidade perfeita de ler esse que foi um dos primeiros livros publicados pelo escritor português.
Memorial do Convento é muito relevante quando falamos desse caráter histórico da narrativa: o livro é exemplo perfeito da forma como Saramago consegue aliar o pessoal e o global. A história se inicia com os motivos que levarem à construção do convento do título. Como bom memorial, o romance tem na lembrança um ponto forte: vemos o desejo do rei D. João V de Portugal por um filho do sexo masculino, e como ele promete construir um convento na cidade de Mafra caso sua mulher engravide. A gravidez acontece e, embora seja uma menina sua primeira herdeira, a promessa feita deve ser cumprida.
Entre um evento real e outro, somos apresentados a Baltasar Sete-Sóis e Blimunda. Ele, um ex-combatente que perdera na guerra uma de suas mãos. Ela, uma mulher de dons especiais, cuja mãe havia sido julgada e condenada bruxa pela Santa Inquisição. Blimunda enxerga o que os outros não vêem. Diferentemente da mulher do médico em Ensaio Sobre a Cegueira, a protagonista de Memorial do Convento tem realmente algo de mágico na sua visão: quando está em jejum, ela vê dentro dos olhos daqueles à sua volta e conhece seus desejos e medos mais profundos. Blimunda promete a Baltasar nunca olhar dentro dele, e cumpre sua promessa comendo um pão todos os dias, logo que acorda.
Outro personagem importante na narrativa é padre Bartolomeu de Gusmão e sua passarola. O padre (que foi uma figura real na monarquia lusitana), sonha em voar. Para isso, desenvolve um projeto para construção de uma engenhoca que imite o vôo dos pássaros e, aproveitando-se de conceitos da alquimia e das artes ocultas, suba aos céus usando a força dos raios solares e de poderosos ímãs. Quem auxilia padre Bartolomeu nessa empreitada é o casal Baltasar e Blimunda. Conhecendo o sobrenome de Baltasar, o padre dá a sua mulher um novo sobrenome: Blimunda Sete-Luas. Juntos, os três formam uma trindade (santíssima ou não, pouco importa) que tira o sonho da passarola do papel e o leva – literalmente – às nuvens.
Memorial do Convento é, ao mesmo tempo, um relato dos inúmeros anos levados para a construção do convento de Mafra (que é hoje o Palácio Nacional de Mafra), e um olhar na vida de Baltasar e Blimunda. É como se o relacionamento simulasse a complicada construção: a primeira decisão é impulsiva, quase inconsciente. Vem depois a colocação da primeira-pedra, o marco zero na configuração do relacionamento. A isso segue-se o erguer das paredes, o fazer de si uma muralha que proteja dos perigos de fora. Há pedras de tamanho e peso descomunais que devem ser carregadas, há perdas ao longo do caminho. No final, o que se tem é uma linha de chegada que é, de fato, pouco importante se considerarmos todos os caminhos que tiveram de se cruzar e interligar para chegarmos ali.
- Blimunda é, sem dúvida alguma, uma das personagens mais fortes nos romances de Saramago. Também por isso, seu nome foi dado à publicação eletrônica mensal da Fundação José Saramago.
2019 "Basta-me um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve…" Cecília Meireles