sexta-feira, 5 de novembro de 2010

DIA NACIONAL DA LÍNGUA PORTUGUESA





Ave, Língua Portuguesa!
Wânia de Aragão-Costa



“Art. 1o É instituído o Dia Nacional da Língua Portuguesa a ser celebrado anualmente no dia 5 de novembro, em todo o território nacional.”

Mais um Dia Nacional?

Seria, se não fossem os mais de 185 milhões de brasileiros, os nove milhões de africanos, os 11 milhões de portugueses que a usam diariamente. Seria, se uma língua, qualquer língua, pudesse ser sem aqueles que a falam. Seria, se dela não precisássemos para trabalhar, estudar, conversar, amar, viver... 12 meses por ano e não apenas em um Dia Nacional.

Que língua é essa que nos identifica, une, encanta? É aquela que tem tantas palavras, tanta melodia, tantos sentidos, que em nós se enrosca 24 horas por dia, sempre atendendo a cada pensamento que se queira partilhar. Nós, brasileiros, honramos o vernáculo com nosso talento para dizer. Somos fluentes, criativos, gostamos das nossas mais de 390 mil palavras e, tal coração de mãe, acolhemos as dos outros que, abrasileiradas, entram no “mexido” verbal. A Língua Portuguesa é sistema rico de recursos gramaticais que fortalecem a fala e o texto. Ela também é celeiro de possibilidades expressivas, retóricas, artísticas, técnicas, científicas.

E aí, Brasil, 365 dias nacionais da Língua Portuguesa!

Um pouco surpreso com as potenciais diferenças entre “o que eu queria dizer”, “ o que ficou dito/escrito”, “o que o outro leu”, “o que quase ninguém entendeu” e “o que acabou acontecendo”, o Brasil vê-se ainda enredado nos tempos e modos verbais (Presente? Passado? Futuro?), nas questões de gênero (“a presidente” ou “a presidenta”?), nos neologismos (“Mas, essa palavra existe?”), nos estrangeirismos (“Tem delivéri?”), na definição dos indicadores de proficiência ao ler e escrever (alfabetizado, alfabetizado funcional, letrado, transletrado?).

O que o Brasil ainda não vê é o cotidiano tormento de estimados 80 milhões de brasileiros impedidos da cidadania plena porque compreendem muito pouco do que é dito ou foi escrito, que não conhecem seus direitos, seus deveres. São brasileiros sem poder para usufruir da literatura vigorosa em Português ou das informações a que somente se pode ter acesso se letrado digital; são aqueles que vivem sem saber o que estão assinando ou com que se estão comprometendo (“É só assinar o papel aí!”). Falta a homenagem do Brasil à Língua Portuguesa: Políticas e Ações efetivas de acesso.

Urge, então, que se crie o Instituto da Língua Portuguesa dedicado a inventariar e descrever nossas escolhas linguísticas coletivas; a registrar usos contemporâneos do vernáculo; a pesquisar o que o brasileiro precisa de saber e o que a escola ensina sobre o Português; a armazenar e analisar dados, indicadores; a desenvolver conceitos e metodologias de inclusão verbal, com o emprego das tecnologias já disponíveis a muitos brasileiros; a rever as regulamentações do idioma.

Ave, Língua Portuguesa! Vida longa e próspera!

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