terça-feira, 16 de junho de 2009

Literatura e Memória

Andei a meditar sobre a criação literária como matéria de memória e esquecimento e fui buscar em alguns escritores pistas para uma reflexão sobre a questão das relações entre literatura e memória.

O escritor português José Saramago, diz que “todas as memórias são falsas”. A descrição de um sonho “transforma esse sonho em outra coisa. Às vezes, o sonho pode ser inefável, ou seja, não pode ser descrito. O que existe são memórias de memórias, vestígios de outras memórias, memória da memória primordial. Vivemos no meio de nossa memória, como um caleidoscópio, os pedacinhos são os mesmos, mas mudam”.

Já o poeta uruguaio Mário Benedetti, autor do livro “El Olvido está Lleno de Memória”, reafirma, em sua poesia, que não há esquecimento, o esquecimento está cheio de memória. Vale a pena conferir o que esse grande poeta latino-americano diz a respeito, no poema Esse Grande Simulacro, do livro citado.

(....)

no fundo, o esquecimento é um grande simulacro
ninguém sabe nem pode / ainda que queira esquecer
um grande simulacro abarrotado de fantasmas
esses romeiros que peregrinam pelo esquecimento
como se fosse o caminho de Santiago

o dia ou a noite em que o esquecimento estale
salte em pedaços ou crepite
as lembranças atrozes e as de maravilhamento
quebrarão as trancas de fogo
arr astarão, afinal, a verdade pelo mundo
e essa verdade será a de que não há esquecimento (*)


Entre a tese de Saramago (de que todas as memórias são falsas) e a de Benedetti (de que não existe esquecimento e, portanto, o que existe, na verdade, é a memória), fico com as duas e fico também com a de outros, como a nossa Nélida Piñon , quando diz que “a memória, ao contrário do que as pessoas pensam, não recorda. Ela vai interpretar o que se viveu ou o que se pensa ter recordado. O homem recorda simplesmente o que a memória quer. Ela é autônoma em relação a nós”. É nesse sentido que compartilho igualmente da preocupação do escritor/pensador italiano Umberto Eco, quando, em entrevista recente, sobre o que ele define como a crise atual da memória, compara a Internet a Funes, um personagem de Borges que se lembrava de cada folha de cada uma das árvores que viu em sua vida, de cada letra de cada frase de todos os livros que leu e, por não possuir a capacidade de filtrar, não podia agir nem se mexer e uma das funções da memória, seja individual ou coletiva, não é somente reter, mas também filtrar.

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