sábado, 23 de maio de 2015




Denis Luiz de Souza vive há 15 anos no aeroporto de Guarulhos.

Nos últimos 15 anos, Denis Luiz de Souza, sem sair do aeroporto, viu o Brasil trocar três vezes de presidente e o Corinthians ganhar uma Copa Libertadores, duas Copas do Brasil, dois mundiais de clubes e duas ligas.
Esse rapaz encorpado, com aparência de adolescente, acaba de fazer 32 anos e, desde 2000, mora nos corredores do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. Denis nunca subiu em um avião, mas conhece cada esquina e cada trabalhador do maior aeroporto da América Latina: do agente da Polícia Federal, com o qual comenta os gols da rodada, até o empacotador de malas; da coordenadora do terminal 2, que o conhece desde que era apenas um menino, a todos os outros que, como ele, sem casa, moram nesse lugar onde o tempo parece ter parado.difícil entender o que se passa pela cabeça de Denis.
Suas frases são curtas, incompletas, não distingue a diferença entre um mês e uma semana e não sabe ver as horas se não for em um relógio digital. Não sabe ler, embora passeie com um jornal debaixo do braço, e não sabe citar nenhum destino internacional. Não sabe nada sobre o que ocorre fora do aeroporto, exceto as façanhas e desgostos do Corinthians. Pode ser que os supostos maus-tratos, infligidos por sua madrasta e que relatou aos mais próximos, tenham causado sequelas psicológicas, mas ninguém sabe na verdade: o serviço social da prefeitura de Guarulhos nunca o visitou. Diz que não vai ao médico desde que era menino. “Denis precisa de um tratamento psicológico ou psiquiátrico, ele vive em seu mundo, mas precisa de um diagnóstico, de que alguém cuide  dele”, lamenta Flavio Faria, que trabalha numa seguradora do aeroporto há 20 anos.
Órfão, Denis chegou ao aeroporto em um ônibus depois da enésima bronca em casa, em uma manhã indefinida há 15 anos. Pode ser que seja mais. Ou menos. Ele perdeu a noção do tempo, por isso foram os funcionários mais veteranos que calcularam a data aproximada de sua chegada. Um dia decidiu fugir, conta Sheila, uma de suas mães adotivas da loja de celulares Vivo do terminal 2. Nunca mais voltou para casa. As vendedoras lhe dão comida, lavam sua roupa e, quando precisa, guardam suas poucas coisas em uma das cabines de telefone do local.Quase todos os funcionários do aeroporto se dedicaram à proteção do Corintiano, apelido que ganhou por sua paixão pelo time. “De uma forma ou de outra, você acaba se envolvendo. Sempre que me pediu alguma coisa, lhe dei; não pude dizer não”, conta Faria, que leva marmitas para Denis uma vez por semana. “Faz favores para todo mundo, é muito honesto, conversa e brinca com todos”, descreve Talita, garçonete da cafeteria onde ele toma café.Denis vive de caridade, mas também de ajudar aos outros. Os empregados do aeroporto recorrem a ele para pagar as contas de luz, jogar na loteria, comprar remédios e até pagar o aluguel. Em troca, recebe umas moedas que, em outros tempos, quando os preços eram outros, destinava à sua paixão: ver o Corinthians jogar no estádio do Pacaembu.
Apenas quando os últimos voos internacionais decolam, já no começo da madrugada, Denis parece ficar sozinho e vai dormir. A cama é sempre a mesma, um espaço de três assentos na sala de espera do terminal 2, um cobertor azul e um travesseiro desbotado de flores. Sua dieta se resume a arroz com feijão e, com sorte, um café com leite de sete reais, cortesia do McDonald’s. Tomar banho no aeroporto por 47 reais é algo que Denis não pode se dar ao luxo todos os dias, por isso que a higiene pessoal completa, no local ou na casa de algum conhecido, é restrita aos sábados.

“Gostaria de ter uma casa, com um quarto da hora, sair desta vida seria bom”, diz Denis. “Mas aqui estou tranquilo”, acrescenta. “Todo Natal, um comandante paga uma noite em um hotel para que ele durma em uma cama e tome um banho adequado. No ano passado, ao voltar, nos emocionou ao dizer que enquanto comia um frango à milanesa do serviço de quarto, se lembrou da gente, que gostaria de dividi-lo, por tudo o que tínhamos feito por ele”, contam às lágrimas suas madrinhas da loja de celulares.

“Ele precisaria de um lar, mas não acredito que sairia daqui, entende? Acho que tem medo de ir embora e não poder voltar depois”, afirma a mais jovem das empregadas

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