Como têm surgido muitas e diferentes versões sobre o que se tem feito no
ENEM, aqui vai a minha análise:
Regras ortográficas estão longe de ser a totalidade de uma língua, o processo
de aquisição dessas regras é longo, árduo e não se esgota nos limites do Ensino
Médio. A ortografia está longe de representar um cenário claro sobre a relação
entre fonemas e letras. Alguém que se encontra no Ensino Médio ainda apresenta
muitas dúvidas acerca disso. Exemplo claro é estarmos em meio a um processo
lento de implementação de um acordo ortográfico que suscitou diversas
discussões e sobre as quais muitos estudiosos ainda divergem. Uma correção de
provas da natureza do ENEM leva em conta muito mais do que apenas o uso de s ou
z, leva em conta a capacidade de expressão em língua verbal, a apreensão de
informações sobre determinado assunto posto em pauta. O número de redações que
atingiu notas acima de 9,0 é extremamente baixo, refere-se a uma minoria em
universo de 6 milhões, sequer chega aos 2%. A grade de correção da prova é
pautada em competências e habilidades em cinco dimensões, sendo apenas uma
delas referente à estrutura gramatical e às regras ortográficas, uma vez que
ainda precisamos lançar olhos sobre a tipologia, o domínio do tema, a presença
de proposta de solução, a coesão, a coerência, a argumentação e muito mais. Em
nenhum momento, levantou-se bandeira alguma contra a gramática prescritiva, o
que se busca trilhar e sempre com base em diversos estudos acadêmicos sobre a
língua portuguesa, é o caminho para um sistema avaliativo macro, isonômico, e
de qualidade. Ao apontar um ou outro erro de ortografia em um texto, ele deve
ser sim identificado, e deve figurar igualmente dentro de todos os outros
parâmetros de correção, assim como propõe a grade de correção adotada no ENEM.
Um texto de nota máxima nesse exame não está totalmente livre de algumas falhas, mas a análise reducionista para somente esse tipo de falha mostra-se um caminho contrário para a reestruturação do cenário da educação brasileira. Devemos, antes de tudo, envidar esforços para que um processo seletivo com as proporções do ENEM seja consolidado como meio de se encarar o texto não mais como colcha de retalhos, e sim como unidade de sentido, um espaço no qual o autor se posicione sobre assuntos pertinentes à vida em sociedade, sempre de forma crítica e reflexiva. Essa é a educação que queremos.
Um texto de nota máxima nesse exame não está totalmente livre de algumas falhas, mas a análise reducionista para somente esse tipo de falha mostra-se um caminho contrário para a reestruturação do cenário da educação brasileira. Devemos, antes de tudo, envidar esforços para que um processo seletivo com as proporções do ENEM seja consolidado como meio de se encarar o texto não mais como colcha de retalhos, e sim como unidade de sentido, um espaço no qual o autor se posicione sobre assuntos pertinentes à vida em sociedade, sempre de forma crítica e reflexiva. Essa é a educação que queremos.
Janaína de Aquino Ferraz (Professora/Doutora/UnB)



