quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Primavera: Flores e Estrelas

(Tela de Vincent Van Gogh “A Noite Estrelada”)

Desde criança tenho mania de fitar o céu, todas as noites. Nesta época, não tenho tido a visão alegre e luminosa das estrelas porque um véu grosso de poeira, que sobe da terra, impede meus olhos de se deliciarem com as pequeninas luzes das estrelas. A razão disto é que a poeira é tanta e, há tempos, por não termos tido chuvas, o céu não permite ver as pequeninas luzes das estrelas, escondidas atrás da camada grosseira do pó que sobe. Não sei por que hoje, isso me fez refletir sobre nossas nuvens interiores.
De fato, nosso olhar, que só vê no sentido horizontal, deveria educar-se para voltar-se para o alto. Nunca deveríamos esquecer que os bens divinos que nos irão nos fazer mais belos e mais ricos em nossa essência. Todas as respostas, concretas ou sutis, estão lá em cima, onde repousam as certezas das nossas esperanças.
Fomos feitos para subir. Nosso olhar não deveria contemplar apenas a linha reta do horizonte. Somos feitos para o alto, onde brilham as luzes da sabedoria.
Nesta época, ao aproximar-se a primavera, a natureza que parecia repousar e dormir, desperta e desabrocha. Os ipês enriquecem, com o ouro de suas flores, os caminhos de nossos passos. Os jardins se colorem com a delicada beleza das flores. É uma vida nova que nos convida a renovar a vida interior da alma e do coração. É hora de florir...
A dureza do nosso dia-a-dia, com a preocupação justa de sobrevivência, nos tira a visão alta de nosso destino. Vivemos mergulhados no corre-corre dos nossos deveres e nos esquecemos de erguer os olhos para o alto.
No dia-a-dia, pode ser que venhamos a esquecer que somos convidados a participar das riquezas da vida. É com nosso olhar aprofundado para o espetáculo do universo, que poderemos colaborar para que os campos místicos do destino se cubram do colorido das flores. A primavera chegou. É tempo de florir.

Rosa Maria Olimpio

terça-feira, 28 de setembro de 2010

André Luís Ísola:UM POETA E UM POEMA :



VOCÊ QUE NÃO EXISTE
MESMO ASSIM ME FAZ TÃO TRISTE
POR NÃO TER VOCÊ PARA MIM

TÃO VISÍVEL COMO O VENTO
ME INVADE O PENSAMENTO
COM MIL BEIJOS DE CARMIM

VOCÊ QUE É POESIA
COMPLICADA FANTASIA
QUE EU VIVO SEM PERCEBER

TE PROCURO PELOS BARES
JOGO TUDO PELOS ARES
E BEBO PRÁ TE ESQUECER

EM CADA CANTO UM DESENCANTO
VEJO GRAÇA NO MEU PRANTO
FICO LOUCO MEIO ASSIM

PONHO FOGO NOS COMETAS
E BARQUINHOS NA SARJETA
PRO MUNDO NÃO TER MAIS FIM

MODELO VOCÊ NO BARRO
NAS CINZAS DO MEU CIGARRO
E NOS RAIOS DE LUAR

NAS PEGADAS DO CAMINHO
PERCEBO QUE ESTOU SOZINHO
CONTINUO A TE SONHAR

BEIJO AS PÉTALAS DAS ROSAS
NUMA CÁUSTICA AMOROSA
SIMULANDO O TEU BATOM

TOCO OS SINOS DA IGREJA
EU ME ENTREGO DE BANDEJA
SE VOCÊ GOSTAR DO SOM

SIGO OS CARROS NA AVENIDA
SÓ TENHO VOCÊ NA VIDA
ENTÃO NÃO TENHO NINGUÉM

ME DESDOBRO PELO ESPAÇO
ME REVIRO, ME AMASSO
POR VOCÊ EU VOU ALÉM
CHEGO À BEIRA DE UM BARRANCO
CONTO OS MEUS CABELOS BRANCOS
JÁ NÃO SEI O QUE É CERTO

ME LANÇO SOLTO NO AR
PENSO QUE POSSO VOAR
E O CHÃO CADA VEZ MAIS PERTO

SINTO AS PEDRAS ME ABRAÇANDO
CONTINUO IMAGINANDO
VOCÊ DIZ QUE NÃO EXISTE

ACABOU A ALEGRIA
O ENCANTO E A FANTASIA
TUDO ACABA O FIM É TRISTE

sábado, 25 de setembro de 2010

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

sejamos autênticos

A decepção existe tão-somente porque costumamos idealizar as pessoas, ou seja, ao invés de aceitar os outros como são, ficamos tentando moldá-los conforme nossas expectativas, e esse comportamento é extremamente prejudicial para qualquer tipo de relacionamento, pessoal ou profissional. Temos de estar conscientes de que vivemos em um mundo ainda imperfeito e, muitas vezes, é comum nos decepcionarmos com os que nos cercam.
Muitas das vezes, para não perder a admiração e a aprovação dos familiares e amigos, mudamos nossa natureza e passamos a agir de forma a agradar aos outros, o que causa um verdadeiro estrago em nossa autoestima. E quantas vezes, diante das injustiças ou das desavenças, escolhemos a vingança e passamos a trilhar caminhos de ressentimentos e de dores. Tudo isso, é claro, resulta em sofrimento e na descrença no sentido de nossa vida. Passamos a desvalorizar a nós mesmos e a desconfiar do ser humano em geral.É essencial que sejamos autênticos, buscando viver de bem com a vida, nutrindo-nos dos mais puros sentimentos, cultivando a compaixão e, principalmente, cuidando para não nos contaminarmos com a revolta, o azedume e as mágoas das pessoas que nos são próximas.
E a melhor forma de nos protegermos das influências negativas é fortalecermos nossa autoconfiança e nosso amor-próprio. Quem se ama e confia nos próprios talentos possui uma natureza determinada e exemplifica aos outros o poder da valorização pessoal. Quem tem a autoestima desenvolvida pratica o bem pelo grande prazer que é fazer a diferença na vida das pessoas, e não em busca de aprovação ou de gratidão pelos seus atos. Não precisa cobrar de ninguém, porque sabe que a vida é um eterno dar e receber.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

"Que nem mesmo a morte nos separe"



Aproveitando a importante matéria de capa da Revista Veja, da última semana, intitulada “Casar faz bem”, faço uma breve reflexão sobre os segredos da felicidade conjugal. Na verdade, estes segredos são pequenos detalhes que fazem a diferença nos relacionamentos afetivos, capazes de garantir acesa a chama do amor e do companheirismo, mesmo depois de muito tempo de casamento.

No meu ponto de vista, o detalhe fundamental para a felicidade a dois é o fato de cada cônjuge estar bem consigo próprio, ou seja, ter uma autoimagem positiva e confiança em seu próprio valor. A questão da autoestima é básica, porque, se uma pessoa não se valoriza como vai querer ser valorizada pelo outro? Impossível! E quando os cônjuges estão em paz com a sua própria pessoa, são mais respeitosos em relação à individualidade de cada um, sabendo que o casal é formado por duas pessoas inteiras, que se uniram não para se completarem – pois que são inteiras –, mas para caminharem juntas em direção a um objetivo comum.

Uma união fadada à felicidade é aquela em que cada um dos companheiros se interessa pela vida do outro e o estimula ao crescimento integral, criando uma forte conexão emocional entre eles.

É importante também respeitar as diferenças, conhecendo como o outro se comunica e entende o mundo. Por exemplo, um parceiro mais visual, ou seja, que usa mais o que vê, ou o que escreve ou lê para se comunicar, terá alguma dificuldade em se relacionar com uma parceira mais sinestésica – que gosta de abraços e carinhos e lhe cobra essas atitudes, ou com uma parceira mais auditiva, que aprecia ouvir elogios e declarações de amor, e insiste em dialogar o tempo todo. Quem é mais visual não se sente confortável com muitos toques e “amassos”, nem gosta de pessoas que falam demais. Muitas vezes, a pessoa mais visual é considerada fria e insensível, mas isso não é um defeito dela, e sim uma característica na sua forma de ser e de se comunicar. A conscientização desse fato traz muito alívio aos relacionamentos, porque cada par pode buscar sua própria mudança, desenvolvendo novas habilidades na interação familiar.

Outro fator interessante e que tempera o casamento é manter o romantismo através da troca de bilhetes amorosos e ousados, bem como os parceiros se olharem mais nos olhos um do outro e cultivarem o diálogo construtivo e afetuoso – sem queixas, críticas e prejulgamentos.

Viver ancorado no momento presente é de grande valia na vida a dois, porque fatos dolorosos do passado, ao serem relembrados, acabam por deixar sombras e arestas no relacionamento.

E, finalmente, entender que os filhos precisam ter o seu próprio espaço na vida familiar, não devendo ocupar o espaço do casal. Para isso, os cônjuges devem preservar a sua privacidade e a afetividade dos primeiros tempos, com amor e maturidade.

Viver a dois em harmonia é um dos grandes desafios do ser humano, mas, segundo pesquisas mais recentes, é também uma das maiores fontes de alegria, saúde e prosperidade.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

MENINO


O grande pregador Padre Antonio Vieira, cujos sermões em nossa língua são de beleza indescritível, deixou lindas e profundas reflexões sobre o amor divino e o amor humano. Lembra, porém, que o amor pode ser destruído por muitos perigos que ele chama de “remédios” que podem curar o amor.
O que, em primeiro lugar, pode esfriar e até destruir o amor, diz o Padre Vieira, é o tempo que “tudo gasta, tudo digere, tudo acaba”. Compara ele o afeto amoroso com a vida. Quanto mais longa for, é certo de passar a durar menos. É a motivação que levava os antigos, na sua sabedoria que o tempo ensina, a pintar o amor como se fora um menino, “porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho”. Com o correr do tempo o amor cria asas, com que voa e foge.
Mas isto acontece quando, quem ama, não toma os necessários cuidados de fazer de cada dia o primeiro dia.
O amor – se verdadeiro – tem de ser eterno, porque se vier a desaparecer, nunca de fato foi amor. Em tudo mais na vida, quando desaparece, prova que existiu. Só com o amor se dá o contrário: se deixa de ser, é certo que nunca foi. Se desaparecer, esfria e morre. Se fora, nunca deixará de ser...
Esta é a razão pela qual, sempre orientei meus filhos a fazerem de cada dia de suas existências, sempre o primeiro dia. O mesmo vale para o casal. Já que não existe casal infeliz no dia do casamento.
Nem vale querer justificar o fim do amor por motivos que pareçam razoáveis. É só lembrar a sábia advertência de Camões: “É tanto mais o amor depois que amais / quanto são mais as causas de ser menos”.