terça-feira, 12 de maio de 2015

"Que a educação ofereça as condições para eles fazerem o que sonharem".

Professora que descobriu gênio na periferia de SP diz que precisa fazer “arte” para ensinar

Aluno foi aprovador no MIT e em Stanford; ela investe em jogos e foca nas provas

Professora Andreia ao lado do aluno Gustavo, aprovado no MIT.
Foto: Arquivo pessoal de Andreia

Nascida na periferia de Itatiba, interior de São Paulo, a professora de matemática Andreia Tulon usa sua própria história de vida como exemplo para os alunos da Escola Estadual Miguel Munhoz Filho, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo. O resultado desse trabalho árduo de ensinar sobre as contas e sobre a vida foi poder identificar em Gustavo Torres da Silva, 17 anos, um pequeno gênio depois de muito incentivo. Ele foi admitido no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos Estados Unidos.Gustavo não foi o único. Para isso, Andreia precisou ensinar matemática por meio de jogos, de olimpíadas e muito foco em provas. Formada em matemática com mestrado em educação, ela diz que o grande desafio é prender a atenção das crianças.
Gustavo não foi o único. Para isso, Andreia precisou ensinar matemática por meio de jogos, de olimpíadas e muito foco em provas. Formada em matemática com mestrado em educação, ela diz que o grande desafio é prender a atenção das crianças.
— Se você perguntar dentro da periferia o que as crianças querem ser quando crescer, a maioria vai te responder: jogador de futebol, cantor de funk, de pagode. Eles têm exemplos de ‘sucesso’ sem que se tenha sido necessário estudar, por isso nem sempre dão valor. Mais importante que saber ensinar e saber sobre matemática, eu preciso impor respeito para prender o interesse dos alunos. É quase uma arte. É o mais difícil.
Andreia atrai pela afinidade de vida. Filha de pais semianalfabetos, ela saiu do interior para cursar matemática com uma bolsa de estudo integral em uma época sem tantos recursos, em 1998.
— Minha mãe só estudou até a primeira série. Meu pai até a quarta, ambos operários. Eu sempre contei minha história para os alunos e me colocava como exemplo.
Andreia é concursada pelo governo do Estado desde 2003. O primeiro "gênio", ela descobriu em 2008. Inscreveu Michael Oliveira no Ismart [Instituto Social para Motivar, Apoiar e Reconhecer Talentos] e fala com orgulho da trajetória do estudante.
— O Michael estuda administração pública na FGV, sendo que fez parte dos estudos em Londres.
Como atua dentro da periferia, Andreia relata que já viveu agressões verbais, presenciou agressões físicas contra os colegas e precisa lidar diariamente com o desabafo dos alunos sobre suas realidades de vida. Ela define essa condição como um cansaço emocional. Conquistas como a do Gustavo e Michael são um grande respiro dentro dessa rotina escolar. Os alunos passaram a se interessar mais e perguntar para a professora se também terão alguma chance como a dos colegas.  
— Eu não quero desistir. Quero ver meus alunos da periferia direto para as melhores universidades do mundo. Sem que seja preciso intermediários, nem nada. Que a educação ofereça as condições para eles fazerem o que sonharem.
Andreia concedeu entrevista ao R7 após o expediente na escola estadual. Conversa rápida antes da academia e do curso de inglês. Ela não para. Ainda diz que tem uma gata em casa, que chama de "filha peluda".
— Estou desenvolvendo o aprendizado por meio de jogos e quero avaliar depois o rendimento. Tudo um processo de melhora didática. 
Além do MIT, Gustavo foi aprovado na Universidade Stanford, para cursar engenharia física e aguarda resposta da Universidade de Columbia.

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