terça-feira, 22 de setembro de 2009

Memorial de Eliane Cerqueira

Nasci em São Paulo em uma década difícil, após o golpe militar, nos chamados anos rebeldes, foi em 1965 que cheguei, parecia não ser o momento, mas assim quis o destino.
Filha de retirantes nordestinos, pai baiano e mãe paraibana encontraram-se para dar a luz a uma paulistana. Ano de recessão e desemprego. Durante minha gestação, pai perde o emprego, trinta dias após parição é a vez da mãe, desilusão!
Quem era um, agora são três, sonhos no bolso, necessário retorno três meses após meu nascimento. Família em festa no interior da Bahia, chegada do filho, nora e a primeira netinha. Felicidade, família completa, sorte minha!
Fui crescendo nos braços de bisavó, vovó, vovô e tia. Ouvindo cantigas de ninar, ouvindo histórias para dormir e aprendendo a reza
Sentávamos na varanda no final da tarde, minha bisa em uma cadeira, eu, minhas irmãs mais novas e algumas meninas da rua para ouvir histórias de assombração (as preferidas), de fadas e animais que falam. Esses momentos não durariam muito, assim quis o destino.
Meus pais se separaram, tempos difíceis, minha mãe fugiu para Paraíba, nos levando as escondidas, fugimos de navio, para não deixar marcas no caminho.
Adeus! Fadas encantadas, Lobisomem, Assombração. Adeus! Burrinho falante, Cavalo voador, adeus! Adeus, professorinhas da escola perto de casa do B-A-BA com docinhos. Bonequinhas, meus brinquedinhos, adeus!

Agora é a lei da palmatória, se não aprender, “bolo” na mão ! E aquele “H” difícil de fazer, quantos dias sem recreio, de castigo. Ler é ruim, dói muito, é sofrido! “Ah! Que saudade que não tenho dos meus oito anos!
Lembro-me de cartilhas, apenas, não lembro de livrinhos de histórias, foi um tumulto meus primeiros anos de escola. Alfabetizanda em três Estados do Brasil, Bahia, Paraíba e por último São Paulo.
Na década de setenta retornamos para São Paulo, minha mãe, eu e minhas irmãs, anos terríveis. Mãe para a fábrica (mão operária da metalúrgica), cada irmã em uma casa de amigos de mãe. Eu fiquei mais distante delas, fui morar em uma casa de uma família muito grande. Para pagar o favor da moradia, era preciso trabalhar, ajudar nas tarefas , varrer, passar, encerar, subir em banquinhos para alcançar os pratos na pia e lavar. Brincar? Não pode! Mas sabia que uma fada apareceria, um dia!
Lá na Bahia, Minha bisa foi morar com os anjos! Adeus, adeus! A notícia chegou, mas mãe guardou.
Um ano morando distante de minhas irmãs... Cadernos e livros compartilhados com coleguinhas generosos.
Ano de muito trabalho e pouco lazer! Distante de minhas irmãs e de tudo que era bom. No ano seguinte, mãe aluga uma casa e vamos ficar juntas. Eu com 9 anos daria conta de tudo, das tarefas domésticas, dos cuidados com minhas irmãs e com seus estudos. Fomos matriculadas em uma escola grande: “Escola Estadual Professor Eusébio de Paula Marcondes”,
Íamos juntas para a escola, não muito longe de casa, voltávamos juntas, brincávamos e juntas também brigávamos. Brincava de professora com elas, ensina tudo que aprendia e a gente até sorria.
Nessa época conhecia a “Turma da Mônica” de Maurício de Sousa. Que ganhamos de uma tia, irmã de mãe. Os dias pareciam mais coloridos, quase como nas histórias em quadrinhos. Esse momento duraria pouco também!
Um acidente, um ônibus, um atropelamento. Meses longe da escola, dos gibis, só o desenho animado poderia me animar. Muita censura, pouco para assistir! “Vila Sésamo” em preto e branco. Bom lembrar !
Um ano escolar perdido, colegas para encontrar, o retorno. Recuperar o tempo perdido. “Saci Pererê , Os Três Porquinhos, Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, a Bruxa Malvada!” Voltei aos contos de fadas, eles me abraçaram com carinho. Na 3ª série, professora carinhosa. Lia tudo com vontade, livros coloridos, os da escola. Parecia até criança, mas com dez anos, criança não era.
Meus avôs paternos pediram e mãe deixou que passássemos as férias na Bahia. Dias felizes aqueles. Dias quentes e noites mornas de janeiro. Cheiro de doce no ar, colo de vovó, brinquedos, cabelos nas tranças, brincadeira de roda, amigas da infância. Era muito bom para voltar! As férias acabariam! Recebemos autorização para ficar.
Novos amigos, nova escola, professoras tias, professoras vizinhas, as histórias de volta. O Sítio do Pica-Pau Amarelo no final das tardes. “Como era doce aquele sonhar!” Eu sabia que as fadas viriam um dia!
No ano seguinte, minha irmã caçula chega com minha mãe para passar as férias. A mãe volta, mas a caçula fica e recupera a infância que parecia perdida.
As histórias continuaram mais prazerosas, sem medos, sem sustos. A ficção vinha tranqüila, alimentar minha imaginação: Alice no país das Maravilhas, O Pequeno Príncipe, Rapunzel, entre outros. Agora, estava em minha casa, na cidade de São Felipe na Bahia. Assim foi passando a meninice.
Na adolescência, tive aula com professor Silvio, ele nos apresentou José de Alencar, “Cinco Minutos”, me fez sonhar. Depois “Senhora”, a Virgem dos lábios de mel, Iracema, assim queria ser chamada. Machado de Assis foi chegando devagar, por isso fiquei apaixonada. Não demorou, Bandeira chegou, depois Drummond, mas antes deles muitas poesias de amor.
Em um diário escrevia durante a adolescência, mas o tempo levou as lembranças, as primeiras marcas das leituras de infância e meus primeiros versos de amor.
Fiz o curso de Magistério em São Felipe, ai começou outra missão que estava sendo preparada desde menina, em brincadeira de criança, quando era a professora de minhas irmãs. Conclui o curso em 1984, Fui para São Paulo no ano seguinte e logo comecei a lecionar.
Professora substituta da escola Estadual Professor Eusébio de Paula Marcondes. Ensinava a 1ª e 2ª séries, as crianças adoravam aulas com histórias... Anos depois, a faculdade, antes disso, muita dificuldade! Foi preciso deixar de lado o Magistério, pois o que ganhava na educação não dava conta da minha educação!
Nessa época apareceu um Anjo para me ajudar, estudávamos juntos e muitas leitura para compartilhar, professor de história ele se tornaria. Nosso casamento aconteceu. Faculdade de Letras concluída, professora contratada para 5ª e 6ª series, 7ª. e 8ª,mais tarde, supletivo noturno e por último o Ensino Médio na mesma escola. Nessa época fiz um curso de teatro: ler para dramatizar, meus alunos só iam ganhar: “A Verdadeira História de Cinderela – comedia”, “Morte e Vida Severina”, “O Auto da Barca do Inferno”, saindo dos livros para a vida (peças apresentadas pelo alunos para a comunidade). Quanta diversão vivemos juntos! Líamos juntos a coleção Vaga-Lume da editora ática entre outros que eu ganhava.
Nos anos seguintes veio o curso de Pedagogia, logo após me tornei vice-diretora da mesma escola. A biblioteca ganha vida! No ano seguinte assumi a direção geral, chegou a vez do cultural: Festas Juninas e ateliê de Educação Artística, Projetos de Leitura saindo do papel. Esses momentos não durariam muito, eu já sabia. Eu desejava muito voltar para a Bahia!
Aqui cheguei no final de 1996, no bolso algum dinheiro, na cabeça muitas idéias que não poderiam ser colocadas em práticas. Escolas particulares, quantas particularidades! Concursos: Escolas Municipais e Estaduais, quantas dificuldades! Fui me adaptando... Procurando aprender, ler mais, para ensinar melhor. Fiz duas Especializações, Leitura e Produção Textual na Escola, foi a primeira, em 2003. Muitas ações a partir daí aconteceram. Nessa ocasião conheci Professor Doutor Odilon Pinto de Mesquita Filho na UESC, que me apresentou a teoria Análise do Discurso e muito leitura a partir daí. “É como diz Ezequiel Theodoro “As competências de leitura crítica não aparecem automaticamente: precisam ser ensinadas, incentivadas e dinamizadas pelas escolas no sentido de que os estudantes, desde as séries iniciais, desenvolvam atitudes perante os materiais escritos. (1998 p.27) ” Daí a importância de professor, Odilon na minha vida, pois exigia de mim um posicionamento crítico diante do escrito, não deveria concordar com tudo, mas teria que estar fundamentada para isso. Esse exercício não tive na infância. E o Professor Doutor Luiz Percival Leme Britto aprofundou nossos conhecimento sobre os estudos de Sírio Possenti. Motivada por esses dois fui ao Congresso de Leitores do Brasil na UNICAMP(COLE), conheci João Wanderley Geraldi, Ezequiel Theodoro, e Eni Orlandi, e muitos outros. Nossa que mundo ! Fui ao meu primeiro GELNE (Grupo de Estudos de Linguistas do Nordeste), na Paraíba com professor Odilon, apresentei uma pesquisa sobre “O Discurso sobre o Cangaceiro no Romance Fogo Morto” Foi maravilhoso fazer essa homenagem a esse autor paraibano. Conhecia Professora Ingedore V. Koch nesse encontro, tive a oportunidade de ouvir seus ensinamentos e a partir daí me interessar mais por suas obras (ela lembrou muito minha bisa). A minha segunda especialização foi muito especial: Educação de Jovens e Adultos, professor Odilon continuava me ajudando e indicando leituras. Conheci o professor Francisco de Souza que foi amigo e seguidor de Paulo Freire. Imaginem as leituras a partir daí. O legado deixado por ele foi importante em minha caminhada. E outros cursos foram surgindo no caminho, até que chegou o GESTAR, mas a estrada é longa, as dificuldades tantas é preciso caminhar.
E, agora encontro Professora Rosa Maria Olímpio, que me proporciona essa viagem no tempo, fazendo vasculhar os cantinhos da minha alma, para que eu documentasse momentos tão importantes da minha vida e assim ter certeza que não estou só. Eu sou o outro: sou minha família, meus amigos, meus professores. Meus alunos e meus livros. E Magda diz: “A leitura é uma interação verbal de indivíduo e indivíduos socialmente determinados. O leitor de um lado – com o seu universo, com o seu lugar na estrutura social, suas relações com o mundo e com os outros - e, de outro lado, o autor – seu universo, seu lugar na estrutura social, suas relações com o mundo e com os outros . Entre autor e leitor há uma enunciação ou diálogo.”(1998, p.87)
E aqui estou, tentando seduzir, encantar, motivar, entregando passagens para a viagem ao mundo encantado da leitura e nesse diálogo, procurar respeitar para amar mais o outro.

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