sexta-feira, 15 de maio de 2015

CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLINGUÍSTICA EDUCACIONAL AO PROCESSO DE LETRAMENTO NO ENSINO FUNDAMENTAL

1-Contribuições da sociolinguística educacional ao processo de letramento no ensino fundamental. Publicado em: O ensino de língua portuguesa na contemporaneidade em diferentes perspectivas1ª, 2014, p. 37-54.



ARTIGO: CONTRIBUIÇÕES DA SOCIOLINGUÍSTICA EDUCACIONAL AO PROCESSO DE LETRAMENTO NO ENSINO FUNDAMENTAL
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Marcia Elizabeth Bortone



Letramento escolar no Brasil


A escola no Brasil tem diante de si grandes desafios. Um deles é o ensino da leitura e da escrita que ainda encontra inúmeros entraves para seu pleno domínio pelos alunos, como demonstram os dados oficiais.
Países como o Brasil, em desenvolvimento, valorizam os discursos fortemente influenciados pela linguagem escrita e "científica", que se respalda na descontextualização, privilegiando os discursos analíticos, abstratos, neutros, argumentativos e formais, o que retrata a lógica aristotélica do modelo racional de pensamento, daí porque a constituição e perpetuação de um discurso que se auto denomina científico, calcado nos modelos dissertativos/argumentativos e daí porque também ocorre a rejeição da modalidade narrativa, subjetiva e concreta, que caracteriza o discurso da oralidade. Dessa maneira, o modo de inserção dos membros "pouco letrados" na sociedade tem a marca da exclusão, em um sistema em que o pleno domínio da leitura e da escrita e de outras práticas letradas é um pressuposto da constituição das competências individuais necessárias e valorizadas nessas sociedades.
Há ainda, no Brasil, uma grande parcela da população que se alfabetizou, mas não incorporou as práticas de leitura e escrita, não lê livros, jornais, não sabe redigir um ofício, preencher um formulário, escrever um telegrama, encontrar informações na lista telefônica,
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entender uma bula de remédio, ou seja, a maioria da população brasileira ainda se baseia em um discurso calcado nos parâmetros de oralidade, produzido com forte apoio contextual e alto grau de contingência. É necessário buscar respostas na histórica apartação social neste país, agravada pela igualmente histórica má distribuição de renda, bem como em nossa urbanização tardia e descontínua.
Nos quinhentos e poucos anos de história brasileira, a sociedade sempre esteve perversamente dividida entre grupos sociais com acesso a práticas letradas e grupos que nem sequer dispunham dos recursos mínimos para tangenciar tais práticas.
Os brasileiros que têm pouca escolarização e consequentemente pouco contato com a cultura de letramento podem ter muita dificuldade para entender o discurso de um evento de letramento, como o de um jornal televisivo, ou uma entrevista de um político ou e um cientista no rádio ou na televisão. Essa dificuldade de entendimento tem de ser levada em consideração porque representa um forte entrave para a inclusão social da população iletrada em nosso país. Contribui também para criar nessa população um sentimento de insegurança linguística. Como agravante dessas situações há o fato de que nossas escolas não estão preparando devidamente os educandos para que sejam, ao final do ensino médio, produtores de textos e leitores proficientes.

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