quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O luto não é normal


Aproveitando o Dia de Finados, dedico as reflexões de hoje a todos aqueles que, por motivos diversos, têm vivido seus lutos de forma consideradas fora dos padrões normais.

Para alcançar esse objetivo, cumpre-nos iniciar relembrando que luto normal é aquele em que o enlutado cumpre satisfatoriamente as chamadas tarefas do luto que são: aceitar a realidade da perda, elaborar a dor dessa perda, adaptar-se novamente à vida mesmo com a falta da pessoa que faleceu (ou foi embora...), reposicioná-la em termos emocionais e continuar vivendo a própria vida.

Em suma, essas tarefas significam que por mais amada tenha sido a pessoa que faleceu e por mais que doa aceitar a sua partida, é responsabilidade de quem fica continuar vivendo de forma saudável.

Um luto se complica e se torna patológico quando o enlutado não consegue cumprir essas tarefas por motivos que aqui não temos espaço para descrever e “empaca” sua vida sem conseguir tocar em frente.

Dessa forma, uns tornam o seu luto crônico a exemplo de uma ferida que nunca fecha e continua infeccionada eternamente. Lembram-se das viúvas do passado que nunca deixavam seu vestidinho preto?

Outros não aceitam a realidade da perda e conservam intactos os pertences da pessoa falecida como se ela fosse novamente utilizá-los e choram anos a fio sem deixar que o tempo realize o seu trabalho.

Há ainda aqueles que se portam de maneira heróica e “forte” após uma perda e daí algum tempo, desabam por um motivo simples, vivendo o que chamamos de luto adiado, suprimido ou retardado.

Não podemos nos esquecer de citar as reações exageradas de luto quando uma pessoa enlutada vive os sintomas que seriam normais num processo de luto de forma exagerada ou dramatizada.

Por outro lado, há aqueles que vivem o chamado luto mascarado sem perceber que sintomas e comportamentos que estão vivendo têm relação com a perda que estão enfrentando.

Temos ainda a citar os lutos não autorizados ou não reconhecidos pela sociedade. Já observou como tentamos fazer que uma mãezinha que vive um aborto espontâneo não senta sua dor porque “o bebê nem chegou a nascer”? Todos nós conhecemos também alguém que não pode gritar ao mundo a dor da perda de um amante com o qual mantinha uma relação secreta, sob pena de fazê-lo e ser recriminado.

São esses lutos adiados, exagerados, camuflados, reprimidos, cronificados, negados ou evitados que impedem um enlutado de retomar sua vida e que se constituem, conforme comentamos no artigo passado, indicações para a Terapia do Luto.

Se você leitor, vem vivendo as dores de uma perda, mas percebe que a cada dia ela se torna um pouco mais leve, que cada dia que passa você chora um pouco menos, que o tempo está favorecendo aos poucos a retomada de seu trabalho e de sua vida rotineira e se você não se reconhece nos quadros acima descritos, é grande a possibilidade que esteja vivendo o seu luto de forma normal e a boa notícia é que quando menos perceber, o seu sol terá voltado a brilhar...

Vera Lúcia Dias (Psicóloga)

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