segunda-feira, 29 de junho de 2009

MEMORIAL

O que chamamos de amor





" O diamante se constrói
quando o procuramos juntos
no meio da nossa vida
e cresce, límpido, cresce,
na intenção de repartir
o que chamamos de amor."



Thiago de Mello

Um Poema de SARAMAGO

Intimidade

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago

domingo, 28 de junho de 2009

Uma leitura de minha infância

O meu pé de laranja lima
José Mauro de Vasconcelos

Uma história triste

É um livro extremamente marcante, comovente e triste. Marcante pela ironia da sua história, comovente pela simplicidade transmitida e com que é escrito e triste pela dor e pelas perdas retratadas. Um livro que eu gostei de ler e que pela sua simplicidade e frontalidade me transmitiu a sua mensagem e sentimentos imiscuídos de uma forma subtil e profunda. Com uma mescla de turbulentas emoções e pequenas conquistas e vitórias, vividas pelas personagens, que vêm ao rubro de forma simples e eloquente em cada palavra, eu senti-me como se também eu participasse na história. Neste livro o mais importante não é os grandes feitos ou qualquer outro acto considerado por nós, na nossa cegueira e egocentrismo, digno e merecedor de importância, mas sim, as pequenas coisas, que no fundo acabam por ser as mais bonitas e importantes; as pequenas vitórias; a dor e a conquista, do mundo real e da vida real, que acabam por ter uma fantasia mais doce e bonita e um misticismo mais profundo, do que as grandes lendas ou histórias, apenas pelo que são.
José Mauro de Vasconcelos conta-nos a história de um menino chamado Zézé, com seis anos, pobre, extremamente inteligente, sensível e carente. Não encontrando na família e nas pessoas a ternura e o afecto de que necessita, Zézé entrega o seu amor às pequenas coisas, mas em especial a Xuxuruca ou Minguinho, o seu pé de Laranja Lima, que se torna o seu grande confessor, amigo e companheiro de brincadeiras. Com Minguinho, Zézé protege-se do mundo real com uma barreira feita de brincadeiras, canções e da doce ilusão da inocência.
Numa tentativa de despertar as pessoas que o rodeiam para a sua presença, ele sai para a rua fazendo asneiras e pregando partidas, o que tem como consequência as enormes e tradicionais "zurras" de que infelizmente é alvo. Zézé vive uma vida triste e pobre, onde consegue encontar a sua luz e felicidade através do seu enorme coração e capacidade para amar e perdoar. Mas este Mundo está prestes a mudar. Zézé acaba por descobrir a ternura e carinho de que tanto necessita com o seu amigo "Portuga", que torna a sua existência agradávell e feliz. No entanto... a história de Zezé é recheada de ironia... Quando finalmente o seu pai volta a ter um emprego capaz de lhe proporcionar uma vida confortável e estável, perde também os seus dois grandes centros e geradores de ternura e felicidade. Zézé descobre o que é a dor da perda e da saudade, perdendo assim também a sua inocência e capacidade de se abstrair do Mundo através de brincadeiras, histórias e pequeninas crenças. "Por que contam coisas às criancinhas?".

sábado, 27 de junho de 2009

Livro do Desassossego

Fragmento 204 - Livro do Desassossego - Fernando Pessoa in Bernardo Soares
imagem: Luis Lobo Henriques




Nuvens... Hoje tenho consciência do céu, pois há dias em que o não olho mas sinto, vivendo na cidade e não na natureza que a inclui. Nuvens... São elas hoje a principal realidade, e preocupam-me como se o velar do céu fosse um dos grandes perigos do meu destino. Nuvens... Passam da barra para o Castelo, de ocidente para oriente, num tumulto disperso e despido, branco às vezes, se vão esfarrapadas na vanguarda de não sei quê; meio-negro outras, se, mais lentas, tardam em ser varridas pelo vento audível; negras de um branco sujo, se, como se quisessem ficar, enegrecem mais da vinda que da sombra o que as ruas abrem de falso espaço entre as linhas fechadoras da casaria.


Nuvens... Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira. Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstracta e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também. Nuvens... Que desassossego se sinto, que desconforto se penso, que inutilidade se quero! Nuvens... Estão passando sempre, umas muito grandes, parecendo, porque as casas não deixam ver se são menos grandes que parecem, que vão a tomar todo o céu; outras de tamanho incerto, podendo ser duas juntas ou uma que se vai partir em duas, sem sentido no ar alto contra o céu fatigado; outras ainda, pequenas, parecendo brinquedos de poderosas coisas, bolas irregulares de um jogo absurdo, só para um lado, num grande isolamento, frias.


Nuvens... Interrogo-me e desconheço-me. Nada tenho feito de útil nem farei de justificável. Tenho gasto a parte da vida que não perdi em interpretar confusamente coisa nenhuma, fazendo versos em prosa às sensações intransmissíveis com que torno meu o universo incógnito. Estou farto de mim, objectiva e subjectivamente. Estou farto de tudo, e do tudo de tudo. Nuvens... São tudo, desmanchamentos do alto, coisas hoje só elas reais entre a terra nula e o céu que não existe; farrapos indescritíveis do tédio que lhes imponho; névoa condensada em ameaças de cor ausente; algodões de rama sujos de um hospital sem paredes. Nuvens... São como eu, uma passagem desfeita entre o céu e a terra, ao sabor de um impulso invisível, trovejando ou não trovejando, alegrando brancas ou escurecendo negras, ficções do intervalo e do descaminho, longe do ruído da terra e sem ter o silêncio do céu. Nuvens... Continuam passando, continuam sempre passando, passarão sempre continuando, num enrolamento descontínuo de meadas baças, num alongamento difuso de falso céu desfeito.

VINICIUS ETERNO

" Eu ainda sou tão moça pra tanta tristeza

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A COISA MAIS FINA DO MUNDO...

A coisa mais fina do mundo

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou o pão, deixou tacho no fogão com água quente.
Não me falou de amor.
Essa palavra de luxo.

Adélia Prado

Um poema que eu gosto...

“O poeta ficou cansado” de Adélia Prado

O poeta ficou cansado

Pois não quero mais ser
Teu arauto.
Já que todos têm voz,
por que só eu devo tomar navios
de rota que não escolhi?
Por que não gritas, Tu mesmo,
a miraculosa trama dos teares,
já que Tua voz reboa
nos quatro cantos do mundo?
Tudo progrediu na Terra
e insistes em caixeiros-viajantes
de porta em porta, a cavalo!
Olha aqui, cidadão,
repara, minha senhora,
neste canivete mágico:
corta, saca e fura,
é um faqueiro completo!
Ó Deus,
me deixa trabalhar na cozinha,
nem vendedor nem escrivão,
me deixa fazer Teu pão.
Filha, diz-me o Senhor,
eu só como palavras.
(Adélia Prado, Oráculos de maio)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sobre o Filme: FALE COM ELA

No seu primeiro filme do novo milênio, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar nos traz uma nova obra sobre relacionamentos entre homens e mulheres, vistos principalmente do ângulo feminino. Porém, a diferença aqui é que as mulheres que protagonizam Fale com Ela estão em estado de coma, na cama de um hospital. O último filme do diretor, Tudo Sobre Minha Mãe – referência ao clássico A Malvada (Tudo Sobre Eva, no original em inglês) – foi homenageado com inúmeros prêmios ao redor do mundo, incluindo aí um Oscar de melhor filme estrangeiro. O tema central permanece – relacionamentos – porém Fale com Ela é um filme totalmente diferente, não em relação ao último do diretor, como também é um dos filmes mais originais do ano.

Temos Benigno e Marco, dois desconhecidos que acabam virando amigos em decorrência do destino: enquanto esperam com toda a esperança possível as mulheres por quem são apaixonados, – Alicia e Lydia – saírem do estado de coma do hospital, acabam tendo uma afinidade muito grande. O interessante disso é que Benigno e Marco, enquanto amigos, possuem idéias bastante distintas em se tratando de suas amadas: Benigno possue uma espécie de amor platônico por Alicia, pois apaixonou-se sem ter tido tempo de ser correspondido, antes do acidente dela; Marco, em contrapartida, após o acidente, não consegue definir muito bem seus sentimentos com relação a Lydia, e tem dificuldades de lidar com ela na cama do hospital. Ambos só podem fazer uma coisa enquanto esperam: falar com elas...

Outro ponto interessante é o fato de, embora serem dois homens os protagonistas, o enredo ser centrado nas duas mulheres em coma. Fale com Ela desenvolve sua história através de flashbacks, mostrando as duas mulheres ainda quando fora do hospital. O filme logo avança para um ponto inesperado, e algumas reviravoltas acontecem com os dois homens. Não cabe aqui dizer muito mais, pois isso estragaria um pouco as surpresas, e é muito melhor saborear a história por você mesmo. Mas é apenas importante ressaltar que o roteiro é muito bem desenvolvido, alterando momentos emocionantes (com o uso da música, da qual será falado logo em seguida), com alguns momentos leves e engraçados. Almodóvar ousa e coloca, inclusive, um filme mudo em preto-e-branco (fictício, é bom dizer) de sete minutos dentro do filme principal, que altera, positivamente, o ritmo do filme. É algo também inesperado e que funciona muito bem, para esquecermos momentaneamente o drama dos personagens principais.

A história é bastante forte, porém Almodóvar tem todo o controle do filme e trata de assuntos como estupro, desejo e morte com a habilidade de um cineasta experiente e, porque não dizer, gênio. Em relação à originalidade citada logo no início, não há como descrevê-la, senão vendo o filme por si mesmo. É uma mistura de fotografia diferenciada (porém sem usar nenhuma técnica nova), com a própria história, as imagens (o filme mostra uma tourada belíssima), tudo em conjunto com a música... ah, a música! O filme ganha ainda mais força com o uso dela. Destaque aqui para o Brasil, com a participação especial de Caetano Veloso cantando em espanhol uma versão da música Cucurrucucu Paloma, que funciona não só para a platéia como para os personagens do filme, que emocionam-se enquanto ouvem. Além disso, há outras referências bem explícitas ao Brasil. Novamente, recomendo a você mesmo assistir para descobrir o que acontece.

Fale com Ela, mesmo não sendo uma obra-prima (embora original, a história não deixa de apresentar alguns poucos clichês), prova mais uma vez que o cinema latino está em franca expansão, em termos de idéias e qualidade, deixando o cinema norte-americano para trás em termos de roteiros e personagens. Uma generalização perigosa, mas que é bastante evidente nos últimos dois anos, com sucessos como Amores Brutos, E a Sua Mãe Também, Cidade de Deus, e Fale com Ela, que são filmes deliciosos e inesquecíveis.

terça-feira, 23 de junho de 2009

CONTO

VENHA VER O PÔR DO SOL

Lygia Fagundes Telles

ELA SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.
Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante.
- Minha querida Raquel.
Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.
- Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima
Ele sorriu entre malicioso e ingênuo.
- Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância...Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?
- Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui? - perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. - Hem?!
- Ah, Raquel... - e ele tomou-a pelo braço rindo.
- Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado...Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal?
- Podia ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí? Um cemitério?
Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.
- Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. - Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.
- Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.
Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.
- Ver o pôr do sol!...Ah, meu Deus...Fabuloso, fabuloso!...Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério...
Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.
- Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...
- E você acha que eu iria?
- Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada...- disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento –Você fez bem em vir.
- Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
- Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.
- Mas eu pago.
- Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.
Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.
- Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.
- Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
- É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.
- Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo...
O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.
- É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente – exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega.
- Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.
- Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele beijou-lhe a mão.
- Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.
- É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
- Ele é tão rico assim?
- Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...
Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.
- Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?
Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.
- Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã...Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como agüentei tanto, imagine um ano.
- É que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem?
- Nenhum - respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: - A minha querida esposa, eternas saudades - leu em voz baixa. Fez um muxoxo.- Pois sim. Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.
Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja- disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas...Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.
- Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim – Deu-lhe um rápido beijo na face. - Chega Ricardo, quero ir embora.
- Mais alguns passos...
- Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para atrás. – Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.
- A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio – lamentou ele, impelindo-a para frente. – Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. – E, tomando-a pela cintura: - Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.
- Sua prima também?
- Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos...Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas...Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
- Vocês se amaram?
- Ela me amou. Foi a única criatura que...- Fez um gesto. – Enfim não tem importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o
- Eu gostei de você, Ricardo.
- E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?
Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
- Esfriou, não? Vamos embora.
- Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.
Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.
Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.
- Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico.
- Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo?
- Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.
Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.
- E lá embaixo?
- Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó- murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. – A cômoda de pedra. Não é grandiosa?
Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.
- Todas estas gavetas estão cheias?
- Cheias?...- Sorriu.- Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe- prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.
Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
- Vamos, Ricardo, vamos.
- Você está com medo?
- Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado:
- A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo-a se exibir, estou bonita? Estou bonita?...- Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.- Não, não é que fosse bonita, mas os olhos...Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.
- Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando...
Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.
- Pegue, dá para ver muito bem...- Afastou-se para o lado.- Repare nos olhos.
- Mas estão tão desbotados, mal se vê que é uma moça...- Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.- Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida...- Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel – Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti...
Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.
- Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso? Brincadeira mais cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma, ouviu?
Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.
- Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco.- Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!
- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.
Ela sacudia a portinhola.
- Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!- Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. - Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...
Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.
- Boa noite, Raquel.
- Chega, Ricardo! Você vai me pagar!... - gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.- Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos!- exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando.
- Não, não...
Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.
- Boa noite, meu anjo.
Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.
- Não...
Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:
- NÃO!
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Violinos não envelhecem.

Violinos não envelhecem.
Violinos não envelhecem - Rubem Alves

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VIOLINOS NÃO ENVELHECEM

Rubem Alves


Eu a escrevi faz muito tempo --- uma estória de amor. Quem a leu, eu sei, não se esqueceu.
Por razão do dito pela Adélia: " o que a memória ama fica eterno". História de amor não inventada, acontecida, tão comovente quanto Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa. O que fiz foi só registrar o acontecido.
Preciso contá-la de novo, para benefício daqueles que não a leram pela primeira vez, e a fim de acrescentar um final novo, inesperado, acontecido depois.
A testemunha que me relatou o sucedido foi sobrinho, médico-músico, pessoa querida e bonita.
Atrasou-se para um compromisso na minha casa, chegou três horas depois, explicando que havia ido ao velório de um tio de 81 anos de idade que morrera de amor. Parece que seu velho corpo não suportara a intensidade da felicidade tardia, e os seus músculos não deram conta do jovem que, repentinamente, dele se apossara.
O amor surgira no tempo em que ele é mais puro: a adolescência.
Mas naqueles tempos havia uma outra Aids, chamada tuberculose, que se comprazia em atacar as pessoas bonitas, os artistas, os apaixonados --- esses eram os grupos de risco.
Pois ela, a tuberculose, invejosa da felicidade dos dois, alojou-se nos pulmões do moço, que teve de ir em busca de ar puro, no alto das montanhas, sanatório, tal como Thomas Mann descreve em seu livro -A montanha mágica.
Quem ia para tais lugares despedia-se com um "adeus", um olhar de "nunca mais".
Na melhor das hipóteses, muitos anos haveriam de passar antes do reencontro.
Imagino o sofrimento da jovem dividida: o corpo, naquela casa, a alma por longe terra!
Na vida daquela menina, que surda, perdida guerra... (Cecília Meireles).
Valeram mais os prudentes conselhos da mãe e do pai: não trocar o certo pelo duvidoso.
Vale mais um negociante vivo que um tuberculoso morto. E aconteceu com ela o que aconteceu com a Firmina Dazza, que de longe e às escondidas namorava o Fiorentino Ariza, na estória de Gabriel García Márquez Amor nos tempos do cólera, que foi obrigada pelo pai a se casar com o doutor Urbino: não se troca um médico por um escriturário. Casou e com ele ficou até que, depois de 51 anos, veio a libertação...
Ela casou. Ele casou. Nunca mais se viram. Quando ele tinha 76 anos, ficou viúvo. Quando ela tinha 76 anos (ele tinha 79), ela ficou viúva. E ficou sabendo que ele estava vivo. A curiosidade e a saudade foram fortes demais. Foi procurá-lo. Encontraram-se. E, de repente, eram namorados adolescentes de novo.
Resolveram casar-se. Os filhos protestaram. Eles, os filhos, todos os filhos, não suportam a idéia de que os velhos também têm sexo. Especialmente os pais. Pais velhos devem ser fofos, devem saber contar estórias, devem tomar conta dos netos. Mas velho apaixonado é coisa ridícula. Não combina. Mais detalhes no livro da Simone de Beauvoir sobre a velhice. E houve também aquela estória do programa Você decide: o velho pai, infeliz a vida inteira com a esposa, encontra uma mulher por quem se apaixona.
A pergunta: ele deve ou não deve deixar a esposa para viver o novo amor? Você decide... A decisão do público --- os filhos, evidentemente: "Não, ele não deve viver o novo amor..."
Os filhos sempre decidem contra o amor dos pais.
Mas, na nossa estória, os dois velhos deram uma solene banana para os filhos e foram viver juntos em Poços de Caldas. Viveram um ano de amor maravilhoso, e ele até começou a escrever poesia e voltou a tocar o violino que ficara por mais de 50 anos sobre um guarda roupa, porque a esposa não gostava de música de violino. Confessou ao sobrinho: "Se Deus me der dois anos de vida com esta mulher, minha vida terá valido a pena..." Bem que Deus quis. Mas o corpo não deixou. Morreu de amor, como temia o Vinícius.
Achei a estória tão bonita que a transformei numa crônica a que dei um título inspirado nas Sagradas
Escrituras: "... e os velhos se apaixonarão de novo".
Começa aqui o novo final para a estória.
Passaram-se semanas. Eram dez horas. Eu estava trabalhando no meu escritório. O telefone tocou.
Voz aveludada de mulher do outro lado.
--- É o professor Rubem Alves?
--- Sim, respondi secamente. Eu sou sempre seco ao telefone.
--- Quero agradecer a belíssima crônica que o senhor escreveu com o título: " ...e os velhos se apaixona-rão de novo". O senhor já deve ter adivinhado quem está falando....
--- Não, respondi. Por vezes eu sou meio burro. Aí ela se revelou:
--- Sou a viúva.
Foi o início de uma deliciosa conversa de mais de 40 minutos, interurbano, em que ela contou detalhes que eu desconhecia. O medo que ela teve quando ele resolveu mandar consertar o violino! Ela temia que os dedos dele já estivessem duros demais...
Ah! Que metáfora fascinante para um psicanalista sensível! Sim, sim! Nem os violinos ficam velhos demais, nem os dedos ficam impotentes para produzir música! E aí foi contando, contando, revivendo, sorrindo, chorando --- tanta alegria, tanta saudade, uma eternidade inteira num grão de areia... Ao terminar, ela fez esta observação maravilhosa:
--- Pois é, professor. Na idade da gente, a gente não mexe muito com sexo. A gente vive de ternura!

Aqui termina a lição do Evangelho

domingo, 21 de junho de 2009

OLHAR ATENTO PARA A VIDA!

Sugestão de leitura

LINDOS DE MORRER
Autora:Jocelyne Levy Rosenberg

Lifting, botox, laser,silicone nos seios e bumbum, levantamento das pálpebras, lipoaspiração, anabolizantes...Vale tudo para conquistar um padrão de beleza? mas até onde uma pessoa pode chegar quando prisioneira desse labirinto de espelhos?Como reverter o quadro e voltar a levar uma vida saudável e verdadeiramente feliz?
A discussão está na ordem do dia e não pode mais esperar.Com a palavra DRA JOCELYNE!

Os Sete saberes....Todo educador precisa ler.

Resenha: Os Sete Saberes Necessários À Educação Do Futuro (Edgar Morin)
Por Conteúdoescola
23 de julho de 2004
Página 1 de 10
...

Morin, Edgar - Os sete Saberes Necessários à Educação do Futuro 3a. ed. - São Paulo - Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2001



Em 1999, a UNESCO solicitou ao filósofo Edgar Morin - nascido na França, em 1921 e um dos maiores expoentes da cultura francesa no século XX - a sistematização de um conjunto de reflexões que servissem como ponto de partida para se repensar a educação do século XXI.

Os sete saberes indispensáveis enunciados por Morin, objeto do presente livro:

- as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão;
- os princípios do conhecimento pertinente;
- ensinar a condição humana;
- ensinar a identidade terrena;
- enfrentar as incertezas;
- ensinar a compreensão;
- a ética do gênero humano,

são eixos e, ao mesmo tempo, caminhos que se abrem a todos os que pensam e fazem educação e que estão preocupados com o futuro das crianças e adolescentes.

O texto de Edgar Morin tem o mérito de introduzir uma nova e criativa reflexão no contexto das discussões que estão sendo feitas sobre a educação para o Século XXI.

Aborda temas fundamentais para a educação contemporânea, por vezes ignorados ou deixados à margem dos debates sobre a política educacional.

Sua leitura levará à revisão das práticas pedagógicas da atualidade, tendo em vista a necessidade de situar a importância da educação na totalidade dos desafios e incertezas dos tempos atuais.

Seus capítulos - ou eixos - expõem a genialidade, clareza e simplicidade do filósofo Morin, num texto dedicado aos educadores, em particular, mas acessível a todos que se interessam pelos caminhos a trilhar em busca de um futuro mais humano, solidário e marcado pela construção do conhecimento.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Sobre o filme: Nell

Uma vida dançando ao vento suave da memória

NELL

Um testemunho de uma vida dançando ao vento suave de memórias embebidas num mar de amor e de esperança onde a água brilha incessante, lavando a mágoa e a dor de um mundo onde cada vez mais se acolhe a tristeza e cruel visão de anjos vestidos de negro descendo à terra, resgatando das inocentes mãos de doces almas a pureza e simplicidade de sonhos. Despedaçando verdades e corações, tatuando na sua essência a amarga raiz da incompreensão humana e material, do culto opressor e metafísico. Nell encontra-se sozinha na floresta. Perante uma linguagem que aprendeu a amar e a proteger, que é somente a sua linguagem com a alma que a habita, com a essência que a define como um ser único, utiliza-a na sua vivência diária, como modo de transmitir os seus conhecimentos e a visão que possui de um mundo criado sobre as suas experiências. O seu dialecto constitui o testemunho de uma vida a ela entregue num manto suave de amor e compreensão. Dois médicos acabam por descobrir uma “criatura” fascinante perdida no leito suave e acolhedor da floresta. Rapidamente se torna um objecto de estudo apetecível para os dois, não só pelo desejo de descoberta de tal acontecimento, assim como de possível factor impulsionador de uma carreira de trabalho.
No entanto um dos médicos, desempenhado por Liam Neeson, esconde em si objectivos muito mais nobres no estudo de Nell. A sua natureza social, os modelos comportamentais que moldaram a sua maneira de ver e sentir o mundo não lhe envenenam o discernimento mental e a capacidade de compreensão de uma diferença que obviamente não é sempre inferior. O médico preocupa-se com a pessoa, com o ser que esconde sonhos e desejos, uma essência e uma alma únicas. Nell não é para ele uma “selvagem”, que possui uma “linguagem destorcida”. Nell é uma pessoa, um ser que possui sentimentos e tem o direito à compreensão.
A cultura moderna hostiliza tudo o que não é conhecido. Tudo o que não pertence ao foro do culturalmente adquirido e aceitado historicamente é potencialmente perigoso e inconcebível. É efectivamente disto que se trata, atitudes profundamente mergulhadas num egocentrismo e xenofobia opressores. Porque mesmo não se tratando obviamente de uma cultura diferente, Nell possui uma visão única e suave do mundo, como lugar habitado por uma natureza resplandecente, que destila incessante e de um modo suavemente sedutor toda a beleza que lhe veste a essência. À noite banha-se nas doces águas do rio, fundindo o seu corpo puro com a natureza que a acolhe e a incentiva a respirar sem névoa ou malícia um perfume que lhe parece sempre único. De noite rejuvenesce contemplando a beleza virgem de uma lua imensa, que engole o horizonte com o seu brilho transcendental. A vida saboreando a Natureza. A inocência de um sorriso simples e sentido. Oásis de amor e de esperança bebendo da floresta a sua inspiração e força, num contacto profundo com a pureza do sentir. O colo da lua é o seu baloiço de sonhos, o seu caleidoscópio de ensinamentos entoados sobre o leito límpido da Natureza. Não precisa de mais nada. Não pediu mais nada.
Efectivamente “as atitudes, as condutas e os pensamentos são eles próprios o resultado da adaptação do espírito do homem às condições ambientes e uma resposta aos estímulos exteriores”, segundo J.B.Watson. O filme claramente bebe da teoria behavorista parte da sua força e poder argumentativo. A personagem de Nell constitui a imagem crucial e materializada de um ser que se adaptou ao ambiente que a rodeia, constituindo o seu espírito e a sua essência o reflexo desse mesmo ambiente. Os pensamentos e condutas que perpetua e que defende são resultado desse meio onde se encontra inserida. Recorrendo por outro lado a uma teoria apresentada por Piaget, “o conhecimento tem início quando o recém nascido, através dos seus reflexos que fazem parte da sua bagagem hereditária, age assimilando alguma coisa do meio físico e social. Daí provém sucessivas estruturações formando etapas características, chamadas estágios ou níveis de conhecimento”. Recorrendo a esta teoria apresentada e aplicando-a ao caso específico do filme comentado é fácil estabelecer uma relação precisa e concisa entre as duas realidades. Nell recebeu uma educação “especial”. Na sua diferença reside o foco incessante e doloroso de repudia e incompreensão social. Nell assimilou factores e aspectos essenciais do meio físico e social em que se encontrava mergulhada , e o qual lhe banhava a face e lhe oferecia a dádiva pura e simples da natureza, dos valores simples e afectuosos.
Os estágios e níveis de conhecimento a que a transcrição se refere, no caso preciso de Nell manifestaram-se de uma forma muito pouco comum. Embora pareça possuir um conhecimento insuficiente ( para as pessoas que se encontram perto dela, para a maioria da sociedade ), a realidade irá mostrar a essas mesmas pessoas que efectivamente caíram em erro e foram claramente prejudicadas por juízos preconcebidos de valor.
Quando o doutor observa pela primeira vez a beleza pura e simples de uma “criança selvagem”, proferindo palavras soltas banhadas num oceano sedutor e inocente de incompreensão, não deixa de ficar profundamente apaixonado pela visão que se depara perante os seus olhos. Porque sente nela algo de diferente, no espaço que os envolve nasce uma intimidade que os irá guiar durante todo o filme. Nasce uma relação de compreensão, densificada em manifestações ternas de carinho e de procura de entendimento mútuo. Ele não está ali ávido de um objecto de estudo, detentor de um qualquer objectivo específico e preciso. Está ali movido por uma curiosidade aguçada e a sua essência e alma vão ser encaminhadas para uma realidade que irá ultrapassar a mera curiosidade. Conforme cresce a relação entre o médico e a Nell, nasce também uma nova realidade para o coração do médico. Novos valores e ensinamentos tatuam a sua essência, ajudando-o a encontrar na sua alma, parte de si que nunca reconhecera. Nell utilizando o dom que a faz ser única consegue aproximar e renascer essências anteriormente parcialmente adormecidas num trabalho e numa sociedade opressora e egocêntrica. A sociedade, as definições, valores culturais e humanos que a pretendem compreender nunca o conseguem por intermédio da sua acção, porque efectivamente guiam os seus esforços não em prol da compreensão mas sim de uma demonstração hipócrita e egoísta de uma detenção de um conhecimento perfeito e imutável. É principalmente devido a esta cruel realidade que a doutora não consegue compreender Nell , quando a começa a conhecer. Porque não a quer conhecer. A essência individual que lhe banha a face, os seus ensinamentos e os seus sonhos e valores, não são o objecto de estudo tão pouco. São alvos a abater em nome do que está socialmente alicerçado, dos valores culturais correctos e admitidos. A pessoa, a essência de Nell é subjugada sob o nome da ciência, dos valores e conceitos que a mesma defende. Sob o nome de um modelo social que possui regras inflexíveis alicerçado num aparelho estrutural rigidamente construído. A nossa sociedade é cada vez mais sinónimo de incompreensão e hostilidade pela diferença. E muitas vezes não se preocupa ( o que é verdadeiramente assustador ) sobre as causas e significado dessa mesma diferença, ou mesmo se a mesma constituí algum perigo ou ameaça ao bom funcionamento da vida em sociedade, em defesa dos valores e normas comportamentais culturalmente aceites.
Como ameaça ao bom funcionamento de uma sociedade, todo aquele que demonstre através dos seus actos poder vir a tornar-se uma ameaça para esse funcionamento, obviamente terá que ser alvo de medidas coesivas e de vigilância. É esse o principal objectivo da ciência em relação a pessoas como a Nell. A repudia da via de entendimento sobre a sombra negra e disforme da coasão e do controle social. Obviamente que as coisas nem sempre são assim tão simples, e em alguns casos essa coasão é profundamente justificável em nome da vida harmoniosa em sociedade. No entanto Nell sente os corações. Nell tem na sua essência a pureza de um sentimento que guia a vida e comanda um sonho. Tem na sua alma as asas que oferecem voos rumo ao verdadeiro sabor da vida. Na sua pureza e inocência afrodisíacas encontra-se reflectida na sociedade a realidade antagónica. Sede humana de poder, de conhecimento como obtenção desse mesmo poder. Sabor desejado de glória e de cifrões escorrendo brilhantes numa vida ostensiva. Vomitando notas que compram almas e sonhos. Que compram uma vontade e corrompem a verdade. A ela nada disso lhe interessava. Apenas continuar a viver a sua vida, comunicando com a linguagem que lhe fora transmitida, com a qual conhecia parte do mundo natural. O mundo que a acolhia sob a forma belíssima de florestas e rios, folhagens macias ondulando ao vento. Sob a forma de uma casa de campo que a protegia do frio e dos perigos da vida. Uma visão tão límpida, tão pura, a que guiava a sua razão e o seu amor, a sua fé infinitamente divina na procura de um sonho lindo, aquele que lhe oferecia a visão suave e terna da sua irmã, confidente de brincadeiras e de corridas livres no coração da floresta. O sol beijando a sua face, o amor terno de quentura primaveril. O brilho sem medos. A pureza magnífica do sol, irmão da lua, companheiros de essência. A beleza de uma relação pura e imortal. Os anjos levaram o corpo da sua irmã, mas a essência vive eternamente dentro dela. Linguagem de amor, de união. Quando olhou para o espelho procurou transmitir essa mesma linguagem. Procurou repartir com o mundo uma realidade inocente e pura. A ciência não a compreendeu. Viu-se a ela e à irmã. Tudo para ela é uma infinita descoberta. Sabor de vida, paladar existencial e metafísico. Procuravam-lhe retirar isso tudo em nome de um conhecimento científico ávido de novas realidades e noções. Um conhecimento científico que em prol da sua necessidade de informação pretendia utilizar uma essência e individualidade como cobaia para a sua obtenção de informação. Converter uma essência que não queria ser convertida. Ditar intoleravelmente o que era melhor para Nell, sem sequer procurar compreendê-la ou ouvir a sua voz. Nell para a ciência será sempre uma “pessoa atrasada” , detentora de “uma linguagem destorcida”, “uma criança selvagem”. Criança selvagem como sinónimo de uma inocência. Inocência porque a sua essência se encontra imaculada da podridão humana e de tudo o que inspira repudia. Selvagem porque não tem água corrente, electricidade nem telefone. Porque vive no coração da Natureza, não conhece um carro, um avião. Não possui o conhecimento para sobreviver segundo os parâmetros superiores da sociedade moderna. Quem disse? Quem o pode afirmar peremptoriamente?
Ninguém. Ninguém o pode afirmar. Porque não conhecer a sua essência, procurar compreender o que habita na sua alma? Não, para uma ciência sedenta de teorias escorrendo em páginas virgens de papel Nell é somente um objecto de estudo, possível cobaia numa experiência , sinónimo de novas etapas do procedimento e informação científica. A diferença que nela habita é um alvo a abater sem qualquer pudor. É uma necessidade. Imagem de intolerância e incompreensão.
No filme, o médico transpira a necessidade de compreensão tatuada num afecto e intimidade louvável. A sua preocupação primordial passa pela protecção de uma essência e de uma alma que constitui uma individualidade angelical. Desprovida de sombras e simulacros corruptos, detentora de uma realidade que ultrapassa escárnio e sedes opressoras de glória e endeusamento, Nell é uma essência voando livre em busca de um amor e uma esperança que definem e dêem sentido a uma vida. É um caso raro nos dias que correm, onde a preocupação de viver cada dia respira nos nossos corpos. Ela procura voar sobre o tempo e a mágoa de sentir o espírito doente. Protege esse espírito e esses valores abraçando a natureza, procurando mostrar a quem se encontra disponível e aberto para tal, essas mesmas realidades tatuadas no seu rosto sedoso e na sua pele inocente e pura. O seu olhar é denso e penetrante, despindo a natureza, descobrindo nos seus trajes a beleza e pureza que a define. Nell desperta nos dois médicos o brilho que tinham escondidos dentro deles. Consegue fazer aproximar as duas essências através da realidade que guia a sua vida, imortalizada nos valores e na visão do mundo que possui. Aquela que é hostilizada pelos parâmetros da sociedade, aquela que é vítima de um desejo egocêntrico de destruição. Quando é levada para o hospital, o seu espírito adoece lentamente. A sua alma pede ajuda ao coração que sempre brilhou, indiferente a toda a escuridão adjacente à vivência humana alicerçada nos valores ditos “comuns”. Encontra-se aprisionada no desconhecido, nos valores que nunca pediu para conhecer, aqueles sobre os quais possuí uma pequena ideia mas que não quer densificar.
Remete a sua dor para o silêncio onde a sua essência se encontra mergulhada. E finalmente quando tem oportunidade para comunicar o perfume que molda a sua essência, fá-lo proferindo as seguintes palavras: “Não se olham nos olhos e têm fome de sossego(...)sei que todos se vão, todos se vão embora(...) não tenham medo por Nell, não chorem por ela,(...) não tenho tristezas maiores que as vossas”. Acordes de uma vida, de um sonho, de uma verdade. Conseguiu transmitir a sua visão porque o médico procurou compreendê-la. Conduziu todas as suas forças e energia em busca desse objectivo nobre. Quis conhecer verdadeiramente a sua essência, a sua razão e a verdade sobre os ditames da tolerância e compreensão. Ficou para sempre maior como Homem e como Ser. Aprendeu vivendo, compreendo, desejando essa mesma compreensão. Não hostilizou a diferença, a hipotética ameaça.
O filme transpira todos estes conceitos, esta realidade. Será tão difícil ao homem compreender a diferença? Mesmo que ela signifique pureza, beleza e simplicidade. Mesmo que ela traduza de forma inocente mas infinitamente sedutora uma visão e um amor que todos porventura podemos desejar? Perguntas soltas. As quais todos nós poderemos dar resposta. Através de acções. Através de um sentimento. Do entoar livre e sentido de uma canção. A da vida, esperança e amor. Compreensão moldada a tons de sonho. De direito à diferença, de uma individualidade. Poderemos para sempre sermos maiores. Poderemos aprender vivendo. Interactuando. Convivendo apaixonadamente com a Natureza e com quem nos rodeia.

Palavras.

"Eu me entendo escrevendo. E vejo tudo sem vaidade. Só tem eu e esse branco. Ele me mostra o que eu não sei. E me faz ver o que não tem palavras. Por mais que eu tente, são só palavras. Por mais que eu me mate, são só palavras"

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A LÌNGUA DAS MARIPOSAS

Ir a escola pela primeira vez é um grande desafio para uma criança. Não importa a idade, independe do país e mesmo do contexto histórico no qual está inserida a criança. A superação da insegurança só acontece após alguns dias, depois de uma plena adaptação, através da qual o menino ou menina conheça seus colegas, compreenda a dinâmica do ambiente escolar e trave o necessário e primordial contato com seu professor.
Nesse aspecto, a figura do professor é definidora não apenas no sentido da ambientação. Os mestres respondem pela própria paixão a ser despertada nos infantes. Parte deles toda a energia vital que, necessariamente, contagia os alunos e faz com que eles não apenas se sintam bem na escola, mas também, que alimentem certa paixão pela aprendizagem, pelo conhecimento, pela pesquisa...
José Luiz Corda, cineasta espanhol, retratou com grande êxito, os primeiros passos do menino Moncho (Manuel Lozano), de sete anos, nessa grande aventura de ingressar na escola, através de seu filme “A Língua das Mariposas”.
A sensibilidade do filme de Corda nos remete a duas outras grandes obras recentes da filmografia européia, as produções italianas “A Vida é Bela”, de Roberto Begnini e “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore. Além disso, a intensa relação que se define entre Moncho e seu velho professor Don Gregório (Fernando Fernán-Gomes) nos fazem lembrar das parcerias estabelecidas entre Giosué e Guido (de “A Vida é Bela”) e entre Totó e Alfredo (de Cinema Paradiso).
Entretanto, diferentemente daqueles filmes, “A Língua das Mariposas” tem como foco a relação professor-aluno. Estabelece a imagem do professor humano, caloroso, próximo e paciente. Nos mostra a atitude do profissional da educação como aquela do erudito, que lê, pesquisa, conversa regularmente com muitas pessoas e é admirado pela comunidade.
O filme nos mostra Don Gregório como uma figura impar dentro do contexto educacional da época retratada (o filme se passa no período brevemente anterior a Guerra Civil Espanhola), fica claro para o espectador que a atitude desse educador contrasta com posicionamentos mais fortes e autoritários dos demais professores da época (Antes de conhecer Don Gregório, o menino Moncho tem medo de ir a escola e fala em fugir para a América; receia que possa ser punido com severidade pelo futuro professor).
Além disso, a preocupação em ensinar e cativar as crianças não se restringe a demonstrar todo o conhecimento obtido a partir de leituras e pesquisas. Don Gregório representa o educador íntegro, que se percebe como referência (e que, nem por isso, se envaidece) e que, ciente de suas responsabilidades a partir de então, se mostra sempre sereno, altivo e elegante.
Mais que teorias, ele ensina a seus alunos novas posturas perante o mundo, onde as pessoas devem se respeitar, ter sensibilidade e jamais abandonar seus ideais...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

MITOLOGIAS Roland Barthes

SIGNOS DO MUNDO BURGUÊS

Mitologias, de Roland Barthes, tradução de Rita Buongermino e Pedro de Souza, São Paulo, Difel, 1982. Mythologies, Paris, Seuil, 1957. Reedição em livro de bolso, Seuil, 1970



Qual a razão de um intelectual refinado e já especializado como Roland Barthes, autor de um livro difícil como O Grau Zero da Escritura, se interessar por assuntos tão corriqueiros, anódinos e pouco culturais? Por impaciência, como ele mesmo explicou depois. Porque algo o incomoda profundamente no modo como esses mitos se veiculavam, na confusão entre Natureza e História sobre a qual eles se instalavam. O próprio desses discursos (fossem eles verbais ou icônicos) era apresentarem-se com uma aparência de naturalidade absoluta, como aquilo que simplesmente é assim, que o senso comum não discute, mas apenas aceita. Barthes resolveu dedicar total atenção a estes mitos partindo de observações quase óbvias, pois vai estabelecendo relações insuspeitas para o consumidor desprevenido, até que a notícia, o espetáculo, a imagem se revelam, de repente, como algo diferente daquilo que pareciam ser.
No livro tem-se o conceito de mito em seu sentido corrente de falsa evidência, de mentira aceita por uma comunidade. Os mitos que atraíam a atenção de Barthes eram certas representações da vida cotidiana, menores e aparentemente inocentes: uma notícia de jornal sobre as famílias reais européias, um texto qualquer de publicidade, espetáculos esportivos ou eróticos (a luta livre ou o strip-tease), fotografias de atores ou de políticos, enfim, o que ocupa o público médio em suas horas de lazer.
O autor analisa o embuste na própria forma de mensagem que, desmontada, revela sua artificialidade. Ora, a eficácia da mensagem ideológica reside justamente no fato de ela se apresentar como transparente, sem nenhuma intenção. Apontar o arranjo oculto de suas formas naturais é fazer desmoronar no ato as idéias que ela veicula. O próprio Barthes declarou em entrevista, que o leitor ficará mais desconfiado daquilo que se consome como informação ou lazer inofensivos. Estes argumentos demonstram que as mitologias são, realmente, uma ginástica ou um estimulante da inteligência.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Saudade Clarice Lispector

Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...

Literatura e Memória

Andei a meditar sobre a criação literária como matéria de memória e esquecimento e fui buscar em alguns escritores pistas para uma reflexão sobre a questão das relações entre literatura e memória.

O escritor português José Saramago, diz que “todas as memórias são falsas”. A descrição de um sonho “transforma esse sonho em outra coisa. Às vezes, o sonho pode ser inefável, ou seja, não pode ser descrito. O que existe são memórias de memórias, vestígios de outras memórias, memória da memória primordial. Vivemos no meio de nossa memória, como um caleidoscópio, os pedacinhos são os mesmos, mas mudam”.

Já o poeta uruguaio Mário Benedetti, autor do livro “El Olvido está Lleno de Memória”, reafirma, em sua poesia, que não há esquecimento, o esquecimento está cheio de memória. Vale a pena conferir o que esse grande poeta latino-americano diz a respeito, no poema Esse Grande Simulacro, do livro citado.

(....)

no fundo, o esquecimento é um grande simulacro
ninguém sabe nem pode / ainda que queira esquecer
um grande simulacro abarrotado de fantasmas
esses romeiros que peregrinam pelo esquecimento
como se fosse o caminho de Santiago

o dia ou a noite em que o esquecimento estale
salte em pedaços ou crepite
as lembranças atrozes e as de maravilhamento
quebrarão as trancas de fogo
arr astarão, afinal, a verdade pelo mundo
e essa verdade será a de que não há esquecimento (*)


Entre a tese de Saramago (de que todas as memórias são falsas) e a de Benedetti (de que não existe esquecimento e, portanto, o que existe, na verdade, é a memória), fico com as duas e fico também com a de outros, como a nossa Nélida Piñon , quando diz que “a memória, ao contrário do que as pessoas pensam, não recorda. Ela vai interpretar o que se viveu ou o que se pensa ter recordado. O homem recorda simplesmente o que a memória quer. Ela é autônoma em relação a nós”. É nesse sentido que compartilho igualmente da preocupação do escritor/pensador italiano Umberto Eco, quando, em entrevista recente, sobre o que ele define como a crise atual da memória, compara a Internet a Funes, um personagem de Borges que se lembrava de cada folha de cada uma das árvores que viu em sua vida, de cada letra de cada frase de todos os livros que leu e, por não possuir a capacidade de filtrar, não podia agir nem se mexer e uma das funções da memória, seja individual ou coletiva, não é somente reter, mas também filtrar.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Um pouco sobre a arte de educar!

O EDUCADOR (Rubem Alves)
"O estudo da gramática não faz poetas.
O estudo da harmonia não faz compositores.
O estudo da psicologia não faz pessoas equilibradas.
O estudo das "ciências da educação" não faz educadores.
Educadores não podem ser produzidos. Educadores nascem.
O que se pode fazer é ajudá-los a nascer.
Para isso eu falo e escrevo:
para que eles tenham coragem de nascer.

Quero educar os educadores. E isso me dá grande prazer
porque não existe coisa mais importante que educar.
Pela educação o indivíduo se torna mais apto para viver:
aprende a pensar e a resolver os problemas práticos da vida.
Pela educação ele se torna mais sensível e mais rico interiormente,
o que faz dele uma pessoa mais bonita, mais feliz
e mais capaz de conviver com os outros".


Rubem Alves

Vale a pena ver e ouvir tem outros poemas lindos!

domingo, 14 de junho de 2009

sábado, 13 de junho de 2009

Depoimento do filho

Jornalista 26 anos solteiro




Quando eu era pequeno, me recordo que nossa relação era bem próxima, próxima mesmo, juntamente com a minha irmã, primos e outras crianças. Mãe sempre falava detidamente sobre outras pessoas, da família e amigos, com compreensão e olhar meticuloso sobre características particulares. Ela gosta de signos do zodíaco, coincidências e avisos do tempo, é mística, e me passou o gosto por essas coisas também. À medida que fui crescendo, me tornei mais reservado. Isso foi minha própria mãe quem disse certa vez, em uma de nossas muitas conversas. A saída de casa aos dezessete anos contribuiu para isso. A situação de um amadurecimento “forçado” foi para mim ao mesmo tempo recompensante e difícil, e ela esteve presente nesse ciclo. Dividimos muitos momentos importantes de nossas vidas, embora nos últimos anos minha irmã, por estar ao seu lado, acompanhou muito mais de perto as conquistas e as agruras de minha mãe. Hoje acredito que nossa relação seja boa. Reconheço que ela gostaria de que estivéssemos mais próximos, mas eu prevejo isso para daqui a alguns anos, quando um novo ciclo se fechar. Nessa relação pais e filhos, um ponto importante é que, no período em que nós dois (eu e minha irmã) éramos crianças e, mais tarde, adolescentes, ficávamos muito mais próximos dela do que de meu pai. Nas concepções, nas visões de mundo, no afeto e na sinceridade. De minha parte, com o tempo fui entendendo mais o meu pai, ainda que continue discordando dele em várias questões e, além disso, também minha visão e concepção de mundo foram se formando. De toda forma, o carinho e as características de minha mãe, a formação mesmo, acho que foram se fortalecendo em mim. Acho que é por aí. Eu ainda tenho vontade de registrar gravações com depoimentos dos dois, pai e mãe, para deixar às nossas próximas gerações.

Fala da mãe

O relacionamento com meu filho em criança foi de muitas conversas boas, risos, brincadeiras. Contava histórias para ele dormir. Os assuntos polêmicos eu os tratava com certo cuidado. Com 4 anos ele queria saber o que era “camisinha”. Dei-lhe explicações fantasiosas. Aos seis, quando voltávamos da escola dele, eu os buscava a pé, e caminhávamos um longo caminho, ele achou na rua um preservativo. Tive que explicar que “aquilo” era uma camisinha. No que eu me lembro foi a única saia justa que passei com ele, em relação a uma informação não verdadeira.
Hoje ele tem 26 anos, é jornalista. Desde a adolescência nosso relacionamento foi de muito diálogo, muito afeto e muita verdade. Divergimos-nos em alguns aspectos em relação ao modo de ver a vida. Isso só nos aproxima e confirma que o afeto é que determina a qualidade das relações humanas. Tenho muito orgulho de meu filho. Eu o admiro e o respeito demais! Ele é um ser humano extraordinário.

"MENINO NO COLO"



FOTO DE LUCIANO ANDRADE


" Minha mãe achava o estudo a coisa mas fina do mundo.
_ A coisa mais fina do mundo é o sentimento." Adélia Prado

sexta-feira, 12 de junho de 2009

traduzindo...

Vinte Poemas de Amor – XX


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.

Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda

Um poema de Neruda para o dia dos namorados

Poema 20
(de Veinte poemas de amor y una canción desesperada)

Dolores del Río. Fotografía de Tina Modotti, amiga del poeta

PUEDO escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: " La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.

Leituras e leitores

Meus queridos,

Postei a entrevista com Fernando Kinas porque ele fala dos recursos e dos incentivos financeiros à cultura em nosso país. Ele cita como exemplo um projeto bem elaborado e bem executado por um grupo de intelectuais da capital paulista. As edições: Toró. Meu filho Sílvio Diogo faz parte desse projeto. Trabalha na editoração, arte gráfica, ilustrações, manuscritos,e tem dois livros publicados. Respingos e Clamores e Desenho do chão. É realmente desalentador o quadro que se apresenta em relação à cultura em nosso país. Infelizmente, nosso jovem não lê. E quando o faz escolhe banalidades e textos apelativos. O que é pior, leem na internet textos de auto-ajuda cuja autoria é atribuída à Neruda, Carlos Drummond... e os publicam nas páginas do orkut e em outras situações de comunicação e se acham cultos por lerem e gostarem de tais autores, dos quais na verdade, jamais leram sequer uma palavra.
É por aí que vai se instalando na alma das pessoas a era do vazio emocional, afetivo, cultural... Porque sem leitura o homem acaba por viver excluído de um universo fantástico que só a palavra bem dita é capaz de proporcionar

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Entrevista Tema incentivo à cultura

Soneto de Fidelidade

Um pouco de Vinicius...

Rondó pra você

De você, Rosa, eu não queria
Receber somente esse abraço
Tão devagar que você me dá,
Nem gozar somente esse beijo
Tão molhado que você me dá...
Eu não queria só porquê
Por tudo quanto você me fala,
Já reparei que no seu peito
Soluça o coração bem feito
De você
Pois então eu imaginei que junto
Com a boniteza, a faceirice,
A risada que você me dá,
E me enrabicham como o quê,
Bem que eu podia possuir também
O que mora atrás do seu rosto, Rosa,
O pensamento, a alma, o desgosto
De você.


Mário de Andrade