domingo, 5 de março de 2017

Piero Eyben

TALVEZ FICAR MUDO

Piero Eyben



tenho alucinações passageiras desse corpo
nas sombras e a face se deslocando entre
estações ou algum outro medo que não
pode ser dito ou quando diz apenas se cala
para romper a fumaça espessa do dia
os olhos tremem e já não mais se pode conter
qualquer água salgada e meus ombros se
entregam talvez seja muito fraco de tanta
luz que se pareça ao sangue ou ao grito
que nunca ouvi por mais que tenha escutado
inúmeras vezes essa tua voz que não quer dizer
nada mais que quer apenas falar sem improviso
e retornam aqueles coelhos ou uma conversa
que me atravessa talvez muito silenciosa talvez
apenas um soluço enquanto passo cada tempo
a fazer-me fotos e controlar mais essas horas
em que o corredor fica povoado pelo olhar
solitário do gato de sua cor mais noturna
e desse pavor da loucura que assola
a biblioteca dada à coragem mas não gostaria
de ter de escrever mais uma carta recopiar
meus dedos diante desse muro entre minha
cabeça e meu corpo ou as unhas carcomidas
pelo bolor despido e ainda terei de me deitar
conter a trepidação e matar o sono para que
nada me destrua como a mim mesmo diante
dessa flor ou dos odores estendidos das folhas
que crescem apesar desses olhos que já não
reconheço quando os olho na migalha
do que é mudo na minha voz
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