quarta-feira, 10 de março de 2010

A lenta ascensão social da mulher...

O fim da desigualdade das oportunidades sociais entre homens e mulheres é um desejo bastante antigo, mas a sinceridade dos que expressam tais votos continua incerta. Fourier, ao que parece, foi o inventor da palavra feminismo, e os saint-simonianos criaram em 1832 a primeira revista feminista, La Femme Libre. Mas, enquanto nos Estados Unidos a emancipação das mulheres foi comparada à libertação dos escravos, na França, nas classes populares, homens e mulheres, todos membros do exército de reserva do capital, disputavam empregos cuja oferta foi, durante décadas, inferior à demanda.
Isso explica o acesso muito gradual das mulheres a posições marcadas pelo selo da respeitabilidade social (poder de decisão e capital cultural). Foi apenas depois da Segunda Guerra Mundial que as mulheres ativas passaram finalmente a ocupar posições sociais até então monopolizadas pelos homens. E elas ainda são encaradas de um ponto de vista sexista, como mostra a satisfação com que os jornalistas se detêm sobre o físico das personalidades femininas. Em três publicações de orientações políticas diversas, as matérias sobre três mulheres políticas começam descrevendo seus corpos e suas vidas familiares. Florence d’Harcourt é alta, magra, loira e, antes de tudo, mãe de família (Jours de France, dezembro de 1973). Anne-Marie Dupuy, chefe (e não chefa) de gabinete do secretário-geral da Presidência da República e que acaba de integrar o Conselho de Estado no exterior, gosta de barcos e de esqui. Sorridente, com os olhos cor de avelã, pele clara, cabelos castanhos sobriamente enrolados, sempre vestida com tailleurs clássicos ou vestidos lisos de cores discretas (France-Soir, 11 de janeiro de 1974). Marie-France Garraud emana uma amizade calorosa (...). Mas seu pescoço merece atenção. É nele, ágil e forte, que se trai a valquíria guerreira, dura no combate. Ela tem dois filhos, um marido advogado no Tribunal de Recursos e, como a maioria dos adeptos de Pompidou, uma profunda vontade de poder (Le Nouvel Observateur, 24 de dezembro de 1973).
Os estudos de Andreé Michel mostram que as mulheres ativas com nível de instrução mais elevado são as que se declaram as menos satisfeitas com seus casamentos e que sua autonomia requer uma nova definição da vida conjugal, uma nova divisão das funções e dos papéis, não só dentro, como também fora da família. Ha algumas décadas, quando uma mulher tinha cursado a universidade, não raro ela renunciava a qualquer atividade profissional na hora de se casar. Ela utilizava seu capital cultural para ajudar o marido em sua carreira e para educar os filhos. Hoje as coisas mudaram e podem surgir tensões ou rupturas. Assim nasce no casal uma nova forma de ciúme, pois a permanência das ideias convencionais ameaça tornar insuportável para o marido um êxito profissional da mulher superior ao seu!

Ilcéa Borba Marquez -
(*) psicóloga/psicanalista

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