quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Cartas Poéticas!

As cartas trocadas entre importantes escritores brasileiros, como Machado de Assis e José de Alencar, são tema de seminário que tem início hoje no Centro Cultural do Banco do Nordeste.

Meu caro, vírgula. Depois da vírgula, um texto em primeira pessoa, delicado ou agressivo, próximo ou distante, pleno de comentários sobre um trabalho, um texto, um encontro. Quando os endereços @ não existiam, a carta era uma das formas de comunicação mais recorrente que os escritores lançavam mão (claro, não só eles). Dentro de um envelope, um autor destilava elogios a outro, sugeria mudanças nas linhas enviadas, discutia a vida política e social do País, criticava colegas, comentava a própria rua. Ou segredava confidências. Mário de Andrade, por exemplo, deixou claro que suas cartas só poderiam ser publicadas 50 anos após a sua morte.

E o que mais cabe dentro de uma carta? ``No livro, a gente observa muito a linguagem, o estilo, os recursos que o escritor lança mão. Na carta, a gente vai ver uma dimensão da pessoa, daquele homem ou mulher como ser humano. Como ele se revela``, conta a professora do curso de Letras da Universidade Federal do Ceará (UFC), Sarah Diva Ipiranga, uma das organizadoras do Correio literário: a literatura brasileira através das cartas, seminário avançado que tem início hoje no Centro Cultural do BNB, às 18h. Ao lado dela, a também professora Solange Kate Araújo Vieira montou a programação que, a cada dia, convida dois teóricos ou escritores para discutir um autor da literatura nacional.

Hoje, Vera Moraes e Suzana Frutuoso dão início ao curso discutindo O sentimento da nação: José de Alencar e Machado de Assis. Para Sarah, Alencar e Machado ``pensaram o País através de sua correspondência, fizeram a elaboração de um projeto de nacionalidade entre suas missivas``. O movimento segue com os autores discutidos nos outros dias, como Fernando Sabino e Clarice Lispector, que continuaram a discussão no panorama da arte. ``Eles discutem também os livros que estão escrevendo. Sabino reescreve algumas passagens dos livros de Clarice... Para entender o processo de criação, tem que entender a correspondência dos escritores``, indica Sarah.

``Existia nas correspondências um pensamento estético e de época. Nelas, a gente percebe que havia uma solidariedade muito grande entre os escritores, e uma mostra do que o movimento literário fazia crescer. Era uma crítica consciente, séria``, destaca Solange. Essa prática, no entanto, é recente. Segundo as professoras, apenas a partir dos anos 1980 do século passado é que a carta começa a se infiltrar na academia. E enquanto isso acontece, o mercado editorial apresenta cada vez mais publicações do gênero. Mais elementos para tratar da poética desses autores. ``Tem também a ver com esse movimento que não é só literário, de compreender as formas culturais em sua multiplicidade. Com as cartas, se procura outras margens``, acredita Sarah.

É possível se debruçar sobre a literatura missivista sem se tornar nostálgica? ``A carta é nostálgica mesmo porque era de um tempo em que os amigos podiam obedecer a esse ritual de postar uma carta. Mas é algo que pode ser retomado. Por que não conversar com as pessoas? E-mail é muito rápido``, lamenta Sarah. ``O correio eletrônico não funciona tão bem, não há uma espontaneidade, nem uma verdade. A gente percebe o quanto havia de sinceridade nas cartas. Fora que a correspondência eletrônica não é tão segura quanto a que se fazia através da carta``, emenda Solange.

Mesmo assim, as duas concordam que não é possível, atualmente, viver sem o e-mail. ``Se, pelo menos, se harmonizasse a palavra escrita e refletida no correio eletrônico, e com mais espontaneidade e liberdade, aí sim. Se esse correio fosse mais reflexivo, não tão abreviado...``, deseja Solange. Duas formas de comunicação, cada uma oferecendo suas possibilidade? Quem sabe. Sarah conta que ``ainda hoje mantenho a prática de escrever cartas. E e-mails``.

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