quarta-feira, 27 de maio de 2015

A vida que se tece entre Príncipes e Plebeus


                        A  repercussão do crime que tirou a vida do médico na Lagoa Rodrigues de Freitas, no Rio de Janeiro, tem sido expressada pela indignação diante da brutalidade do ato que banaliza a existência. Contudo,  tenho sido tocada pelo subtexto que norteia a informação dos jornalistas e o clamor da população em geral. Vejo ecoar um grito que ressalta, principalmente, o projeto fracassado de se ter uma vida tranquila nas grandes cidades.
                 A urgência em encontrar o culpado que ceifou a vida do nobre cidadão, (nobre por ser um ser humano, e não somente por ser doutor, ou por morar em um bairro requintado)levou os investigadores a uma favela e à prisão de um jovem. A população clama por  mais segurança pública, e bandeiras são erguidas a favor da redução da maioridade penal.Fosse a vítima, o João jardineiro, a população não teria engendrado tamanho alarde em relação a sua morte. Penso ainda  que os investigadores  não lograriam o mesmo êxito na localização e prisão do deliquente.  As atitudes e as falas em torno do fato, suscitam em mim a quase certeza de que a desigualdade social seja de fato, a marca da violência em cada canto do nosso país. Desigualdade e violência andam de mãos dadas e, infelizmente, não é  problema somente das metrópoles.Estamos diante de um estado, que apesar dos esforços, não tem conseguido diminuir a distância entre os príncipes e os plebeus da sociedade  brasileira.
    O discurso da população e da mídia impressa e falada é  legítimo, uma vez que é a expressão da dor, e  representa reações humanas  diante de vidas ceifadas. Discurso que acaba funcionando como catarse e que em nada ajuda em relação ao fato ocorrido, e em nada coopera para a diminuição desses acontecimentos , e faz com que os rancores sociais sejam cada vez mais acirrados.Um perigoso caminho vai sendo tecido junto a  essas falas opostas. O que se vê é,  de  um lado setores mais radicais afirmando que o social é mero engodo para manter os pobres no seu lugar, porque o projeto global, na realidade é a exploração dos pobres nas campanhas eleitorais. E, de outro lado,  há os que afirmam ser perda de tempo e de recursos financeiros  investir nesses pobres irrecuperáveis, cujo destino há de ser a morte ou a prisão. 
  A discussão do tema,aparentemente, politiza e fomenta o diálogo consciente entre as partes. E talvez por receio de meter o dedo na ferida, de se ater às especificidades e pontos sutis que se juntam para tecer uma realidade feia e triste, ou pelo receio de se ater à complexidade da questão humana, faltam atitudes e sobram discursos inflamados. 
  Li o depoimento-postado nas redes sociais neste fim de semana- de Preto Zezé, liderança nacional da Cufa (Central Única das Favelas) que vem das Quadras de Fortaleza, com trajetória de dedicação intelectual e de ações concretas, “Senhoras e Senhores, apresento-lhes nossos meninos-bombas!”.Esse líder lança um olhar atento e sensível  sobre o acontecimento e sua fala vai muito além de um desabafo carregado de desesperança.  Segundo ele, “esses meninos que explodem só são vistos, debatidos e lembrados quando surgem das sombras e tiram vidas que são mais vidas que as suas, aliás, suas vidas são apenas números”.
    Diante de vidas que se teceram na descrença, que nada tem a perder, porque não se sentem donos nem da própria existência, me pergunto: o que pode ser feito a favor desses jovens de modo a criar, para suas vidas, novas  trilhas rumo a novos destinos ? Penso que não podemos abandonar o social. Mas é possível e, urgente, ressignificá-lo. Sugiro que sejam tomadas ações efetivas no sentido de se inserir a criança e o jovem na vida em sociedade por meio de projetos de arte-educação.O reconhecimento do próprio valor, do pertencimento por meio de sua capacidade criadora e de sua sensibilidade. Vidas que desejam ser reconhecidas  aceitas e, principalmente, desejam ganhar visibilidade positiva.
   É sabido que o ensino regular não é suficiente para   o pleno  desenvolvimento humano. Os projetos de vida necessitam ser construídos. Inúmeras promessas foram feitas pelas entidades governamentais. No entanto,educadores, ativistas sociais e pesquisadores apontam sempre a carência  de ações significativas.São muitos os jovens que estão no caminho errado. Encarcerá-los  ou matá-los seria solução provisória, porque outros estão sendo tecidos em seus cantos. Isso mesmo,  outros virão.E não é porque nasceram  assim. O fato é que não foram priorizados no espaço em que  vivem e tecem seus destinos.
     Este não é o desabafo de uma plebeia louca defendendo os seus iguais. Penso e, me compadeço dos príncipes acuados em seus castelos e jardins, com medo dos marginais que os rodeiam.Também eles  são vítimas desse contexto social em que a insegurança e o medo impedem a tessitura de uma vida tranquila.
   Sou a favor da paz tecida e entretecida por atitudes conscientes e eficazes. Ações articuladas entre os governantes e a população em busca do equilíbrio entre as classes sociais em nosso país. É viável a construção de uma sociedade mais humanizada, que não seja enredada entre vilões e mocinhos, herois e bandidos, cidadãos e marginais, cujo antagonismo seja tecido pelo dinheiro.Sabemos que há muito bandido entre os príncipes assim como é possível encontrar herois entre os plebeus. 


3 comentários:

Willmondes disse...

Contundentes colocações, Rosa.

Abraço amigo!

rosadaserra disse...

São reflexões acerca do tema, meu amigo.
Ainda fervem incertezas em minha cabeça.
Grata pelo carinho.Boa noite.
Rosa Maria

rosadaserra disse...

Will, acrescentei 2 parágrafos ao texto.
Se puder (e quiser) leia e comente, por favor.
É importante para mim, sua opinião.
Abraço amigo!

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