terça-feira, 29 de março de 2011

Estamos com fome de amor

Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar: "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão". Pretensiosamente digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias.

Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas. E saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.

Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dance", incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida?

Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormir abraçados, sabe, essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega.

Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção. Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.

Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos Orkut, o número que comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada "Nasci pra ser sozinho!".

Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.

Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa. Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.

Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí? Seja ridículo, não seja frustrado, "pague mico", saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta.

Mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois.

Quem disse que ser adulto é ser ranzinza? Um ditado tibetano diz que se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele. Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: "vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida".

Antes idiota que infeliz!
Arnaldo Jabor

quarta-feira, 23 de março de 2011

QUEM DIZ QUE O AMOR É FALSO



POEMA DE: Luís Vaz de Camões

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce e é piedoso;
Quem o contrário diz não seja crido:
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens e inda aos deuses odioso.

Se males faz Amor, em mi se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de amor;
Todos estes seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.

terça-feira, 22 de março de 2011

Jaguartribais poema de Edmundo Diógenes

És caminho das águas milenares

que se arrastam pelos campos tribais,

dando aos povos urbano e rurais

o sustento às culturas seculares;

essas margens de motos e muares,

e de cruzes do tempo dos tropeiros

contam casos de grandes cangaceiros

e de tantos heróis trabalhadores.

Jaguaribe conserva os seus valores,

na memória dos seus filhos ordeiros.

2

Aboiando nas matas, os vaqueiros

estremecem num brado, o pé da serra;

os motores, nas estradas de terra

vêm trazendo seus tambores leiteiros;

o trabalho dos loucos motoqueiros,

e os queijeiros com a técnica na mão

nos dão queijo como alimentação

e incentivo ao cultivo da pastagem,

é a fé no trabalho, é a coragem,

é o progresso adentrando no sertão.

3

O trator descompacta o duro chão,

surge o grão donde tudo era poeira;

ao estudos da prática pesqueira

nos conduzem a boa produção;

quem trabalha recebe educação

à inserção de uma tecnologia;

uma parte fala de Economia

e d’um Meio Ambiente sustentável;

outra parte se torna abominável,

intragável ao termo “Ecologia”.

4

O futuro que a gente propicia

não está no veneno ou na queimada;

não quer margem de rio, assoreada

nem criança de barriga vazia;

não podemos viver só de utopia,

todavia se quer realidade

somos frutos da irracionalidade,

na verdade somos seres tribais,

sabedores das armas culturais,

que se atiram mostrando outra verdade.

quinta-feira, 10 de março de 2011

“Não vale a caminhada do homem só.”

Abaixo a solidão dos que se isolam para não repartir: nem o pão, ou o fruto, que preferem ver apodrecer a doá-los aos necessitados; nem a palavra que preferem evolar-se no ar, ou prendê-la nos lábios a transmiti-la; nem o afeto que preferem murchar-se no coração a, com ele, aquecer o coração dos sofredores; muito menos o sorriso, pois o querem congelado para o não sensibilizar pelo sorriso do outro.

Abaixo a solidão dos que se isolam para não receber. Criam, dentro de si, a barreira do orgulho. Por isso rejeitam o apoio do outro: ignoram a voz do outro, o sofrimento do outro. São sós e querem vencer sozinhos, movidos pela petrificação dos que não dividem, nem mesmo os momentos de alegria. Comemoram sós, face ao espelho, refletindo o sorriso igual, o gesto igual, reflexos de si mesmos. Sem permuta de nada.

Abaixo a solidão dos entristecidos sem esperança. Sem coragem de agarrar a mão do próximo e pedir-lhe que os conduza, numa caminhada diferente, rumo ao encontro que os realize. Sem coragem para abandonar a trilha do des-caminho, para seguir outros passos, mais sólidos, mais seguros.

Quero cantar, hoje, a caminhada dos homens-irmãos. Dos que se sabem apenas passageiros de uma viagem com destino certo. Dos que não se julgam heróis. Nem semideuses. Muito menos imortais. Dos que sabem ver, nos olhos do outro, reflexos dos próprios olhos, com os mesmos anseios, as mesmas procuras, as mesmas dúvidas, as mesmas fraquezas, as mesmas esperanças.

Quero cantar, hoje, a caminhada dos que sabem “chorar com os que choram; alegrar-se com os que se alegram”. Dos que sabem despojar-se das peias da mudez, para libertar-se pela luminosidade da palavra.

“Não vale a caminhada do homem só.” Ninguém poderá ser feliz sozinho. Porque não passará de projeto. A verdadeira vida se faz de permutas: o Eu com o Outro. Caso contrário, haverá apenas o Eu+Eu, noves fora=zero.

Nota: Texto do livro Temas do Cotidiano de Terezinha Hueb de Menezes (Uberaba-MG)


thuebmenezes@hotmail.com