sexta-feira, 19 de junho de 2009

Uma vida dançando ao vento suave da memória

NELL

Um testemunho de uma vida dançando ao vento suave de memórias embebidas num mar de amor e de esperança onde a água brilha incessante, lavando a mágoa e a dor de um mundo onde cada vez mais se acolhe a tristeza e cruel visão de anjos vestidos de negro descendo à terra, resgatando das inocentes mãos de doces almas a pureza e simplicidade de sonhos. Despedaçando verdades e corações, tatuando na sua essência a amarga raiz da incompreensão humana e material, do culto opressor e metafísico. Nell encontra-se sozinha na floresta. Perante uma linguagem que aprendeu a amar e a proteger, que é somente a sua linguagem com a alma que a habita, com a essência que a define como um ser único, utiliza-a na sua vivência diária, como modo de transmitir os seus conhecimentos e a visão que possui de um mundo criado sobre as suas experiências. O seu dialecto constitui o testemunho de uma vida a ela entregue num manto suave de amor e compreensão. Dois médicos acabam por descobrir uma “criatura” fascinante perdida no leito suave e acolhedor da floresta. Rapidamente se torna um objecto de estudo apetecível para os dois, não só pelo desejo de descoberta de tal acontecimento, assim como de possível factor impulsionador de uma carreira de trabalho.
No entanto um dos médicos, desempenhado por Liam Neeson, esconde em si objectivos muito mais nobres no estudo de Nell. A sua natureza social, os modelos comportamentais que moldaram a sua maneira de ver e sentir o mundo não lhe envenenam o discernimento mental e a capacidade de compreensão de uma diferença que obviamente não é sempre inferior. O médico preocupa-se com a pessoa, com o ser que esconde sonhos e desejos, uma essência e uma alma únicas. Nell não é para ele uma “selvagem”, que possui uma “linguagem destorcida”. Nell é uma pessoa, um ser que possui sentimentos e tem o direito à compreensão.
A cultura moderna hostiliza tudo o que não é conhecido. Tudo o que não pertence ao foro do culturalmente adquirido e aceitado historicamente é potencialmente perigoso e inconcebível. É efectivamente disto que se trata, atitudes profundamente mergulhadas num egocentrismo e xenofobia opressores. Porque mesmo não se tratando obviamente de uma cultura diferente, Nell possui uma visão única e suave do mundo, como lugar habitado por uma natureza resplandecente, que destila incessante e de um modo suavemente sedutor toda a beleza que lhe veste a essência. À noite banha-se nas doces águas do rio, fundindo o seu corpo puro com a natureza que a acolhe e a incentiva a respirar sem névoa ou malícia um perfume que lhe parece sempre único. De noite rejuvenesce contemplando a beleza virgem de uma lua imensa, que engole o horizonte com o seu brilho transcendental. A vida saboreando a Natureza. A inocência de um sorriso simples e sentido. Oásis de amor e de esperança bebendo da floresta a sua inspiração e força, num contacto profundo com a pureza do sentir. O colo da lua é o seu baloiço de sonhos, o seu caleidoscópio de ensinamentos entoados sobre o leito límpido da Natureza. Não precisa de mais nada. Não pediu mais nada.
Efectivamente “as atitudes, as condutas e os pensamentos são eles próprios o resultado da adaptação do espírito do homem às condições ambientes e uma resposta aos estímulos exteriores”, segundo J.B.Watson. O filme claramente bebe da teoria behavorista parte da sua força e poder argumentativo. A personagem de Nell constitui a imagem crucial e materializada de um ser que se adaptou ao ambiente que a rodeia, constituindo o seu espírito e a sua essência o reflexo desse mesmo ambiente. Os pensamentos e condutas que perpetua e que defende são resultado desse meio onde se encontra inserida. Recorrendo por outro lado a uma teoria apresentada por Piaget, “o conhecimento tem início quando o recém nascido, através dos seus reflexos que fazem parte da sua bagagem hereditária, age assimilando alguma coisa do meio físico e social. Daí provém sucessivas estruturações formando etapas características, chamadas estágios ou níveis de conhecimento”. Recorrendo a esta teoria apresentada e aplicando-a ao caso específico do filme comentado é fácil estabelecer uma relação precisa e concisa entre as duas realidades. Nell recebeu uma educação “especial”. Na sua diferença reside o foco incessante e doloroso de repudia e incompreensão social. Nell assimilou factores e aspectos essenciais do meio físico e social em que se encontrava mergulhada , e o qual lhe banhava a face e lhe oferecia a dádiva pura e simples da natureza, dos valores simples e afectuosos.
Os estágios e níveis de conhecimento a que a transcrição se refere, no caso preciso de Nell manifestaram-se de uma forma muito pouco comum. Embora pareça possuir um conhecimento insuficiente ( para as pessoas que se encontram perto dela, para a maioria da sociedade ), a realidade irá mostrar a essas mesmas pessoas que efectivamente caíram em erro e foram claramente prejudicadas por juízos preconcebidos de valor.
Quando o doutor observa pela primeira vez a beleza pura e simples de uma “criança selvagem”, proferindo palavras soltas banhadas num oceano sedutor e inocente de incompreensão, não deixa de ficar profundamente apaixonado pela visão que se depara perante os seus olhos. Porque sente nela algo de diferente, no espaço que os envolve nasce uma intimidade que os irá guiar durante todo o filme. Nasce uma relação de compreensão, densificada em manifestações ternas de carinho e de procura de entendimento mútuo. Ele não está ali ávido de um objecto de estudo, detentor de um qualquer objectivo específico e preciso. Está ali movido por uma curiosidade aguçada e a sua essência e alma vão ser encaminhadas para uma realidade que irá ultrapassar a mera curiosidade. Conforme cresce a relação entre o médico e a Nell, nasce também uma nova realidade para o coração do médico. Novos valores e ensinamentos tatuam a sua essência, ajudando-o a encontrar na sua alma, parte de si que nunca reconhecera. Nell utilizando o dom que a faz ser única consegue aproximar e renascer essências anteriormente parcialmente adormecidas num trabalho e numa sociedade opressora e egocêntrica. A sociedade, as definições, valores culturais e humanos que a pretendem compreender nunca o conseguem por intermédio da sua acção, porque efectivamente guiam os seus esforços não em prol da compreensão mas sim de uma demonstração hipócrita e egoísta de uma detenção de um conhecimento perfeito e imutável. É principalmente devido a esta cruel realidade que a doutora não consegue compreender Nell , quando a começa a conhecer. Porque não a quer conhecer. A essência individual que lhe banha a face, os seus ensinamentos e os seus sonhos e valores, não são o objecto de estudo tão pouco. São alvos a abater em nome do que está socialmente alicerçado, dos valores culturais correctos e admitidos. A pessoa, a essência de Nell é subjugada sob o nome da ciência, dos valores e conceitos que a mesma defende. Sob o nome de um modelo social que possui regras inflexíveis alicerçado num aparelho estrutural rigidamente construído. A nossa sociedade é cada vez mais sinónimo de incompreensão e hostilidade pela diferença. E muitas vezes não se preocupa ( o que é verdadeiramente assustador ) sobre as causas e significado dessa mesma diferença, ou mesmo se a mesma constituí algum perigo ou ameaça ao bom funcionamento da vida em sociedade, em defesa dos valores e normas comportamentais culturalmente aceites.
Como ameaça ao bom funcionamento de uma sociedade, todo aquele que demonstre através dos seus actos poder vir a tornar-se uma ameaça para esse funcionamento, obviamente terá que ser alvo de medidas coesivas e de vigilância. É esse o principal objectivo da ciência em relação a pessoas como a Nell. A repudia da via de entendimento sobre a sombra negra e disforme da coasão e do controle social. Obviamente que as coisas nem sempre são assim tão simples, e em alguns casos essa coasão é profundamente justificável em nome da vida harmoniosa em sociedade. No entanto Nell sente os corações. Nell tem na sua essência a pureza de um sentimento que guia a vida e comanda um sonho. Tem na sua alma as asas que oferecem voos rumo ao verdadeiro sabor da vida. Na sua pureza e inocência afrodisíacas encontra-se reflectida na sociedade a realidade antagónica. Sede humana de poder, de conhecimento como obtenção desse mesmo poder. Sabor desejado de glória e de cifrões escorrendo brilhantes numa vida ostensiva. Vomitando notas que compram almas e sonhos. Que compram uma vontade e corrompem a verdade. A ela nada disso lhe interessava. Apenas continuar a viver a sua vida, comunicando com a linguagem que lhe fora transmitida, com a qual conhecia parte do mundo natural. O mundo que a acolhia sob a forma belíssima de florestas e rios, folhagens macias ondulando ao vento. Sob a forma de uma casa de campo que a protegia do frio e dos perigos da vida. Uma visão tão límpida, tão pura, a que guiava a sua razão e o seu amor, a sua fé infinitamente divina na procura de um sonho lindo, aquele que lhe oferecia a visão suave e terna da sua irmã, confidente de brincadeiras e de corridas livres no coração da floresta. O sol beijando a sua face, o amor terno de quentura primaveril. O brilho sem medos. A pureza magnífica do sol, irmão da lua, companheiros de essência. A beleza de uma relação pura e imortal. Os anjos levaram o corpo da sua irmã, mas a essência vive eternamente dentro dela. Linguagem de amor, de união. Quando olhou para o espelho procurou transmitir essa mesma linguagem. Procurou repartir com o mundo uma realidade inocente e pura. A ciência não a compreendeu. Viu-se a ela e à irmã. Tudo para ela é uma infinita descoberta. Sabor de vida, paladar existencial e metafísico. Procuravam-lhe retirar isso tudo em nome de um conhecimento científico ávido de novas realidades e noções. Um conhecimento científico que em prol da sua necessidade de informação pretendia utilizar uma essência e individualidade como cobaia para a sua obtenção de informação. Converter uma essência que não queria ser convertida. Ditar intoleravelmente o que era melhor para Nell, sem sequer procurar compreendê-la ou ouvir a sua voz. Nell para a ciência será sempre uma “pessoa atrasada” , detentora de “uma linguagem destorcida”, “uma criança selvagem”. Criança selvagem como sinónimo de uma inocência. Inocência porque a sua essência se encontra imaculada da podridão humana e de tudo o que inspira repudia. Selvagem porque não tem água corrente, electricidade nem telefone. Porque vive no coração da Natureza, não conhece um carro, um avião. Não possui o conhecimento para sobreviver segundo os parâmetros superiores da sociedade moderna. Quem disse? Quem o pode afirmar peremptoriamente?
Ninguém. Ninguém o pode afirmar. Porque não conhecer a sua essência, procurar compreender o que habita na sua alma? Não, para uma ciência sedenta de teorias escorrendo em páginas virgens de papel Nell é somente um objecto de estudo, possível cobaia numa experiência , sinónimo de novas etapas do procedimento e informação científica. A diferença que nela habita é um alvo a abater sem qualquer pudor. É uma necessidade. Imagem de intolerância e incompreensão.
No filme, o médico transpira a necessidade de compreensão tatuada num afecto e intimidade louvável. A sua preocupação primordial passa pela protecção de uma essência e de uma alma que constitui uma individualidade angelical. Desprovida de sombras e simulacros corruptos, detentora de uma realidade que ultrapassa escárnio e sedes opressoras de glória e endeusamento, Nell é uma essência voando livre em busca de um amor e uma esperança que definem e dêem sentido a uma vida. É um caso raro nos dias que correm, onde a preocupação de viver cada dia respira nos nossos corpos. Ela procura voar sobre o tempo e a mágoa de sentir o espírito doente. Protege esse espírito e esses valores abraçando a natureza, procurando mostrar a quem se encontra disponível e aberto para tal, essas mesmas realidades tatuadas no seu rosto sedoso e na sua pele inocente e pura. O seu olhar é denso e penetrante, despindo a natureza, descobrindo nos seus trajes a beleza e pureza que a define. Nell desperta nos dois médicos o brilho que tinham escondidos dentro deles. Consegue fazer aproximar as duas essências através da realidade que guia a sua vida, imortalizada nos valores e na visão do mundo que possui. Aquela que é hostilizada pelos parâmetros da sociedade, aquela que é vítima de um desejo egocêntrico de destruição. Quando é levada para o hospital, o seu espírito adoece lentamente. A sua alma pede ajuda ao coração que sempre brilhou, indiferente a toda a escuridão adjacente à vivência humana alicerçada nos valores ditos “comuns”. Encontra-se aprisionada no desconhecido, nos valores que nunca pediu para conhecer, aqueles sobre os quais possuí uma pequena ideia mas que não quer densificar.
Remete a sua dor para o silêncio onde a sua essência se encontra mergulhada. E finalmente quando tem oportunidade para comunicar o perfume que molda a sua essência, fá-lo proferindo as seguintes palavras: “Não se olham nos olhos e têm fome de sossego(...)sei que todos se vão, todos se vão embora(...) não tenham medo por Nell, não chorem por ela,(...) não tenho tristezas maiores que as vossas”. Acordes de uma vida, de um sonho, de uma verdade. Conseguiu transmitir a sua visão porque o médico procurou compreendê-la. Conduziu todas as suas forças e energia em busca desse objectivo nobre. Quis conhecer verdadeiramente a sua essência, a sua razão e a verdade sobre os ditames da tolerância e compreensão. Ficou para sempre maior como Homem e como Ser. Aprendeu vivendo, compreendo, desejando essa mesma compreensão. Não hostilizou a diferença, a hipotética ameaça.
O filme transpira todos estes conceitos, esta realidade. Será tão difícil ao homem compreender a diferença? Mesmo que ela signifique pureza, beleza e simplicidade. Mesmo que ela traduza de forma inocente mas infinitamente sedutora uma visão e um amor que todos porventura podemos desejar? Perguntas soltas. As quais todos nós poderemos dar resposta. Através de acções. Através de um sentimento. Do entoar livre e sentido de uma canção. A da vida, esperança e amor. Compreensão moldada a tons de sonho. De direito à diferença, de uma individualidade. Poderemos para sempre sermos maiores. Poderemos aprender vivendo. Interactuando. Convivendo apaixonadamente com a Natureza e com quem nos rodeia.

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