quinta-feira, 25 de junho de 2015

Cultura e relações humanas





Cultura é o conjunto de práticas de  comportamento compartilhado por um grupo.Compreendemos o elemento histórico que explica  as práticas selecionadas e perpetuadas pelo grupo como a forma certa de agir e de pensar, porque tiveram ou ainda têm sucesso, uma vez que ajudaram o grupo a enfrentar seus problemas.
Por trás desse desafio está um importante princípio do comportamento humano: somos muito influenciados pelos nossos problemas e pela aceitação que o outro tem a respeito de nós.E repetimos essa atitude em relação ao outro. Aceitar o outro desde que ele esteja em acordo com o que nós convencionamos como certo. A cultura explica nossa dificuldade de interagir com o "diferente".É importante e necessário aprender com o outro.Aceitar a diferença como aprendizagem e como crescimento emocional e intelectual é um jeito sábio de melhorar as relações humanas.

Em sua obra-O Povo brasileiro-Darcy Ribeiro constroi por meio de longas pesquisas, muito estudo e dedicação à escrita, o retrato falado de um Brasil de ontem e de hoje."Composta por uma constelação de áreas culturais, a configuração histórico-cultural brasileira conforma uma cultura nacional com alto grau de homogeneidade.Em cada uma delas,com milhões de brasileiros,através de gerações,nascem e vivem toda a sua vida encontrando soluções para seus problemas vitais, motivações e explicações que se lhe afiguram como o modo natural e necessário de exprimir sua humanidade e sua brasilidade."(1996-pág.254)  

Mas como criar uma cultura humana e humanizadora das interações afetivas e sociais?Tenho lido inúmeras sugestões, concordo com algumas e refuto tantas outras e,  na minha percepção,  erramos ao tentar encontrar modelos a serem seguidos - como se um padrão de práticas pudesse ser deslocado de seu contexto de origem e replicado em outro. Percebo que o caminho é conhecer nossa cultura  e buscar práticas que estejam em sintonia com nossa essência. Nesse sentido nós  deveríamos tentar responder a seguinte pergunta: como a educação pode favorecer o amadurecimento emocional e ajudar a tecer relações saudáveis de cordialidade e de respeito mútuo? O primeiro passo deve ser o conhecimento das crenças e dos valores que pertencem ao outro.É difícil respeitar o que nos é desconhecido.Isso pode desenvolver novas práticas ou tentar mitigar algumas outras. Mas é importante focar nos elementos fundamentais dos quais somos tecidos,sem ferir o direito do outro de tecer sua própria vida por meio de suas escolhas. 

Chico Buarque escreveu:"As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem." A cultura deve favorecer nosso desejo de mudar a forma como vemos, como pensamos, como sentimos  e como  agimos em relação ao outro. E, principalmente, não desejar fazer o inverso-desejar mudar o outro para que ele se adeque às nossas crenças e aos nossos valores.  Esse ainda é um desafio em aberto.A cultura envolve a análise de práticas que favorecem, ou não, a interatividade com outro  e nos incentiva a rever e a reconstruir nossos pensamentos, nossas falas e nossas atitudes.

A educação é a principal ferramenta de mudança da cultura, porque cultura é comportamento, e para desenvolver comportamentos nada melhor que a educação - ela não fere o grupo, ao contrário, ela o desenvolve. Porém, a educação nesse contexto deve ir muito além do que a educação tem tradicionalmente ido, em sala de aula. Sabemos, e os grandes educadores e filósofos  nos ensinaram que quem leva a inovação adiante é a educação.  Os processos educativos de mudança de comportamento devem considerar que admiramos pessoas que pensam por si, e que são capazes de tomar decisões, de transpor barreiras e riscos, de gerar ideias, enfim, que sejam ativas tanto no processo de educação quanto no processo de formação humana.

Desse modo,a educação toma para si as premissas de colaboração e participação fazendo com que a aprendizagem seja um processo que emerge de vivências, discussões e de teoria aplicada ao cotidiano.Essa educação é que tece práticas culturais em benefício da interação afetiva e da sociabilidade necessária e urgente para as relações humanas.A escola tem o poder e a legitimidade para selecionar os saberes que serão passados às crianças e aos adolescentes e pode dar voz ou não a determinados personagens, histórias locais e patrimônios culturais e transmitir ou não diferentes modos de saber e de fazer instalados na sociedade como um todo.



Rosa Maria Olimpio

Brasília,25 de junho de 2015


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