quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Pequena obra-prima

Pequena obra-prima

Por: Paulo Moreira Leite

Quem assistiu "A Fita Branca" sabe que o diretor Michael Haneke não perde tempo com futilidades.


Faz um cinema direto e profundo, que não teme a dor nem outras formas de sofrimento humano. 
“Amor” é uma pequena obra-prima.  Os personagens  são exibidos com crueza. Haneke não procura o escandaloso nem o espetacular. Conta sua história de modo rigoroso – e nos ensina como é difícil o exercício de contar uma história humana em toda  grandeza, com todo respeito pela verdade dos personagens.
Não há diálogos superficiais nem frases de efeito. As sequências não pretendem produzir alívio depois de muita tensão. Haneke não tem pressa. Tranca seus dois protagonistas num apartamento  sem objetos decorativos nem acessórios para distrair a atenção.
São 127 minutos dedicados à vida humana em sua forma pura, sem enfeites, sem falsas esperanças. Octogenários, com as manias, doenças e comportamento próprios da idade, os personagens principais não se enfeitam para aparecer na tela. Estão ali – dolorosamente.
Seria um inferno claustrofóbico, caso Haneke não tivesse capacidade de concentrar o olhar no que é humano, precioso e perecível.  
A vida e a morte passeiam pelo filme, como uma consciência incerta e imprevisível, como os movimentos de uma pomba que, vez por outra, entra pela janela.
“Amor” parece nos dizer que há uma forma de decência possível – desde que se deixe de lado os medos pequenos, os auto-enganos que prolongam nossas ilusões.
Encarnado de forma magistral por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, “Amor” só dispensa aquilo que é dispensável.

 

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