quinta-feira, 13 de maio de 2010

O amor?Felizmente uma curta loucura.É o amor?

Autora: Ilcéa Borba Marques

O amor, enquanto filho da paixão, e para existir, é também a idealização do outro. Os pais idealizam seus filhos projetando sobre eles seus próprios ideais, criando assim um circuito narcisista imperecível. Por narcisismo entendemos o amor a si mesmo: ser de novo, como na infância e especialmente no que concerne às tendências sexuais, seu próprio ideal, eis a felicidade que o homem quer alcançar. Em princípio, a realidade e o narcisismo opõem-se quando não se excluem – é a principal contradição do Eu, ser ao mesmo tempo instância que deve entrar em contato com a realidade e se investir narcisicamente, ignorando a própria realidade para conhecer apenas a si mesmo.

Ter a si como ideal, amar-se como se fosse um outro, é também fechar-se numa bolha que deixa do lado de fora qualquer coisa ou pessoa diferente de si. A única forma de quebrar esta prisão em si é ser capaz de amar um outro por suas características diferentes, mas como o imaginário é líder no espaço psíquico este outro nada mais é do que projeções maciças do Eu.

Enamorar-se de alguém é fruto de uma coincidência perceptiva – achar alguém que estimule alguma lembrança importante afetivamente e assim ser possível perceber este outro como partes do próprio Eu. Alguém que nos lembre um avô muito amado na infância faz renascer todo o sentimento vivido e este novo ser passa a ser amado como o avô fora no passado distante. Evidentemente aquele traço de igualdade ou semelhança acaba recriando sobre a situação atual o antigo e criando uma ilusão capaz de afastar da realidade este Eu em busca de afeto. Evidentemente as desilusões amorosas irão acontecer, mas, a maturidade sustenta o amor apesar de tudo.

Voltando ao título: O amor? Felizmente uma curta loucura; podemos agora compreender seu significado: uma das condições vitais para sentir paixão é a coincidência entre uma marca positiva existente na memória e algo que se apresenta no externo; a igualdade pode ser apenas um traço, mas a força sentimental será total, plena e ilusória – por isso mesmo uma verdadeira loucura. O importante é sua reduzida duração, pois o relacionamento irá desfazendo o bloco projetado impondo gradualmente a realidade.
No entanto, existe a possibilidade de permanecer na ilusão quando este outro amado reproduz realmente o próprio Eu do sujeito e, neste caso, pensando que está amando um outro se ama ainda, somente, a si mesmo.

(*) psicóloga e psicanalista
ilcea@terra.com.br

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