terça-feira, 6 de dezembro de 2016

FERREIRA GULLAR

Ferreira Gullar morre aos 86 anos no Rio


O poeta, escritor e teatrólogo maranhense Ferreira Gullar morreu na manhã deste domingo (4) no Rio, aos 86 anos. Gullar é um dos maiores autores brasileiros do século 20 e foi eleito "imortal" da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 2014, tornando-se o sétimo ocupante da cadeira nº 37.


Ferreira Gullar deixa dois filhos, Luciana e Paulo, oito netos, e a companheira Cláudia, com quem vivia atualmente.
Seu último livro foi "Autobiografia poética e outros textos", lançado este ano.


Duas obras recentes trazem a proscênio o poeta Ferreira Gullar, sob a égide de sua vida, obra e do cruzamento de ambas comandado pelo dínamo literário. Em Autobiografia poética e outros textos, o autor maranhense revista o passado por meio do fazer poético. Perscruta, na inflexão de um relato de memórias, o momento-chave em que deixou de ser José Ribamar Ferreira para dar início à carreira de militância na escrita e de consagrações. “A literatura só terá sentido se mudar alguma coisa, nem que seja a minha própria vida”, conclui.
Falando consigo, Gullar empreende um diálogo confessional com o leitor. Retorna aos idos da infância, reencontrado o menino cujo primeiro contato com a poesia se dá através da Gramática expositiva, de Eduardo Carlos Pereira, cujo final se desdobrava numa pequena antologia composta por versos de Camões a Castro Alves. “Não sei bem que impressão aqueles poemas me causaram, mas a verdade é que me interessei por eles e procurei ler outros versos daqueles poetas”, relembra.
O novo interesse, portanto, começa a mudar o seu próprio comportamento, percebido, com reticência, pelos seus próprios familiares. “A verdade é que Dodô, meu irmão mais velho, veio me perguntar, preocupado, se eu de fato pretendia ser poeta. Respondi que sim, e ele então me alertou para o perigo que poderia correr, uma vez que os poetas em geral enlouqueciam (…)”, conta.
Contudo foi justamente através de sua irmã que conheceu o poeta Manuel Sobrinho, que o introduziu na cena literária local e ampliou seu horizonte poético, apresentando-lhe  os versos de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes. Em seguida, vieram os portugueses Fernando Pessoa e Vitorino Nemésio. Porém, foi com a compra de um volume de contos mofado do alemão E.T.A. Hoffmann que percebeu em si o despertar de uma necessidade de atribuir ao trabalho poético uma significação maior que o simples interesse literário.

Autobiografia poética e outros textos (160 págs.), editora Autêntica

“Pode ser que, então, tenha tomado consciência da importância que a literatura deveria exercer em minha vida. Não significa que, naquele momento, haja descoberto o rumo que deveria imprimir a ela, e sim tão somente, que me entregar à poesia seria o meu destino. Era como se, até então, escrever poemas fosse o exercício de certo talento que trouxera do berço; agora, tornar-se-ia o verdadeiro sentido da vida. Mas, que poesia fazer, isso eu não sabia”, afirma, diante de Um pouco acima do chão, seu primeiro livro lançado, que considera imaturo, detentor de “um otimismo ingênuo”.

A poesia com a qual buscava identidade, que iria determinar seu futuro, surgiria, então, com a descoberta de Elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke. “A leitura desses poemas foi para mim uma revelação do que era a verdadeira poesia”. Gullar se certifica de que ali se instalara um processo de reflexão que teria uma influência direta na concepção de A luta corporal, o qual considera sua verdadeira estreia.
Tal verve de conversão literária coincide com sua mudança para o Rio de Janeiro, a convite da escritora Lucy Teixeira. Em novos ares, Gullar presencia o exato momento em que a arte concreta propõe a ruptura com a tradição modernista surgida em 1920. Aproxima-se do teatro e da imprensa, passa a trabalhar em redação. Tais experiências com uma cultura em plena transformação acabam por influenciar sua produção literária e sua persona. “Afirmei que a linguagem teria que nascer ao mesmo tempo que o poema, mas não dei um passo sequer nessa direção. Tenho me enganado, evitado enfrentar o problema, mas isso acabou. A partir de agora, ou avanço naquela direção ou paro de escrever”, sentenciou.
Um dos resultados desse caloroso acontecimento contra a própria obra é um de seus mais consagrados trabalhos, o livro-poema O formigueiro, em que combina discurso com sintaxe visual. O poeta maranhense se entrega a uma tarefa de se autorreconhecer um escritor em multifário exercício, cuja criação não parte de nada planejado ou em plena consciência, mas de percepções de dificuldades e de descobertas. Dessa circunstância, por exemplo, que surge Poema sujo, época em que Gullar encontrava-se em exílio político. “Ao pensar em escrever aquele poema – na noite em que me veio o ímpeto de escrevê-lo – imaginei começá-lo com uma espécie de vômito do vivido”.
A realidade que traz dentro de si não passa a ser, tampouco, apenas a existência natural, e sim muitos dos fatores e inspirações que o fizeram, de poema a poema, entender-se como um ser poético. Seja na atuação política, nos rastilhos dos encontros com nomes como Augusto de Campos, Oswaldo de Andrade e Otto Lara Rezende, na convicção de que, apesar de viva, “a memória é um mistério”. Um que não está aliado à urgência do tempo.
“Demoro a publicar livros de poemas porque escrevo pouco, e escrevo pouco porque só o faço movido pelo que chamo de espanto”, justifica-se.
Outros textos

Findada a autobiografia poética, o livro cede espaço para os chamados “outros textos”. Esses são compostos pelo “Manifesto neoconcreto”, “Entrevistas” e “Textos sobre poetas”, este último completado em ensaios sobre Rimbaud (que, diga-se de passagem, reforça o quanto O regresso, de Lúcia Bettencourt, é um ótimo romance), Fernando Pessoa e o grande peruano César Vallejo. São análises que se deslocam da biografia à bibliografia, atentando para a relação dos autores com seus versos e quanto isso acaba por referendar ligações com os cânones literários e o vulto geracional.
As duas breves entrevistas, por sua vez, trazem a sensação de revisitar caminhos trilhados durante a autobiografia. Enquanto “O poeta fala de poesia”, realizada em 1965, toca em aspectos mais subjetivos (“Para que serve a poesia?/O que acha da inspiração e por que escreve poesia?), “As bibliotecas do poeta”, concedida em 2014, faz novamente um sobrevoo pela memória afetiva e literária de Gullar.
A certa altura, o poeta rememora seu tempo de exílio, transitando de Moscou para o Chile e, em seguida, para o Peru. Neste país, conheceu e ficou muito amigo de Darcy Ribeiro, a quem convenceu sobre as qualidades dos poemas de Augusto dos Anjos. Tempo depois, num almoço com um editor, Ribeiro mente que Gullar está escrevendo um livro sobre Augusto dos Anjos, atrás de um adiantamento.
“Eu não ia receber o dinheiro e não fazer o livro. Eu sabia muitos poemas de cor, conhecia a história dele, então fui para a Biblioteca de Lima e comecei a tomar notas. (…) Fui lendo essas coisas e, depois, quando já estava em Buenos Aires, a Thereza (*esposa) me levou outros livros que pedi e acabei de escrever”, relata os bastidores do famoso estudo crítico, finalizado em 1975, que agora ganha uma caprichada reedição pela José Olympio.

Augusto dos Anjos, um poeta singular

Intitulado “Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina”, o extenso ensaio faz as vezes de prefácio para Toda poesia de Augusto dos Anjos, antologia poética que abrange os 58 poemas integrantes de Eu, primeira e única publicação do poeta paraibano, além de versos escritos entre 1900 e 1914, nunca recolhidos em livro, alguns cujas composições datam meses anteriores à sua morte.
Gullar traça uma linha cronológica, que parte do nascimento no Engenho do Pau D’Arco e segue pela infância, onde as primeiras relações com uma vida marcada por diversos graus de decadência iriam ter um impacto inestimável em seus versos.

Toda poesia de Augusto dos Anjos (317 págs.), editora José Olympio

Das ruas do Recife, o olhar poético se embrenha pelo ranço do cotidiano de tuberculosos, bêbados e putas, alcançando o grau de alucinação daquele que “caminha e ouve, dentro da noite, o apelo de todas essas criaturas, e também dos seres microscópios, dos germes, das montanhas, que lhe pedem para falar por eles”. Um ponto do universo e do tempo em que o poeta questiona e sofre o mistério da existência. “Jamais, antes dele, na poesia brasileira, essa indagação se fizera em tal nível de urgência existencial e de expressão poética”, chama atenção Gullar.
O ensaio avança pela repercussão do Eu, recebido à época como algo de “mau gosto”, contrariando as críticas negativas e dimensionando o valor de seus versos frente ao contexto literário do tempo em que foi lançado. Era um período em que o parnasianismo e o simbolismo eram as duas tendências atuantes na poesia brasileira. Contudo, dos Anjos não se filia a nenhuma delas. Estabelece-se num meio-termo. “Do parnasianismo, Augusto herdou, sobretudo, o versos conciso, o ritmo tenso e a tendência ao prosaico e ao filosofante; do simbolismo, além do gosto por palavras-símbolo com maiúscula, o recurso da aliteração e certos valores fonéticos e melódicos”, define.

Tal ruptura se reforça na própria postura do poeta paraibano, que chegou a afirmar, na ocasião, que no ambiente literário imperava a futilidade, o predomínio de uma literatura chamada de “sorriso da sociedade”. Apesar de também beber da erudição que refletia a lição dos clássicos, como aponta Gullar, na poesia de dos Anjos “a realidade explode aqui e ali na linguagem rude e às vezes incontrolada, mas viva quase sempre”.
“Não conheço nenhum outro poeta brasileiro, anterior a Augusto dos Anjos, que, a fim de exprimir a experiência concreta vivida, tenha de tal modo abandonado os recursos literários usuais, dado costas aos canais prontos da metáfora prestigiosa”, salienta.
O relato se abre, então, para uma análise social do Brasil do começo do século XX, de onde surgem obras como Os sertões, de Euclides da Cunha, traçando, desse panorama, uma linha extraterritorial que coloca a poesia de dos Anjos no âmbito do novo, ao demonstrar uma atitude radical que rompe com as convenções verbais e sociais do gênero. Um estilo que intenta ser concreto, mobilizado pela complexidade do real que procura abranger, em seu universo verbal influenciado pelo vocabulário científico e filosófico, uma coerência baseada na qualidade estética e na profundidade da visão.
“Augusto se alimenta da podridão, dos vermes, da noite, do luto, do carvão, dos signos zodiacais, da superstição (…)

 O mortos de Augusto apodrecem e fedem”, conclui Gullar, diante de poemas de expressividade simbólica, a exemplo de “Versos íntimos”

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


De fato, seja analisando o outro ou a si mesmo, Gullar busca, na vida e na obra particular, uma maneira de se encontrar no caos mundano. Lançar-se nessa empreitada parte do mesmo esforço de, enfim, tentar responder: o que é o espanto que faz nascer o poema? Segundo o poeta, “é a súbita constatação de que o mundo não está explicado e, por isso, a cada momento, nos põe diante de seu invencível mistério”.
“Tentar expressá-lo é a pretensão do poeta”, confessa, aos 85 anos. Que fique de lição, portanto, para todos aqueles que se achem prontos!


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