quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Memorial do Convento






100% lido e 100% amado. Um deleite. Grata, Silvio Diogo.


RESUMO

O rei D. João V e a rainha D. Maria Ana anseiam por filhos, para que se cumpram os deveres de sucessão real. Recebem, certa noite, a visita do Frei Antônio de São José, que os anima com a previsão de um filho em breve, desde que o rei cumpra a promessa de erguer um convento dedicado à ordem dos freis franciscanos em Mafra.  
A narrativa é tomada pela presença de Baltasar Mateus, homem humilde, soldado dispensado da guerra de sucessão espanhola, que caminha até Lisboa na esperança de receber uma pensão por danos de guerra. Logo que chega à cidade, encanta-se pela jovem Blimunda, moça vidente que vê a vontade das pessoas e perdeu a mãe pelo castigo dado pelo Tribunal da Santa Inquisição, que queimou a mulher na fogueira. Relacionaram-se com o auxílio do padre Bartolomeu, amigo da família.  
Logo, Bartolomeu confia a Baltasar o plano de construir um objeto voador chamado “passarola”. O padre arruma a Sete-sóis (apelido que recebeu por só conseguir ver pela manhã) trabalho na construção do objeto. Após a partida do padre Bartolomeu para Holanda, Sete-sóis e Blimunda vão para Mafra. Lá trabalham com seus pais, antes de Baltasar começar a construção do convento de Mafra. 
Quando Bartolomeu retorna da Holanda, retomam o projeto e conseguem, finalmente, voar. O padre enlouquece e foge da inquisição. Baltasar resolve, depois de muito tempo, reparar a passarola. Desaparece por nove anos. Blimunda o procura por todo esse tempo, descobrindo, por seu poder de vidência, que o amado seria queimado pela inquisição, da mesma maneira que sua mãe.



Sobre o autor

Único escritor de língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel de literatura, José Saramago é um dos mais importantes autores contemporâneos. Suas obras impressionam pela complexidade dos personagens, pela força do enredo e também pela estrutura linguística. Foi adaptado para o cinema, o teatro e a televisão. Toda sua produção sempre carrega um sentido crítico à miséria, pobreza e desigualdade social.



A narrativa do romance Memorial do Convento, escrito pelo consagrado autor português José Saramago e lançado em 1982, destaca-se pela sua mordaz crítica à história de Portugal. Sua maior qualidade é o rigor histórico, aliando de maneira irretocável o tempo histórico (período do reinado de D. João V) à construção de personagens fictícios, que representam tão bem a crítica que o autor encaminha não só à sociedade portuguesa à época da monarquia, como também em seu tempo histórico. O livro é a metáfora do capitalismo. 


Memorial do Convento deve ser lido tendo-se em mente qual era o período histórico que atravessava Portugal na época de sua publicação e quais as posições políticas de Saramago. A narrativa começa pela exposição da rotina do palácio real no início do século XVIII, em que se vê o rei e a rainha como caricaturas de apatia e descaso, alheios às necessidades do povo português.  
Logo em seguida, acompanha-se a saga de Baltasar Mateus (Sete-sóis) até Lisboa, com a intenção de pedir indenização de guerra. Esse quadro, aliado ao quadro da vida ordinária lisboeta, pode ser entendido como o protótipo dos paradigmas de relação que Saramago constrói em seu texto. O livro, nessa chave, é a metáfora da história de Portugal, enfatizando-se a desproporção entre os desígnios da corte – suas preocupações egoístas, sua hipocrisia e autoritarismo – e a história do povo, que construiu com suas mãos a nação.  
A narrativa é construída de forma a resgatar sempre figuradamente elementos e quadros relevantes à história portuguesa. Se, de certa forma, o convento de Mafra funciona como metonímia de Portugal, toda a narrativa pode ser entendida como uma metáfora dos anos de ditadura salazarista. O fato de Baltasar ser maneta, por exemplo, apresenta-o como personificação do povo, que construiu com as próprias mãos a nação e sem nada ficou.  
Sua capacidade de ver ao sol coloca-o como representação da esperança, ao passo que Blimunda, enxergando profundamente pela escuridão, presentifica o conhecimento das dificuldades humanas. Sua possibilidade de resgatar vontades pode ser lida como um recolhimento de esperanças. Não à toa, o que dá a todos força para seguir na construção da passarola é o cravo de  Scarlatti, que faz clara alusão à Revolução dos Cravos. Se nem a Bartolomeu, figuração da fé ingênua, nem a Baltasar, esperança e fé de um povo, a morte escapa, cabe a Blimunda um papel crucial: organizar as vontades, fazê-las convergir, o que, afirma o romance, é essencial para a liberdade (sentido da passarola).

QUEM SÃO...
 Baltasar Mateus (sete-sóis): Ex-soldado na guerra de sucessão do trono espanhol, onde perdeu a mão. Apaixonado por Blimunda, amigo do padre Bartolomeu, compartilha com esses a construção da passarola. Açougueiro e construtor do convento de Mafra. Morre na fogueira da inquisição.  
- Blimunda: Mulher vidente, apelidada de sete luas. Apaixonada por Baltasar Mateus e amiga do padre Bartolomeu, ajuda na construção da passarola. Tem o dom de ver a vontade das pessoas. Procura Baltasar desaparecido, que encontra após nove anos, já condenado à morte.  
- Bartolomeu: Padre amigo de Blimunda, de sua mãe e de Baltasar. Tem o projeto de construir um objeto voador, a passarola. Vive em busca de novidades que lhe façam voar. Depois disso, desequilibra-se psicologicamente.  Foge para a Espanha, perseguido pela inquisição. 
- D. João V: Rei de Portugal, casado D. Maria Ana Josefa. É um homem extremamente hedonista e megalomaníaco, tendo por passatempo a construção de uma réplica da basílica de São Pedro. Ordenou a construção do convento de Mafra não por fé, mas sim por vaidade.  
- Dª Maria Ana: Rainha, mulher de D. João V, anseia, no início da narrativa, por um filho. É submissa, inexpressiva e de grande temor aos ditames da igreja. Sente grande atração por seu cunhado, D. Francisco, com quem sonha todas as noites. 

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