terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sobre etapas vencídas
















Autora: Vera Lúcia Dias (Psicóloga)


Concluí, nesse final de semana passada, mais um curso de aprimoramento profissional, que durou exatamente o tempo de uma gestação. Foram nove meses convivendo com os expoentes nacionais da Tanatologia – ciência que estuda a morte.
Foram ao todo nove mil quilômetros rodados – Uberaba, São Paulo, Uberaba –, o suficiente para pensar e repensar a vida.
Éramos cinquenta participantes e, aproximadamente, cinquenta professores, vindos de diferentes lugares do Brasil e de diferentes fazeres. Psicólogos, médicos, engenheiros, músicos, arquitetos, jornalistas, enfermeiros, assistentes sociais e outros profissionais, todos questionados por estarmos em um curso como esse. Aliás, mais que questionados, suspeitos de sermos portadores de alguma patologia, a de ter coragem de se interessar por um tema do qual todos se esquivam...
Fiquei a pensar, durante minha viagem de volta, na satisfação que experimentamos quando conseguimos cumprir uma tarefa para a qual nos propusemos e o quanto nos enriquecemos com isso. Lembrei-me que, um ano atrás, fazer um curso com Dr. Franklin Santana, na USP, era apenas um anelo, que abracei como um projeto para 2010, e concretizá-lo foi como saborear uma fruta madura.
Pensando em fruta madura, lembrei-me das estações do ano, de jabuticabas, mangas, uvas e morangos, de períodos e etapas que vamos cumprindo ao longo de nossa vida, cada um a seu tempo.
Pensando em tempo, lembrei-me de um texto bíblico que, em minha opinião, é um dos mais sábios. Tão sábio que foi escolhido como abertura da minha dissertação do Mestrado e do meu livro, que está para ser lançado. Ele fala que, debaixo do sol, há um tempo para tudo. Tempo pra unir e para separar. Tempo para costurar e tempo para rasgar. Tempo para semear e tempo para arrancar. Tempo para rir e para chorar. E muitos outros tempos contraditórios entre si.
Não precisamos ir longe para compreender essa alternância de estações. Quem nunca se surpreendeu com o sol claro após uma chuva forte? Quem nunca se alegrou com a madrugada que surge após uma noite difícil? Quem nunca se descobriu sorrindo novamente depois de uma daquelas perdas ou separações que parecem ter levado parte do nosso coração?
Debaixo desse sol não há tristeza e nem amargura que dure para sempre. Assim como as árvores se tornam novamente verdes e floridas depois de terem perdido suas folhas, nosso coração consegue cicatrizar as feridas mais profundas.
Aprender a enfrentar os tempos difíceis com valentia é uma arte. Principalmente se o fizermos sem lhes dar dimensões e durações exageradas, sem dramatizar, sem nos colocarmos na posição de vítimas, pois, afinal de contas, a vida não é, nunca foi e nunca será sinônimo de primavera infinda e os momentos penosos existem na vida de qualquer um.
Essa crônica é dedicada a todos aqueles que estão vivendo em momento de tempestade e não conseguem se lembrar dos dias de sol!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O amor


















Normalmente, os escritores escrevem para seus leitores. Em consequência, muita coisa escrita é pensada, elaborada, por vezes "floreada" para impressionar ou agradar ao leitor. A verdade verdadeira, aquela íntima e pessoal... fica lá dentro, guardada no tesouro de cada um.

Esta produção filosófica é de minha realidade e observação: eu mesma já escrevi crônicas consideradas interessantes e agradáveis, próprias para uma fase de minha vida e geração. Acontece que os anos passam... e como passam rápidos! Em consequência, a vida é também passageira. Eu e nós todos viajamos por uma estrada cheia de variedades, de surpresas, observações e aprendizados.

Tem gente simples no seu viver, a quem classifico como “rolos de arame farpado morro abaixo”. São pessoas de poucos sentimentos, desinteressadas e desatentas a tudo que não as afeta ou emociona. Sofrem poucas dores, mas aproveitam pouco as emoções e os amores. Quando “vão embora”, deixam pouca lembrança. Não vale escrever nada para elas.

Agora,porque vou chegando ao fim da minha experiência e idade, resolvi escrever esta crônica de revisão sobre o amor, que, apesar de tudo, ainda é a única coisa realmente de valor para a pessoa que tem alma, coração, sentimentos. No mais simples e primitivo, o prazer é a finalidade da existência, desde os animais até a espécie humana.

Começo dizendo que é mentira aquela história de que “eu vivo para os outros, meu prazer é distribuir felicidade...” Esta frase só vale e serve para quem recebe e dá amor, para quem está feliz com a vida. Em meus mais de 20 anos de sala de aula, assisti a todos os filmes das vidas humanas que por ali passaram. Sim, meu amigo, porque um professor não trata só da leitura e da escrita da palavra. Minha profissão tem tudo a ver com a escrita da hstória de vida de cada um de meus alunos. Cada qual a seu modo. Uma história de amor. História de falta de amor, de abandono, de banalização da palavra, tratando-a como sinônimo de paixão, sexo,(que fazem parte do amor, mas não é o amor).Professor de verdade não cuida só de conteúdo programático. À sua frente estão pessoas. Seres humanos, que tem sentimentos importantes na sua vida: o medo, a dor, a insegurança... e coisas de que nem eles suspeitam, mas são importantes, para que eles se construam, ao construirem seus textos.

De passagem: na semana passada, revi uma dessas ex-alunas.Enquanto ela falava, eu revisava suas histórias... Aos vinte anos, uma crise de dor de cabeça com vômitos... Ela tinha arranjado um namorado que a mãe detestava... Após uns cinco anos de casamento, estava feliz, mas com medo de varizes da gravidez, feiúra nas pernas, coisa horrível... Depois de anos, a crise do ciúme e desatenção matrimonial, uma colite rebelde que nada consertava... Depois a sua própria filha, com namorado indesejável; lá vem enxaqueca e dores no coração. E vai por aí afora o ser humano, sempre mistura emoções com as doenças na sua trajetória humana.

Os médicos, com competência, cuidavam de suas doenças físicas, mas poucos a conheciam em sua vida de amores e desamores. Interessante – pensei – como são diferentes os prazeres e objetivos que fazem a felicidade ou a infelicidade na vida. Resumi tudo no título da crônica. Posso escrever um livro sobre estas quatro letras, punhados pessoais da minha vida e outras vidas com que convivi... e convivo. Para ser breve.Hoje,escrevo-lhes que a vida só pode ser feliz se houver amor. Sem amor, ela será sempre drama e infelicidade, sempre uma dor.Psicológica e, frequentemente física.

Acredito que o fator felicidade é totalmente diferente no homem e na mulher – e isto nem sempre é levado em consideração. Resumindo, para a maioria dos homens, é importante ter sucesso, ter fama e fortuna, considerações sociais e superioridade. Para a mulher, isso tem valor, porém menor. O seu mundo está ao seu redor: cuidar de sua beleza, juventude, sua casa, suas roupas e novidades, as compras no shopping, anéis, adereços, ser notícia... Se forem sábios e generosos, casais podem conciliar seus interesses e preservar o amor. Se cada um “ficar na sua” e nas consequentes cobranças da vida, o amor vai empalidecer, adoecer, podendo até morrer.É algo assim!
É o amor.

Rosa Maria Olimpio

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Para ser grande, sê inteiro:

Fernando Pessoa
( Ricardo Reis)
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Crônica de Amor

O BEIJO ( RODIN-FRANCÊS)

"Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado em fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fãde MPB . Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos ''Olham'' , pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de e-mails que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco. Você gosta de rock nacional e ela de samba, você gosta de cinema e ela prefere um show, você abomina Shopping Center e ela detesta o chopp com os amigos , nem no ódio vocês combinam. Então? Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que Celular, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste, que veste o primeiro trapo que encontra no armário, está sempre duro, não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara? Não pergunte pra mim você é inteligente.
Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar.
Independente, emprego fixo, bom saldo no banco.
Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com umcurrículo desse, criatura, por que está sem um amor?Ah! o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC.
Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível, honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó! Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é!"

TEXTO DE:- Arnaldo Jabor

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

DIA NACIONAL DA LÍNGUA PORTUGUESA





Ave, Língua Portuguesa!
Wânia de Aragão-Costa



“Art. 1o É instituído o Dia Nacional da Língua Portuguesa a ser celebrado anualmente no dia 5 de novembro, em todo o território nacional.”

Mais um Dia Nacional?

Seria, se não fossem os mais de 185 milhões de brasileiros, os nove milhões de africanos, os 11 milhões de portugueses que a usam diariamente. Seria, se uma língua, qualquer língua, pudesse ser sem aqueles que a falam. Seria, se dela não precisássemos para trabalhar, estudar, conversar, amar, viver... 12 meses por ano e não apenas em um Dia Nacional.

Que língua é essa que nos identifica, une, encanta? É aquela que tem tantas palavras, tanta melodia, tantos sentidos, que em nós se enrosca 24 horas por dia, sempre atendendo a cada pensamento que se queira partilhar. Nós, brasileiros, honramos o vernáculo com nosso talento para dizer. Somos fluentes, criativos, gostamos das nossas mais de 390 mil palavras e, tal coração de mãe, acolhemos as dos outros que, abrasileiradas, entram no “mexido” verbal. A Língua Portuguesa é sistema rico de recursos gramaticais que fortalecem a fala e o texto. Ela também é celeiro de possibilidades expressivas, retóricas, artísticas, técnicas, científicas.

E aí, Brasil, 365 dias nacionais da Língua Portuguesa!

Um pouco surpreso com as potenciais diferenças entre “o que eu queria dizer”, “ o que ficou dito/escrito”, “o que o outro leu”, “o que quase ninguém entendeu” e “o que acabou acontecendo”, o Brasil vê-se ainda enredado nos tempos e modos verbais (Presente? Passado? Futuro?), nas questões de gênero (“a presidente” ou “a presidenta”?), nos neologismos (“Mas, essa palavra existe?”), nos estrangeirismos (“Tem delivéri?”), na definição dos indicadores de proficiência ao ler e escrever (alfabetizado, alfabetizado funcional, letrado, transletrado?).

O que o Brasil ainda não vê é o cotidiano tormento de estimados 80 milhões de brasileiros impedidos da cidadania plena porque compreendem muito pouco do que é dito ou foi escrito, que não conhecem seus direitos, seus deveres. São brasileiros sem poder para usufruir da literatura vigorosa em Português ou das informações a que somente se pode ter acesso se letrado digital; são aqueles que vivem sem saber o que estão assinando ou com que se estão comprometendo (“É só assinar o papel aí!”). Falta a homenagem do Brasil à Língua Portuguesa: Políticas e Ações efetivas de acesso.

Urge, então, que se crie o Instituto da Língua Portuguesa dedicado a inventariar e descrever nossas escolhas linguísticas coletivas; a registrar usos contemporâneos do vernáculo; a pesquisar o que o brasileiro precisa de saber e o que a escola ensina sobre o Português; a armazenar e analisar dados, indicadores; a desenvolver conceitos e metodologias de inclusão verbal, com o emprego das tecnologias já disponíveis a muitos brasileiros; a rever as regulamentações do idioma.

Ave, Língua Portuguesa! Vida longa e próspera!

Superficial


Há pessoas que não se importam com nada. São seres “sem vida”, quase invisíveis, opacas, superficiais. São seres que vivem e se relacionam superficialmente, que não se aprofundam nas emoções, não se responsabilizam pelos seus atos, sempre colocando a culpa nas situações, nos outros ou em Deus.
Quem vive na superficialidade é alguém que, ao invés de lutar para vencer, entrega os pontos antes da luta, mostra-se fracassado, e, como mero expectador da vida, cria para si um perfil de perdedor. E, como não se interessa nem por si mesmo e muito menos pelos outros, não se comunica direito, não presta atenção no que ouve e não diz mais que meia dúzia de palavras sérias...O resto, só brincadeiras, só superficialidades...
Pessoas superficiais têm uma tendência ao negativismo e costumam criar expectativas muito pessimistas para a vida, e depois, se comprazem com as suas crenças autorealizáveis – “Eu não falei que ia acontecer isso?... Eu sabia que não ia dar certo...” Elas são indiferentes e apáticas, não levam a vida a sério e são mestras em julgar e criticar, tudo na base das suas superficiais suposições. Não acreditam em sonhos e projetos e, como são preguiçosas no pensar e no agir, deixam que a vida as leve, e, como diz o grande filósofo Sêneca, “não há vento favorável para aquele que não sabe aonde vai”.
Se você se sente assim, sem direção, sem disciplina, sem vontade de ser o dono da sua história, mas está percebendo que é hora de mudar e assumir o leme da sua vida, então, comece assumindo-se como um ser humano com qualidades e normais defeitos... aceite-se, e pare de fugir de si mesmo. A superficialidade nos relacionamentos demonstra um medo muito grande de se envolver e de se conhecer melhor. Relaxe... deixe-se levar em um profundo mergulho em seu interior, em seus mais secretos medos e sentimentos, e veja que, ao se aprofundar em suas próprias emoções, você vai se descobrir um ser humano incrível, cheio de potencialidades para sonhar e vencer!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O luto não é normal


Aproveitando o Dia de Finados, dedico as reflexões de hoje a todos aqueles que, por motivos diversos, têm vivido seus lutos de forma consideradas fora dos padrões normais.

Para alcançar esse objetivo, cumpre-nos iniciar relembrando que luto normal é aquele em que o enlutado cumpre satisfatoriamente as chamadas tarefas do luto que são: aceitar a realidade da perda, elaborar a dor dessa perda, adaptar-se novamente à vida mesmo com a falta da pessoa que faleceu (ou foi embora...), reposicioná-la em termos emocionais e continuar vivendo a própria vida.

Em suma, essas tarefas significam que por mais amada tenha sido a pessoa que faleceu e por mais que doa aceitar a sua partida, é responsabilidade de quem fica continuar vivendo de forma saudável.

Um luto se complica e se torna patológico quando o enlutado não consegue cumprir essas tarefas por motivos que aqui não temos espaço para descrever e “empaca” sua vida sem conseguir tocar em frente.

Dessa forma, uns tornam o seu luto crônico a exemplo de uma ferida que nunca fecha e continua infeccionada eternamente. Lembram-se das viúvas do passado que nunca deixavam seu vestidinho preto?

Outros não aceitam a realidade da perda e conservam intactos os pertences da pessoa falecida como se ela fosse novamente utilizá-los e choram anos a fio sem deixar que o tempo realize o seu trabalho.

Há ainda aqueles que se portam de maneira heróica e “forte” após uma perda e daí algum tempo, desabam por um motivo simples, vivendo o que chamamos de luto adiado, suprimido ou retardado.

Não podemos nos esquecer de citar as reações exageradas de luto quando uma pessoa enlutada vive os sintomas que seriam normais num processo de luto de forma exagerada ou dramatizada.

Por outro lado, há aqueles que vivem o chamado luto mascarado sem perceber que sintomas e comportamentos que estão vivendo têm relação com a perda que estão enfrentando.

Temos ainda a citar os lutos não autorizados ou não reconhecidos pela sociedade. Já observou como tentamos fazer que uma mãezinha que vive um aborto espontâneo não senta sua dor porque “o bebê nem chegou a nascer”? Todos nós conhecemos também alguém que não pode gritar ao mundo a dor da perda de um amante com o qual mantinha uma relação secreta, sob pena de fazê-lo e ser recriminado.

São esses lutos adiados, exagerados, camuflados, reprimidos, cronificados, negados ou evitados que impedem um enlutado de retomar sua vida e que se constituem, conforme comentamos no artigo passado, indicações para a Terapia do Luto.

Se você leitor, vem vivendo as dores de uma perda, mas percebe que a cada dia ela se torna um pouco mais leve, que cada dia que passa você chora um pouco menos, que o tempo está favorecendo aos poucos a retomada de seu trabalho e de sua vida rotineira e se você não se reconhece nos quadros acima descritos, é grande a possibilidade que esteja vivendo o seu luto de forma normal e a boa notícia é que quando menos perceber, o seu sol terá voltado a brilhar...

Vera Lúcia Dias (Psicóloga)