segunda-feira, 6 de julho de 2015

Preconceito O grito que se ecoa pelas redes sociais: "-Eu sou Maju."





O grito que ecoa pelas redes sociais: "-Eu sou Maju." representa o  grito contra todas as formas de preconceito, que são dirigidas a todas as pessoas.
Maju é uma jornalista carismática que desenvolveu um estilo próprio e conquistou seu lugar.E isso incomodou.Incomodou como todos os que têm brilho próprio incomodam. Como só os que sabem abrir seus caminhos podem fazer.

E o que incomodou não foi a cor de Maju. Incomodou o fato de ela  ser uma mulher bela, inteligente e brilhante no que faz. Ela poderia ser branca, amarela, verde. Incomodaria de qualquer forma. Porque ela é ótima. Pessoas foscas são velas sem pavio. Na falta de chama própria, sopram para apagar a dos outros. O brilho de quem faz sucesso queima os fracassados.
Por isso não podemos negar que Maju merece o carinho e as defesas que recebeu.

Difícil é ecoar essa mesma voz em  defesa dos negros pobres. Os que, sem casa, vivem pelas ruas. Os que, sem estudo, perambulam a esmo. Os que, sem saúde, morrem anônimos nas macas públicas.
Claro que eu também sou Maju. Mas sou também os excluídos, e minha voz há de ecoar  enquanto bandido branco riquinho for tratado de “jovem” e “criança” e criança negra pobre for chamada de bandido e marginal.


Sou todos os excluídos porque não podemos negar aos nossos pobres meninos o direito à saúde,à moradia e à educação de qualidade. Negamos vez, negamos voz. Depois gritamos pela diminuição da maioridade penal deles. Importante deixar claro: só a deles.
Ninguém grita a favor da maioridade penal pensando em filhos mimados de classe alta que queimam índios na rua. Queremos que prendam os pobres, para que a gente possa usar o cordão de ouro em paz. Andar sem medo a qualquer hora por aí.

Pedimos a diminuição da maioridade penal como quem coloca grades na casa. Só mais uma proteção. Não vemos que nossos meninos são o retrato cru e nu da injusta realidade social que beneficia quem tudo tem e abandona os desvalidos.
Eles são o sintoma da sociedade cruel onde vivemos. Vivemos, votamos e nos vendamos. Somos surdos e cegos para as misérias dos que não são atendidos.
Os pobres são abandonados à própria sorte.
Sou todos os excluídos enquanto os professores fizerem greve, e apanharem nas ruas sem que ninguém se levante em seu apoio. Os professores do município do Rio estão sendo descontados até hoje, um ano depois, pela greve que fizeram. 


Sou todos os excluídos enquanto nossos filhos nascerem lindos, fortes, saudáveis e forem negados remédios básicos, exames e um olhar de dignidade aos que nasceram pobres.
O preconceito contra Maju é nojento. Precisa ser investigado e punido. Nem tenho dúvida de que serão. Se perderam na pequenez de alma que emburrece as mentes. Mergulhados no azedume que limita horizontes. Só aguardar. Não demora, já vamos saber quem foi.
Mas não podemos perder de vista que o que aconteceu com Maju é só a ponta de um iceberg podre que fecha os olhos para o que não se quer ver. Mesmo iceberg que maltrata, discrimina e escolhe como réu as mesmas e pobres vítimas que faz.
Por muitos anos dei aula para crianças pobres. Enxergo nelas muitas Majus em potencial: lindas, criativas, inteligentes, falantes. Quantas sobreviverão à falta de saúde? Às balas perdidas? À violência de todo lado? Quantas terão a chance de um futuro minimamente digno com nossa educação cada vez mais sucateada?

É fácil dizer que somos uma Maju que é linda, bem sucedida. E cheirosa! 

















Difícil é ser pobre, feio, mal vestido, fedorento, cheio de remela, sem remédio, sem aula, sem merenda, sem casa, sem família. E ameaçado de ser punido aos dezesseis pelo que não recebeu a vida inteira.
Em linguagem meteorológica, eu diria que a previsão para o amanhã desses meninos é de tempo fechado. Com direito a raios e tempestades de raivas e ressentimentos para todo lado. Não há porque se espantar. Quem planta ventos, colhe mesmo tempestades.
Sou  todos os meninos sem rosto e sem nome que a gente finge não ver.Sejamos todos nós a voz dos excluídos e quem sabe dessa forma, o tempo ameniza para o lado deles. As nuvens se dissipem. E eles também consigam, um dia, chegar a ser Maju. Essa é uma cena que eu adoraria ver.

Rosa Maria Olimpio

Brasília 6 de julho de 2015.



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